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Observatório Dourado

Observatório Dourado

Pôr-do-sol tinge o horizonte e um dos observatórios no topo do monte Mauna Kea de tons quentes.

Monte Mauna Kea, Havai

Um Vulcão de Olho no Espaço

O tecto do Havai era interdito aos nativos por abrigar divindades benevolentes. Mas, a partir de 1968 várias nações sacrificaram a paz dos deuses e ergueram a maior estação astronómica à face da Terra


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Apesar do nome anglófono, à medida que exploramos o interior vasto da Big Island quase nos esquecemos de que estamos numa ilha. A Saddle Road serpenteia lentamente de Hilo, no litoral leste, até aos 2021 metros do seu ponto mais elevado e castiga o motor do carro que a percorre em mudanças baixas e num esforço ruidoso. Há algum tempo, as empresas de rent-a-car locais proibiam aos condutores quaisquer aventuras na R200 (o seu título oficial), então considerada uma das mais perigosas do mundo, devido à inclinação, às muitas pontes de sentido único, às zonas mal asfaltadas e à sua combinação com o nevoeiro e chuva frequentes. Entretanto, as autoridades locais reformularam a via e só o problema irresolúvel do declive não foi ultrapassado. Continuam a aconselhar a subida ao Mauna Kea em tours guiados mas os visitantes independentes depressa percebem que nada os impede de avançarem por sua conta. É o que fazemos e renovamos o sofrimento do pequeno utilitário que se arrasta montanha acima. Algumas dezenas de curvas depois, fazemos uma pausa para lhe dar descanso e deparamo-nos com a visão estranha das nuvens a invadirem o vale junto à base de uma colónia de pequenas crateras avermelhadas pelo entardecer.

Aos 2700 metros, encontramos o Visitors Centre, entregue a várias excursões de japoneses que cumprem a hora mínima de aclimatização requerida pelo cume. Alguns apanham sol no exterior, outros completam a sua formação astronómica examinando os mapas, vídeos e peças multimédia ali exibidos. Outros ainda descobrem as raízes nipónicas e havaianas de Ellison S. Onizuka, um dos astronautas sacrificados, em 1986, pela explosão do vaivém Challenger.

Do Visitors Centre em diante, o asfalto dá lugar a uma terra pouco batida que torna o restante percurso poeirento, além de cada vez mais íngreme. E, acima dos 3.600 metros a montanha revela-se já um domínio de aparência extraterrestre, assente num solo vulcânico ocre e vermelho desprovido de vegetação mas de que se projectam novas crateras inactivas.

Vencida uma das curvas derradeiras, revelam-se, finalmente as primeiras cúpulas brancas que abrigam os telescópios, perdidas na paisagem inóspita.  

Em 1950, devido à inexistência de estrada acima dos 3.700 metros, só a ilha vizinha de Maui acolhia observatórios. Mas, dez anos depois, a Câmara de Comércio começou a incentivar o desenvolvimento astronómico do Mauna Kea e a promover o potencial único da montanha. Por essa altura, a actividade da NASA era intensa, como a disputa de parcerias entre diversas universidades dos Estados Unidos e justificava, como nunca, a instalação de novos observatórios.

E vários testes registaram as condições únicas do tecto de Hawai’i (Big Island) para os acolher. Para lá da simples localização – em isolamento no interior elevado da ilha e no oceano Pacífico -, comprovou-se a secura e estabilidade da atmosfera acima do cume do vulcão, que permanece quase sempre sobre as nuvens e envolto numa escuridão entretanto protegida por lei.

A meio da década de 60, a NASA atribuiu fundos à Universidade do Havai para desenvolver o projecto astronómico local e, em 1970, esta instituição instalou no Mauna Kea o UH88, o sétimo telescópio óptico/infravermelhos mais potente do mundo, com 2.2 metros de diâmetro.

Outros grupos norte-americanos – como a US Air Force e o Lowell Observartory - juntaram-se à colonização do Mauna Kea que, logo após, foi aberto a entidades estrangeiras. Em 1973, o Canadá e a França instalaram o seu CFHT, com 3.6 metros de diâmetro e, daí para cá, seguiram-se projectos individuais e internacionais que envolveram o Reino Unido, o Japão, a Argentina, a Austrália, o Brasil e o Chile, num total de treze telescópios de distintos géneros, ainda hoje, a maior estação astronómica do mundo.

O sol desfaz-se sobre o horizonte e a temperatura desce de imediato para níveis congelantes obrigando os visitantes no topo a refugiar-se em mais camadas de vestuário. Ao mesmo tempo, o chão de nuvens torna-se lilás e roxo e o céu acima é pintado de amarelo e laranja, tons que dominam também o cume da montanha e se apoderam das cúpulas. Mas não é só o cenário que corta a respiração.

Mais pela rarefacção do ar própria dos 4205 metros de altitude que pelo frio em si, qualquer movimentação brusca ou cansativa exige longas inspirações e demora a recuperar, no melhor dos casos. Ou provoca náuseas e dores de cabeça angustiantes - para não falar em eventuais edemas pulmonares e cerebrais - em quem ignorou a habituação necessária ou se esqueceu do oxigénio portátil.  

Não temos conhecimento de casos tão drásticos. Bem preparada e ainda melhor equipada, a pequena assistência no cume deixa-se deslumbrar pelo ocaso enquanto os cientistas dos observatórios ultimam mais uma noite de contemplação astronómica, fazendo girar o topo das cúpulas para apontar os telescópios na direcção espacial desejada.

Quando o crepúsculo finda, alguns visitantes regressam à base do Mauna Kea e depois a Hilo, a Kona e restantes lugares da Big Island. Outros, os privilegiados, dão entrada nos enormes observatórios, ascendem aos pisos superiores, instalam-se e ficam a estudar o firmamento.

Estão planeados novos telescópios para o cume, incluindo um novo e revolucionário sistema Pan-STARRS (Panoramic Survey Telescope and Rapid Response System) – que vai monitorar a abóbada celeste a tempo inteiro  e o gigantesco Thirty Meter que tornará possível observações com dez vezes mais resolução espacial que a garantida pelo Hubble.

Ambos os projectos levantaram enorme polémica entre a população tradicionalista do Havai e os ambientalistas mas se, em 1960, os deuses foram ignorados, dificilmente os humanos poderão travar esta corrida desenfreada pela visão do Espaço.