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Rumo ao vale

Rumo ao vale

Teleférico dá início à descida para o fundo da garganta do rio Debed, onde se situam a mina e fundição que deram origem à cidade de Sanahin.

Alaverdi, Arménia

Um Teleférico Chamado Ensejo

O cimo da garganta do rio Debed esconde os mosteiros arménios de Sanahin e Haghpat e blocos de apartamentos soviéticos em socalcos. O seu fundo abriga a mina e fundição de cobre que sustenta a cidade. A ligar estes dois mundos, está uma cabine suspensa providencial em que as gentes de Alaverdi contam viajar na companhia de Deus.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Revela-se curta a distância entre a fronteira Geórgia-Arménia e o início do longo canyon do rio Debed. A estrada M6 é a principal via entre estes países vizinhos. Emula os meandros do seu leito sinuoso, leva-nos em direcção a sudoeste, para mais próximo da capital Ierevan com passagem por cinco povoações dignas de registo nos mapas: Ayrum, Karkop, Snog, Akthala e Neghots, todas elas com as suas igrejas, capelas ou, pelo menos, conjunto de katchkars (pedras memoriais seculares com inscrições).

Ficamos pela terra seguinte, Haghpat. Para lá chegar, subimos ao quase topo da garganta que antes percorríamos. Aos poucos, deixamos o cenário ribeirinho arborizado e amarelo-acastanhado ainda outonal e entramos numa meseta bissectada, ervada e verdejante a condizer. Haghpat, a aldeia, surge numa zona da encosta que lhe concedeu estabilidade. Uns poucos quilómetros antes de a atingirmos, já vislumbramos a torre de pedra do mosteiro homónimo, destacada acima do casario sombrio. Mas, desperta-nos os sentidos um monumento exuberante protegido atrás de um portão. Desviamo-nos para o investigar. O torso parcial de um soldado empunha uma tocha, acima de uma laje de cimento com centenas de nomes inscritos. Tendo em conta o historial conflituoso da Arménia, não nos foi difícil supor que se tratava de um memorial aos soldados caídos em combate na guerra contra o Azerbaijão pelo enclave de Naghorno-Karabakh. Assim nos confirmou Cristina Kyureghyan, a guia que nos acompanhava desde o momento em que deixámos a Geórgia e com ela nos encontrámos do lado arménio de Bagratashen.

Os Arménios sentem este e outros conflitos históricos de forma intensa. Cristina e o motorista Vladimir passavam por ali, em trabalho, vezes sem conta. Ainda assim, em silêncio, prestam-lhe a homenagem devida.

Haghpat não é um lugar qualquer. Abriga um complexo monástico fundado no século X, de tal forma preservado e emblemático que a UNESCO o classificou e financia parte da sua recuperação. Estamos uns dias para lá da época turística alta em que os visitantes se sucedem em autocarros de agências de Ierevan. Como viria a acontecer em vários outros mosteiros da nação, não encontramos vivalma nas imediações. Só momentos mais tarde surge do nada uma crente esquiva encarregue de abrir as portas do templo e de vigiar os forasteiros. A guardiã apercebe-se que estamos com compatriotas seus conhecidos e não se demora.

Ficamos a absorver a atmosfera mística do mosteiro, dividido por três edifícios principais de pedra escurecida pelo tempo. Fundado em 976 por uma rainha de nome Khosrvanuch, o templo está disposto em redor um edifício central mais antigo, a catedral de Sourb Nishan, com os seus pequenos telhados a emergirem do solo relvado. Foi mais tarde dotado de um campanário, de uma biblioteca/scriptorium e de um refeitório que permitiram aos monges estabelecer-se e aprofundar a sua vida monástica. Uma inscrição no átrio de acesso à nave principal versa: “Quem entrar por esta porta e se prostrar perante a Cruz, nas suas preces recorde-nos e aos nossos ancestrais reais que jazem à porta da catedral sagrada, em Jesus Cristo.”

Tanto na catedral de Sourb Nishan como nas capelas de Sourb Grigor – dedicada ao Santo Gregório que introduziu o Cristianismo na Arménia - e de Sourb Astvasatsin, a acústica dos interiores frios e lúgubres é surreal. São verdadeiros antros da repercussão aqueles em que entramos e logo testamos simples ecos aleatórios para nos rendermos às evidências.

Três homens surgem do nada. Apreciam o mosteiro tão curiosos e fascinados como nós, com tempo adicional dedicado aos khatchkars e túmulos dispersos no interior e em volta.

Desde a saída madrugadora de Tbilissi que adiávamos o almoço. Por mais religiosa que a visita se provasse, não podíamos continuar com tal jejum. Descemos, assim, à povoação desde há séculos submetida à supremacia clerical e instalamo-nos num restaurante tradicional.

Como sempre acontece na Arménia, na Geórgia, por estes lados do Cáucaso em geral, somos prendados com novo banquete papal. Findo o repasto, espreitamos a paisagem a partir de um limiar da encosta com vista privilegiada. Dali, percebemos a configuração da garganta do rio Debed e, ao longe, o complexo industrial de Alaverdi e a cidade a que deu origem. É para lá que, sem mais demoras, nos mudamos.

No curto percurso, ainda nos detemos no único cemitério rodoviário com que nos deparámos à face da Terra. Estendia-se por umas boas centenas de metros, no sopé da encosta íngreme e, então, outonal, prestes a invadir o asfalto da M6. Quando nele nos detemos e por um bom tempo, quase só Ladas e Volgas – veículos moribundos da era Soviética - circulavam em ambos os sentidos.

De mosteiro milenar, passamos a mosteiro milenar. Do de Haghpat, ao de Sanahin. Também este foi erguido no século X, num clima de indisfarçável rivalidade. O termo arménio “Sanahin” traduz-se como “este, mais velho que aquele”. O nome original da edificação terá sido mudado com o exacto propósito de clarificar qual dos templos – e não o outro - era o primordial.

À margem da antiguidade, também Sanahin foi classificado património mundial pela UNESCO. O critério principal da organização para a escolha dos dois mosteiros vizinhos e antes, rivais, foi o facto de “representarem o mais elevado florescimento da arquitectura religiosa da Arménia cujo estilo único se desenvolveu de uma combinação de elementos da arquitectura eclesiástica bizantina com a arquitectura tradicional vernacular da região do Cáucaso”. Não seria aquele o único património peculiar que encontraríamos em Alaverdi e arredores.

Descemos para a zona habitacional da cidade. Cruzamo-nos com um pastor que acabara de soltar um pequeno rebanho de cabras do curral e com um grupo de jovens entretidos a atiçar pitbulls de combate. Cinquenta metros abaixo, destacado sobre um espaço museológico amplo e para lá de um busto de bronze, descobrimos um avião-caça prateado. Até então, algo neutral, o motorista Vladimir intui a nossa curiosidade e apronta-se a explicar. “É um Mig. Ao lado está a homenagem ao inventor arménio, Artem Mikoyan.”

“O Mig teve um inventor arménio?” indagamos sem disfarçarmos a surpresa. Vladimir confirma-o com uma expressão ao mesmo tempo contida, veemente e orgulhosa. “Há arménios por toda a parte. Dezenas de famosos, são arménios ou de origem arménia e vocês nem fazem ideia. Cristina alia-se ao colega. “Sabem porquê? Porque eles mudam os nomes. Retiram-lhes a parte final de “ian” ou “yan”. A ideia é evitarem terminações de apelidos que, de outra forma, teriam que partilhar.”

Não os vamos agora enumerar, mas ficámos a par de vários exemplos, de que Kim Kardashian e a sua glamorosa e voluptuosa família são óbvias excepções.

Após o exame cuidado do temido caça, descemos parte da encosta para o âmago dos blocos habitacionais que tínhamos vislumbrado do miradouro de Haghpat, atentos aos seus negócios incaracterísticos ou mal-amanhados e aos transeuntes taciturnos, muitos deles com cabelos claros que testemunhavam a mixagem étnica arménia-eslava de outros tempos.

Dá-nos a ideia de que aquelas partes da Arménia já tinham tido melhores dias. Cristina valida-o. ”Depois da queda da União Soviética, deixou de haver dinheiro. A Arménia não o tinha. A Rússia não o mandava. A manutenção da mina e das fábricas tornou-se impossível. Ficaram ao abandono. Foram tempos difíceis para as famílias que aqui moravam há décadas. Uma boa parte teve que se mudar para Ierevan ou emigrar. Só há uns tempos é que o governo arménio, com algum investimento estrangeiro, conseguiu recuperar os complexos. A produção voltou a encarrilar mas ainda não é a mesma coisa.”

Faltava-nos investigar o fulcro industrial da questão. Acabamos por encontra-lo por nossa conta. Numa incursão mais certeira a várias vias que nos pareciam terminar no abismo sobre o Debed, esbarramos com a plataforma de um inesperado teleférico. Desse estranho e decadente ápice, entre moradores que, enquanto aguardavam pela partida da próxima cabine desvendamos a razão metalúrgica de ser de Alaverdi e dos seus.

Aproximamo-nos do limite do varandim e espreitamos. Lá em baixo, entre a margem norte do rio e as montanhas opostas, dispunha-se o esqueleto férreo e ferrugento da velha fundição de cobre da cidade. Sob a terra, escondia-se a mina que lhe fornecia a matéria-prima. Dois conjuntos triplos de cabos de aço, ligavam as alturas em que estávamos à base industrial ribeirinha que há séculos lá havia sido instalada.

A fundição de Alaverdi foi inaugurada em 1770 por ordem de um rei georgiano que então dominava o território desta que é a província arménia de Lori. Em pleno século XIX, contou com investimentos franceses e russos que fizeram o negócio florescer, ao ponto de assegurar cerca de 13% de todo o cobre produzido no Império Russo. Em 1909, completou-a uma central hidroeléctrica no rio Debed que passou a gerar a energia necessária ao complexo. Já em plena era soviética, ordens do Kremlin ditaram novas construções massivas, incluindo os bairros que promoveram Alaverdi a cidade. Mais recentemente, um tal de projecto nacional “Armenian Copper” tem vindo a expandir o número de minas, aumentar a fundição e a promover um substancial aumento de empregos.

Um vento desenfreado percorre o canyon do Debed com rajadas que, de tempos a tempos, chegam a importunar quem está na estação superior do teleférico. As horas dos seus vaivéns estão adaptadas aos turnos dos trabalhadores da mina e, solidário com a classe operária, o chefe de operações ainda permite a descida que se segue mas, não tarda a cancelá-los. Apesar de estarem acostumados ao vento e a estes percalços, os passageiros entram a bordo com má cara. Estranham as intenções fotográficas com que chegámos de rompante. E receiam o provável bambolear da cabine durante o percurso vertiginoso. As portas fecham. A cabine desce, algo mais oscilante do que seria normal, mas sem incidentes. Ficamos sozinhos no alto. Até que Cristina nos resgata daquela evasão nas alturas para o nível da fundição.

Num equilíbrio precário sobre um muro de beira da estrada que serpenteava encosta abaixo, apreciamos o ocaso deixar a secção mais próxima de nós à sombra e, aos poucos, dourar os edifícios e o labirinto de tubagens do lado de lá do Debed. Nessa noite, era suposto dormirmos em Ierevan. Ainda estávamos a 3h30 de caminho.