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Hipo-comunidade

Hipo-comunidade

Hipopótamos semi-submersos no rio Chobe.

PN Chobe, Botswana

Um Rio na Fronteira da Vida com a Morte

O Chobe marca a divisão entre o Botswana e três dos países vizinhos, a Zâmbia, o Zimbabwé e a Namíbia. Mas o seu leito caprichoso tem uma função bem mais crucial que esta delimitação política.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Quando questionado sobre as razões do re-casamento com Elisabeth Taylor, apenas 16 meses depois de se divorciarem após 10 anos de vida conjugal, Richard Burton respondeu “Não se pode bater duas barras de dinamite uma contra a outra sem esperar que não rebentem”. O casal escolheu um lugar de que poucos norte-americanos precavidos se lembrariam, na iminência da guerra civil explosiva que então grassava na Rodésia, um estado não reconhecido decretado pela minoria de colonos brancos para evitar a passagem directa do poder da Grã-Bretanha para líderes indígenas.

Burton e Taylor meteram-se num jacto privado na África do Sul e voaram para aquele mesmo território (Zimbabué dos dias de hoje). Cruzaram então para o Botswana e celebraram a sua segunda cerimónia nupcial em Kasane, uma cidade tão improvável como habituada a conviver com uniões, situada sobre os Four Corners de África e junto à confluência dos rios Chobe e Zambeze. A lua de mel dos actores foi passada no Chobe Game Lodge, na margem do rio homónimo. Conscientes da beleza natural da sua terra e da quantidade de vezes que Taylor se divorciou, é frequente ouvir-se os tswanas daquelas paragens reiterarem que a diva “era muito melhor a escolher sítios do que maridos”. Estávamos a caminho deste mesmo albergue. As estradas dignas do Botswana comprovavam-nos o desnível económico entre a nação pouco habitada mas fortemente diamantífera dos tswanas e a dupla Zim-Zam a norte. Permitiam-nos avançar a velocidades surpreendentes. Não tardaria a que também ouvíssemos a piada.

O Chobe Lodge foi inaugurado em 1974. Acolheu o casal em Outubro de 1975. Alguns  anos depois, foi encerrado devido ao alastrar da já longa Guerra de Libertação do Zimbabué. Durante sete anos manteve-se de portas seladas, com os seus jardins entregues ao mato e aos elefantes que os espezinhavam a caminho do rio.

Com o fim do conflito, dois jovens sul-africanos compraram-no, recuperaram a tradição das bodas de famosos e impulsionaram-no para um inevitável estrelato mundial.

O rio que deu sentido à sua construção e ao sucesso fluiu ao longo das décadas, indiferente às escaramuças militares e às capas das revistas de sociedade, dependente apenas da meteorologia caprichosa da região.

O Chobe é abastecido por várias nascentes perenes de água. Ainda assim, o volume do seu caudal oscila de forma drástica da época seca (por norma de Maio a Outubro) para a das chuvas. Os animais tentam ajustar-se o melhor que podem mas, como constatamos e voltamos a constatar em incontáveis documentários televisivos, no geral, a qualidade das suas vidas decresce à medida que o sol escaldante intensifica a estiagem e o rio encolhe. 

Nenhuma espécie tem que raciocinar por aí além para evitar o calor sufocante que se faz sentir a partir do meio da manhã. A maior parte dos animais acerca-se cuidadosamente das margens pela fresca. De acordo, as saídas fluviais levadas a cabo pelo lodge são ou madrugadoras ou, como a primeira em que participamos, de fim de tarde.

A embarcação zarpa da pequena doca e interna-se no rio sob o olhar perscrutador de uma águia pesqueira no topo de um tronco morto. Seguimos rente à água. Pouco depois, confrontamo-nos com uma enorme manada de búfalos que pasta relva fresca. Sem que o esperássemos, a beira do rio eleva-se. Num ápice, passamos a admirar os bovídeos de baixo para cima. Alguns espécimes tiram-nos as medidas a partir daquele pedestal ervado, como fazem, do bordo oposto, elefantes curiosos, reis e senhores de pequenas ilhas verdejantes de que se lançam crocodilos intimidados.

A balsa continua o seu percurso arrastado, entre o Botswana e a Namíbia, entretanto sob um céu magenta que se reflecte na água e tinge grandes colónias de hipopótamos quase submersos. Percebemos apenas as suas orelhas e olhos de fora, estranhamente rosados pelo crepúsculo que se anuncia e à hora de regresso ao ancoradouro.  

Com a alvorada seguinte, subimos a bordo de um jipe, em vez da balsa e, por terra, exploramos uma vasta área ribeirinha percorrida por gazelas e alguns predadores, parte de um game drive – assim lhe chamam os anglófonos – que não trouxe grandes novidades.

Entretanto, regressamos a Kasane com o objectivo de cruzarmos o Chobe e a fronteira para a Namíbia, através da inusitada Caprivi Strip, uma espécie de lança cartográfica que os germânicos espetaram em África, durante a era colonial.

No final do século XIX, o território de que nos aproximamos enquanto atravessamos o Chobe estava integrado na Bechuanalândia, o Botswana dos dias de hoje. Mas, em 1890, a Alemanha fez finca pé para juntar a ilha de Zanzibar - então britânica – à sua colónia Tanzânia.

Após diversos ensaios diplomáticos, os britânicos concordaram em ceder Caprivi e em dar aos alemães acesso directo ao rio Zambeze. Como contrapartida, preservaram Zanzibar e apoderaram-se de Heligoland, uma outra ilha remota do Mar do Norte.

Instalamo-nos no Chobe Savanna Lodge. À imagem dos nomes dos albergues até então anfitriões, os cenários do rio são, em quase tudo semelhantes.

A grande novidade e emoção tem lugar quando, durante novo safari fluvial, a balsa invade demasiado o território de alguns hipopótamos e um deles investe furibundo contra a embarcação. O ataque fez-nos perder momentaneamente o equilíbrio a bordo e obrigou o skipper a afastar-se com recurso à potência máxima dos motores. Por sorte, durou pouco e, uma vez passado o perigo, alimentou inúmeras piadas oportunistas.

De Caprivi mudamo-nos para o sudoeste do PN Chobe, num voo de 45 minutos em que sobrevoamos e contemplamos a diversidade de tons e padrões do deserto do Kalahari que mudam consoante a quantidade de água no subsolo, cruzados por estradas de mato rectilíneas e sem fim aparente.

Aterramos numa pista de terra batida perdida no Savuti, o resquício de um vasto lago pré-histórico que teve o seu abastecimento de água cortado por movimentos tectónicos e é hoje encharcado de forma errática por um canal homónimo. Este canal mantêm-se seco por longos períodos mas, de quando em quando, volta a fluir segundo a actividade da crosta terrestre sob aquela área.

Por consequência deste fluxo imprevisível, o curso em particular mantêm-se salpicado por árvores mortas. A região está coberta de savanas e pastos extensos. Na época seca, visitam-na javalis, kudus, impalas, zebras, gnus e elefantes, entre outros. Quando é irrigada, juntam-se-lhes mais de 450 espécies de aves e grupos de leões, hienas e chitas. 

Alguns lodges aproveitaram esta exuberância animal, instalaram-se e revelam, ao vivo, aos seus hóspedes privilegiados, a dinâmica de sobrevivência que rege o ecossistema local, famoso, em particular, por os leões terem desenvolvido apetência por atacarem elefantes.

À entrada no Savute Safari Lodge somos mais uma vez avisados de que os edifícios do lodge não estão isolados da savana e de que, principalmente de noite, a vida selvagem neles se podia desenrolar. Por essa razão, para nos mantermos a salvo dos predadores, quando quiséssemos sair para o exterior, teríamos que chamar um guia protector.

Pouco depois, descobrimos que o quarto que nos fora atribuído ficava a uns escassos metros de alguns charcos colonizados por elefantes. E que, com sorte, poderíamos assistir às caçadas dos felinos sentados na varanda em vez de na TV, mesmo tendo em conta  que a BBC ali filmou várias cenas do 2º episódio da sua série “Planet Earth”.

A noite avança mas os leões devoradores de elefantes teimam em não aparecer. Desgastados pelo calor atroz, os sucessivos despertares madrugadores e as viagens, acabamos por sucumbir ao sono, como a maioria dos hóspedes que se forçavam de alerta.

Ao nascer do novo dia, Fred, um guia tswana de outro game drive iminente, apresenta-se e lamenta a falta de sorte. Promete-nos que fará tudo para compensar. Não demoraria muito.

Viajamos sobre a caixa do Land Rover quando três hienas se atravessam no caminho, curiosas e soberbas. Fred imobiliza o veículo, desce para o solo e, para espanto absoluto dos passageiros, gatinha na sua direcção. Não satisfeito, pergunta-nos se o queremos seguir. O autor inconsciente deste texto vai na cantiga do indígena. Gatinha atrás dele e fotografa aquela interacção insólita. Fred persiste e investe contra as criaturas nervosas que recuam alguns metros mas depressa se voltam e ameaçam retaliar. O guia não se deixa intimidar e retoma o ataque que passa a ilustrar com grunhidos excêntricos. “Vai fazendo uns sons deste tipo”, pede, sem cerimónias. “E, quando eu avançar, cola-te a mim!”.

Por essa altura, estou tão curioso como as hienas para saber que espécie imitávamos. Fred vira a cabeça para trás e esclarece com eloquência e tranquilidade desesperante: “Ah, é um qualquer animal ferido ou moribundo. Como sabes, as hienas são necrófagas. Todos os espécimes vulneráveis as atraem!”.

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