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Ohmmmmmmmmmm

Ohmmmmmmmmmm

Tabuleta indica um dos retiros de ioga instalados nesta pequena povoação perdida no litoral oeste da Costa Rica.

Montezuma, Costa Rica

Um Recanto Abnegado da Costa Rica

A partir dos anos 80, Montezuma acolheu uma comunidade cosmopolita de artistas, ecologistas, pós-hippies, de adeptos da natureza e do famoso deleite costariquenho. Os nativos chamam-lhe Montefuma.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Não temos bem a certeza das horas e, no término da doca, o ferry fumega. Corremos atrapalhados pela bagagem até que a nossa aflição inquieta alguns trabalhadores numa pausa descontraída. “Calma rapazes que se estendem ao comprido! O barco ainda tarda a sair. Respirem fundo. Têm tempo de lá chegar a andar.”

Cada vez mais doloroso, o esforço compele-nos a fazer fé nas suas palavras. Recuperamos o fôlego e aproveitamos para contemplar com olhos de ver a azáfama do porto que se estendia pela margem da pequena protuberância geográfica.

Barco após barco, pescadores desembaraçam as suas redes, grupos de outros escolhem espécimes aproveitáveis de entre grandes molhos avermelhados de camarões recém-capturados. Algumas centenas de metros para diante, submetemo-nos ao embarque.

Pouco depois de subirmos ao convés superior, o “Tambor III” zarpa para as águas azuladas do Golfo de Nicoya com destino à península homónima oposta, de longe a maior da Costa Rica com mais de 100 km de extensão.

Vários dos principais redutos balneares do país dos ticos situam-se no litoral desta saliência dependurada do noroeste do país que, até 1940, se mantinha coberta de selva. Grande parte deles são isolados pelo relevo da costa e têm acessos complicados, principalmente após chuvas intensas. Era o caso de Montezuma, uma das povoações balneares mais alternativas mas, ainda assim, mais procurada daquelas paragens.

Uma hora de navegação tranquila depois, o “Tambor III” completa as manobras de atracagem e abre as suas comportas sobre o cimento do porto de Paquera. Um batalhão de costariquenhos e forasteiros transborda de forma ordeira para um velho autocarro já à espera.

O veículo garrido faz a viagem pela face sul da península, com passagem pela baía que emprestou o nome ao ferry. Ao fim de algumas horas adicionais por estradas de terra mal batida chega, por fim, a Montezuma.

Tentamos contacto telefónico com as famílias que nada de nós sabiam há demasiados dias. Em vão.

Já de noite, instalamo-nos na Pensión Jenny, conhecida pelos seus preços misericordiosos. O guia-livro informa-nos, sem cerimónias, que vários outros hóspedes a tinham descrito como uma espelunca mas, devido a recentes remodelações, encontramo-la já condigna, sem que a conseguíssemos achar propriamente acolhedora.

Antes que os negócios da povoação fechassem, só temos tempo para comprar um jantar improvisado de melancia e iogurte que devoramos, exaustos, na varanda do pequeno quarto que nos calhara.

Até nos arrastarmos para a cama, ainda ficamos uma boa hora recostados nas cadeiras de praia, a escutar a combinação de sons que para sempre reteremos de Montezuma: o das ondas do oceano Pacífico a desfazerem-se no litoral selvagem; o dos jambés provindo das praias e o mais dramático de todos, o das comunicações excitadas dos macacos-uivadores que habitam a floresta tropical íngreme mais acima na encosta.

Despertamos rejuvenescidos mas abafados por um calor pouco surpreendente naqueles aposentos nada refrigerados. Espreitamos a praia mais próxima e acabamos por lá tomar o pequeno-almoço sobrevoados por esquadrões organizados de pelicanos que se coordenavam em frequentes mergulhos picados sobre os cardumes mais próximos do areal.

Da praia, caminhamos, sem pressas, até à queda d’àgua em que se precipitava o rio na origem do baptismo da aldeia. Não tardamos a encontrar a outra homenagem natural costariquenha ao imperador asteca que, salvo erros crassos nos registos históricos, nunca submeteu aquelas terras centro-americanas, como só mais tarde o império hispânico viria a fazer.

Quando chegamos, já a clareira imposta pela lagoa acolhe vários grupos internacionais de veraneantes apostados em viver a Pura Vida que os Ticos promovem com orgulho. 

Há um aroma inconfundível a marijuana no ar. A sua fonte volta a passar de mão em mão de cada vez que um dos descontraídos consumidores sai de água e se volta a instalar sobre as rochas. “Tu, outra vez ?” Refila um dos elementos mais controladores do clã. “Não tarda, ficas a dormir no fundo.” acrescenta no espanhol acelerado e bem mais suave que o original das redondezas, para risada geral. 

Mas nem todos os frequentadores estão em modo de descompressão. Um em particular, de meia-idade e em grande forma, precisa de adrenalina e de protagonismo. Vemo-lo trepar a escarpa afiada de que se precipita o rio. Quando chega ao cimo, olha em redor como que a confirmar a atenção da plateia e benze-se. Sem mais procedimentos ou demoras, lança-se, de pés, do penhasco assustador e penetra na água escura sem grande espalhafato. Quando vem à tona, recebe alguns aplausos recompensadores dos espectadores mais jovens. A manhã continua a fluir, como o caudal ali vertical do rio.

Fartamo-nos do ambiente fluvial. Estava na hora de explorarmos o litoral bravio que havia tornado Montezuma famosa. Fiéis ao plano, caminhamos toda a tarde por areias ora bem escuras ora cinzentas e entramos em enseadas suaves ou cobertas de lajes rochosas. Nesse período delicioso de descoberta, a maré encheu de forma dramática. Ainda vimos uma mulher em descanso balnear literário ser corrida do que restava do areal por uma onda mais forte. No regresso ao centro, constatamos com grande fascínio, como as vagas chegavam a entrar pela vegetação verdejante adentro e também causavam em iguanas e outros animais desprevenidos sobressaltos dignos de registo.

Por essa altura, o sol já não escaldava na pele como até então. Vinda dos seus retiros de ioga e reiki, passeios a cavalo, caminhadas de canopy e oficinas de artesanato, uma corrente de gente dos quatro cantos do Mundo invadia as praias maiores poupadas pelo oceano e inaugurava novos convívios ainda e sempre animados por jambés, maças e diábolos.

Passamos por duas banhistas alemãs, tatuadas de forma excêntrica mas nem por isso demasiado deselegante. À margem desta celebração peculiar da natureza e de cada um dos seres que as protagonizavam, estas amigas levavam a cabo a sua própria comunhão, entregues a uma conversa bem mais profunda que a piscina marinha deixada pela praia-mar em que permaneciam deitadas.

Estávamos a uns meros 10º a norte do equador. O sol não tardou a cair para o outro lado do Pacífico. Após duches de água que apenas o calor concentrado nos depósitos da Pensión Jenny tornara tépida, voltamos a sair para o centro irrisório da povoação.

Anos depois, continuava em falta um posto de correios. A única caixa ATM teimava na avaria recorrente que a amaldiçoara e não dispensava cólones, o dinheiro da Costa Rica denominado em honra do descobridor das Américas. Por sorte, o que preservávamos chegava para mais uns dias naquele retiro polémico mas abençoado.

Já sob as luzes fracas e difusas do mini-mercado de artesanias que entretanto se formara, inspeccionamos as mercadorias que sustentavam muitos dos veraneantes alternativos com que nos tínhamos cruzado durante o dia.

Pouco depois, rendemo-nos à fome e entregámo-nos a dois casados (refeições com arroz feijão-preto, banana frita, salada e tortillas) a sumos de tamarindo e, logo, a cervejas Ambar bem geladas.

A banda sonora dos macacos-uivadores e dos jambés não tardou a apoderar-se da noite.