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Acolhimento de Satoko

Acolhimento de Satoko

Kigurumi de Satoko abre os braços aos novos amigos portugueses.

Ogimashi, Japão

Um Japão Histórico-Virtual

Até há pouco, os estúdios nipónicos produziam 60% de todas as séries de animação. “Higurashi no Naku Koro ni” teve enorme sucesso. Em Ogimashi, damos com um grupo de kigurumis das suas personagens.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


A evolução depressa se revelou fascinante como um qualquer nível do jogo que lhe deu origem. “Onikakushi-ken”, o primeiro título electrónico da série “Higurashi no Naku Koro ni” (“Quando as Cigarras Choram”) foi lançado em Agosto de 2002 para PC, em estilo visual novel e baseado no motor NScripter, informação que, nos dias de hoje, só dirá algo aos programadores mais informados.

A história desenrolava-se numa aldeia rural fictícia chamada Hinamizawa, aparentemente pacífica e tranquila mas onde a recém-chegada protagonista Keiichi Maebara vem a descobrir que, nos últimos quatro anos, tem morrido uma pessoa e desaparecido uma outra durante o Watanagashi-matsuri (Festival do Algodão Flutuante) que ali presta homenagem ao guardião da aldeia Oyashiro-sama. Ao longo dos jogos, intrigada e determinada, a adolescente investiga os vários mistérios com que se depara.

Não satisfeitos com o já de si complexo enredo passado para as pranchas e computadores, os criadores deram-se ao trabalho de desenvolverem um contexto histórico tão ou mais exaustivo e, surpreendentemente macabro. Foi esta dicotomia dinâmica entre o visual patusco predominante entre as personagens e o envolvimento malévolo por detrás que atraiu e fidelizou os fãs da série.

O seu principal mentor, Ryukishi07 (cavaleiro do dragão), confessou-se um fã inveterado da epopeia electrónica-nipónica “Final Fantasy”. Aliás, a Reina Ryugu de “Higurashi no Naku Koro ni” – uma das suas 6 adolescentes  - foi inspirada na heroína semi-homónima daquela outra produção.

De acordo com a imaginação de Ryukishi07, séculos antes, Watanagashi era conhecido como o Festival dos Intestinos Flutuantes. Servia para os aldeões limparem os seus pecados com o sangue de um humano torturado com recurso a ferramentas disponíveis no templo fictício Furude, segundo um processo meticuloso que envolvia pregar pregos em cada junta dos dedos da vítima antes de um sacerdote lhe retirar o estômago e os intestinos com um instrumento parecido com uma enxada, a que se seguia uma dança intrincada. As vísceras e o corpo seriam depois atirados ao rio e flutuariam com a corrente, simbolizando, assim, o afastar dos pecados das pessoas.

Em tempos mais recentes, o Watanagashi original começara a ser visto como demasiado violento e cruel. Os aldeões adaptaram, assim, o outro significado do prefixo wata (algodão em vez de intestinos).

A partir de então, contribuíram com velhas peças de vestuário cujo algodão seria retirado e reunido num grande futon. O sacerdote passou a esventrar o futon em vez de um infeliz humano e caberia a cada aldeão retirar um pedaço do enchimento para colocar a flutuar no rio. Vários outros acontecimentos e ligações passados apimentam o desenrolar da saga que segue as fórmulas mais inesperadas do suspense psicológico.

Em Agosto de 2006, já existiam oito jogos. “Higurashi no Naku Koro ni” teve tanto sucesso que justificou o lançamento de CDs com animação. Pouco depois, seguiu-se a adaptação para manga, publicada na revista “GanganPowered” com ilustrações da famosa artista Karin Suzuragi. Quase ao mesmo tempo, saíram a versão animéHigurashi no Naku Koro ni Kai” e um conjunto de animações vídeo originais.

O sucesso, cada vez mais internacional, nunca cessou de aumentar e esta última experiência, em particular, justificou, em 2008, a adaptação cinematográfica da série. 

Da última vez que viajámos pelo Japão, sentimos o mesmo apelo inspirador de Ryukishi07 por Shirakawa-Go, um reduto interior e semi-rural da região de Hida que a UNESCO classificou como Património Mundial para proteger a sua cultura e, em particular, as casas gassho-zukuri («mãos em oração»), aperfeiçoadas com o passar dos séculos com o fim de resistir à meteorologia caprichosa daquela que é uma das zonas mais nevosas à face da Terra.

Visitamos o lugar com expectativas elevadas que, malgrado o fluxo excessivo de visitantes quase inevitável nas ilhas do sol nascente, acabam por se cumprir.

Chegamos ao fim do segundo dia de exploração da zona. O sol já desapareceu por detrás da encosta íngreme da montanha de Hakusan e a noite anuncia-se sobre o vale de Shokawa. Sem qualquer aviso, o cenário misterioso do templo Hachiman-jinja é invadido por um bando de kigurumis (bonecos animados por pessoas).

As suas figuras garridas e cândidas passeiam-se sobre a escadaria irregular. Insinuam-se e interagem com movimentos e poses tão expressivos e sentimentais que poderiam seduzir o mais rude dos humanos. Persegue-os um grupo coordenado de fotógrafos que reage a qualquer solicitação, sob supervisão descontraída e afável de Chikima, um criativo sui generis da série.

No tempo que passou, o filme tinha tido um excelente retorno de bilheteiras e justificou a aposta do estúdio numa sequela cinematográfica “Higurashi no Naku Koro ni Chikai” um título que, à boa maneira nipónica, voltou a explorar o duplo sentido das palavras: naku pode significar tanto “sons feitos por organismos não humanos” como “chorar”.

Em cada episódio da longa saga, a protagonista descobre que um dos amigos tinha sofrido uma demonização e cometido os crimes. Para cúmulo dos cúmulos, por norma, as vítimas são os seus próprios amigos: Mion, Shion, Rena, Satoko, Hanyū e Rika. A história desenvolve-se em capítulos questão, capítulos de resposta e alguns outros extra. São também criados finais paralelos, uns aterrorizantes outros mais suaves.

No fim de 2009, foi lançado para Playstation “Higurashi no Naku Koro Ni Matsuri: Kakera Asobi”. Nesta versão, se os jogadores tomarem determinadas decisões, podem gerar um desfecho mais terrível ou agradável para dois fins distintos da série: “Miotsukushi-hen” (Drenagem do Canal) que é, segundo o autor, o verdadeiro final ou o mais feliz “Matsuribayashi-hen” (Música do Festival).

Quando encontramos os kigurumis, apesar do cenário algo arrepiante formado pelos pinheiros e ciprestes nipónicos da floresta de Ogimashi, o grupo está a salvo e exibe as suas melhores expressões de empatia. Aproveitamos para entramos, por momentos, naquele improvável convívio abonecado e fazemo-nos fotografar na sua companhia e na de Chikima sem grande comunicação verbal para lá de uns "segoys" (cool, giro) e "arigatos" ou não fossem aqueles japoneses, como a grande parte, inábeis no uso de línguas estrangeiras e, nós, meros estudantes preguiçosos do seu exigente dialecto.

Faltam apenas uns minutos para o escuro se apoderar em absoluto do vale e os curiosos que acompanhavam a acção promocional já debandaram.

Os telhados dos gasshos soltam fumo branco com cheiro a lenha mesmo ao lado do parque de estacionamento improvisado em que tínhamos deixado o carro alugado, numa espécie de quintal repleto de diospireiros carregados. Ali, assistimos a um inesperado desmistificar da série.

Damos com a carrinha da comitiva de Chikima na proximidade da nossa. Fechado mais um dia de trabalho, os jovens que animavam os sete kigurumis despiam as cabeleiras e fatos e transformavam-se em adolescentes de carne e osso – mais osso que carne, diga-se de passagem. De cuecas, sob uma temperatura quase negativa, tremiam de frio, desejosos de  mudarem aquele desagradável final.