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Manobras a cores

Manobras a cores

Soldados reais do Palácio de Gyeongbokgung desfilam com armas e estandartes numa das cerimónias de render da guarda.

Seul, Coreia do Sul

Um Vislumbre da Coreia Medieval

O Palácio de Gyeongbokgung resiste protegido por guardiães em trajes sedosos. Em conjunto, formam um símbolo da identidade sul-coreana. Sem o esperarmos, acabamos por nos ver na era imperial destas paragens asiáticas. 


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Quanto mais caminhamos pelos túneis do metro e falamos em inglês com o último dos expatriados que conhecemos em Seul mais nos custaa crer no surrealismo da conversa: “the kids there in my school just love snakes!” “Snakes, really? Are you sure?” tentamos confirmar, abismados. Pouco, depois, o interlocutor pergunta: “Do any of you guys have a pin by chance?” “A pin?” voltámos a perguntar sem perceber para que raio iria querer um pin naquele momento... e os mal-entendidos continuariam pelo fim de tarde fora. Foi preciso mais algum tempo para que nos inteirássemos por completo do que se passava. Paul Parsons era um jovem neozelandês de face ruborizada pelo frio e olhos azuis fugidios. Fora contratado por uma escola de Seul para dar aulas de inglês a crianças. O problema começava no seu forte sotaque kiwi da zona de Napier que transformava meros snacks em snakes, pen em pin bem como outras incontáveis mutações tóxicas à inteligibilidade. Ao confrontar-se com este sério obstáculo aos objectivos do estabelecimento de ensino, o director pediu-lhe para falar inglês dos States em vez do seu kiwi mas Paul recusou-se porque, quando o contrataram, sabiam que ele provinha da Nova Zelândia e não dos States. Vimo-nos tão vítimas da sua integridade como os pequenos coreanos seus pupilos mas, aos poucos, lá nos entendemos. Acabámos por confraternizar bem mais do que pensámos possível.

O rechonchudo cantor Psy feito milionário pelo YouTube tornou a febre do bairro de Gangnam pela equitação e requintes afins globalmente famosa. Paul Parsons mostrou-nos como, pelo menos a vertente equina, se tinha disseminado a várias outras partes da cidade e levou-nos a participar em aulas particulares de que um professor seu amigo estava encarregue num picadeiro com visual suburbano. Demos umas voltas a passo, depois a trote que pouco fizeram aumentar o bafo dos animais condensado pelas temperaturas siberianas que já se faziam sentir debaixo do céu azul sobre a península coreana. A alvorada seguinte trouxe uma atmosfera igual, talvez ainda mais fria. Deixámo-nos dormir por duas horas extra e a Paul Parsons muito mais. O anfitrião tinha chegado já de dia da farra com os amigos. Garantidamente ressacado, nem a equitação dessa manhã nem repetir o programa de assistir ao render da guarda real só para nos fazer companhia lhe passavam pela cabeça palpitante.

Por volta das 8h 40, saímos para o gelo cruel do Inverno coreano precoce determinados em espreitar aquele que era considerado o palácio mais imponente da Coreia do Sul, o mais sumptuoso dos cinco mandados construir pelos monarcas da dinastia Joseon que lideraram a nação do fim do século XIV ao final do XIX.

Chegámos junto à entrada principal do complexo e deparámo-nos com umas poucas dezenas de pessoas à espera. Juntámo-nos ao grupo. Passados alguns minutos, começou a soar uma música oriental antiga. Em simultâneo, militares coloridos de uma outra era contornaram a esquina do palácio e vieram na nossa direcção afastando-se da vertente granítica do Monte Bugak. Trajavam longos quimonos acetinados vermelhos ou em diferentes tons de azuis, todos eles com pescoceiras de pelo felpudas que protegiam a nuca e parte considerável da face do frio cada vez mais acentuado. A completar a indumentária, cada um dos guardiães tinha ainda um colar de contas e um capacete em forma de chapéu feito numa espécie de verga fina em que iam espetadas penas decorativas de pavão e outras aves.

Vários deles, seguravam bandeiras e estandartes tão ou mais coloridos que os seus trajes, alguns, espadas, outros, escudos e armas com longos cabos e lâminas recortadas, similares às glaives medievais europeias. Outros ainda eram arqueiros. Além dos arcos nas mãos, transportavam conjuntos de grandes flechas às costas.

Enquanto a música se desenrolou, os intervenientes levaram a cabo uma coreografia simples que os fez alinhar de forma pomposa com as bandeiras ao vento, primeiro de frente para o portal principal do palácio, logo com o palácio pelas costas. Então, alguns recolheram para o seu interior. Deixaram os contemplados com turnos de vigia numa guarda congelada em posições chave do pórtico para gáudio da pequena multidão de espectadores que aproveitou para com eles se fotografar, sob a arquitectura elegante das muralhas e entradas inaugurais do palácio.

Já tínhamos assistido a inúmeras cerimónias de render da guarda e de içar e recolher da bandeira em diversos países. Até então, nenhuma nos tinha impressionado tanto pela beleza dos trajes e realismo da reencenação como aquela. E nem os prédios modernos que se opunham ao Palácio de Gyeongbokgung pareciam prejudicar a subtileza de época conseguida.

Os sul-coreanos têm boas razões para se esforçarem nesta tarefa. Foi a emergência da dinastia Joseon que lhes concedeu períodos de estabilidade, de paz e de identidade e soberania nacional bem mais longos que aqueles a que estavam habituados. Quebrou os cenários antes prevalecentes de ingerência ou domínio da China e do Japão, os nipónicos sempre atrozes, em particular o de de 1910 a 1945 em que, com o pretexto de organizarem uma exposição, os japoneses arrasaram por uma segunda vez o palácio de Gyeongbokgung.

Seguiu-se a Guerra da Coreia que terminou com a divisão do país em Coreia do Norte e Coreia do Sul e a absoluta polarização destas nações em termos de integração na comunidade mundial e de desenvolvimento.

É o reconhecimento pela sua identidade histórica e nacional e pela herança de modernidade generalizada que a Coreia do Sul celebra tanto com o Gyeongbokgung mais uma vez reconstruído como com a sua glamorosa e festiva guarda.

Passámos pelos soldados medievais e entrámos no vasto domínio que o palácio voltou a ocupar. Durante horas a fio, explorámos os incontáveis pavilhões, jardins, pontes e lagos gelados. Ao fim da tarde, voltámos à Seul dos nossos dias, sem sinal de Paul que continuava a debater-se com o abuso da noite anterior.

Investigámos o mercado nocturno, atarefado e colorido ao jeito da Korea Town 100% genuína que era. Detivemo-nos num ringue de patinagem e demos umas voltas meio deslizantes meio atabalhoadas mas, mais que saturados de frio, não tardámos a fartar-nos. Refugiámo-nos no aconchego de um restaurante do centro e na gastronomia coreana. Experimentámos uma espécie de mini-pizzas feitas com vegetais super picantes e, à parte, uma dose algo mais suave de kimchi. “Com essa combinação, vão ficar imunes a vírus para o Inverno todo!” atirou a empregada de mesa num inglês muito mais perceptível que o do nosso amigo neozelandês. “Não me levem a mal se vos aconselhar dong dong ju para acompanhar. É um vinho de arroz adocicado tradicional. Vão gostar. Mas atenção! É suave mas muito forte!”

Terminámos a refeição e de novo reconfortados e anestesiados para o frio, deambulámos um pouco mais pelas ruas em redor.

No regresso a casa, Paul Parsons obrigou-nos a ver um seu projecto universitário rodado em vídeo de 20 mm, uma história de terror com um gato e quatro colegas. O filme permitiu-nos, acima de tudo, constatar que o seu sotaque era terrivelmente pior que o dos seus conterrâneos.

Na manhã seguinte, também chegámos à conclusão que estávamos demasiado saturados das temperaturas cada vez mais negativas sabendo que tínhamos para cima de 30º à espera no hemisfério sul. Metemo-nos num avião e, numas poucas horas, mudámo-nos para o Verão australiano.