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Perigo de praia

Perigo de praia

Banhistas entram numa das praias mais próximas de Santa Lucia, ainda assim, com um aviso de ameaça de tubarões, crocodilos e hipopótamos.

Santa Lucia, África do Sul

Uma África Tão Selvagem Quanto Zulu

Na eminência do litoral de Moçambique, a província de KwaZulu-Natal abriga uma inesperada África do Sul. Praias desertas repletas de dunas, vastos pântanos estuarinos e colinas cobertas de nevoeiro preenchem esta terra selvagem também banhada pelo oceano Índico. Partilham-na os súbditos da sempre orgulhosa nação zulu e uma das faunas mais prolíficas e diversificadas do continente africano.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


A primeira vez que nos despertaram a atenção os cenários do parque nacional Isimangaliso foi num documentário televisivo prolífico em imagens aéreas. O helicóptero surpreendia manadas que, lá em baixo, sulcavam pastos ondulantes e a água lamacenta de pântanos. Eram crocodilos, búfalos desconfiados às centenas, hipopótamos às dezenas, rosados, como os flamingos pernaltas. Terceira maior área protegida da África do Sul, Isimangaliso ocupa uma imensidão indómita de pauis em condomínio com savana e com dunas que, ao longo de 300 km, quase entram pelo oceano Índico dentro. Mesmo chamada de Lake St. Lucia, esta paisagem revela-se, na realidade, o longo estuário sinuoso do rio Umfolozi, um dos maiores de África, acrescentado pela UNESCO, em 1999, à sua gloriosa lista de Património Mundial.

Até há algum tempo, o PN Isimangaliso tinha o nome de Greater Santa Lucia Wetlands Park. É precisamente a Santa Lucia que chegamos a bordo do camião Nomad, provindos dos domínios elevados e chuvosos da Suazilândia. Alberthram TENK Engle, o guia e condutor, e Ricardo Juris, o cozinheiro e ajudante, conheciam bem a aura veraneante da povoação, associada pelos sul-africanos tanto a descanso como a aventura. De acordo, ainda a tarde solarenga vai a meio, estacionam o veículo e informam através do microfone que usavam para comunicar com os passageiros: “Ok, pessoal, agora é instalarem-se. Por volta das quatro e meia, saímos para banhos.”  

Juntamo-nos ao grupo com agrado. Vinte minutos após a hora, já estávamos perante uma praia sem aparente fim. Um painel de madeira desperta-nos a atenção. Remete-nos para algo que nos surpreendera e frustrara anos antes no nordeste australiano de Queensland, onde as praias onde nos podíamos banhar se provaram raras. Não bastava o incômodo faunístico dos tubarões presentes em grande parte da costa da África do Sul, no aviso, juntavam-se-lhes ainda a ameaça dos crocodilos e dos hipopótamos. Em zonas mais remotas do parque, também dos elefantes, rinocerontes e leopardos. Ali, onde estávamos, apareciam, de quando em quando, os três primeiros. Era algo que não parecia preocupar um bando crescente de banhistas sul-africanos ansiosos pelos prazeres da beira-mar. Se os sul-africanos - Tenk e Ricardo implicados - ignoravam a ameaça, quem éramos nós para os desprezar. Enfiamo-nos no limiar escurecido e algo frenético do Índico. A maré tinha descido pelo que a profundidade da água diminuía a olhos vistos e precipitava o desfazer sucessivo de ondas. Considerámos que, no todo, isso nos manteria a salvo dos tubarões e dos crocodilos, por aqueles lados, do Nilo, não marinhos como os congéneres da Grande Ilha. Também não estávamos a ver hipopótamos a emergir do meio daquelas vagas sucessivas e o areal mantinha-se repleto de gente. Supostamente a salvo, continuamos a saltar contra as ondas, a perfurá-las e, sempre que possível, à sua boleia, num exercício aquático delicioso com que compensávamos os dias antes passados no PN Kruger, no canyon do rio Blyde e outros lugares emblemáticos mas distantes do mar.

Tenk e Ricardo, também eles habituados à vida junto ao litoral piscatório nas imediações do Cabo Agulhas e a precisarem de suavizar o stress causado pela responsabilidade pela jornada e pelo grupo, mergulhavam e chapinhavam connosco e a condizer.

O vento que soprava forte ao longo da costa, de sul para norte, varria o exterior. Em sinergia com a tepidez da água do Índico, adiou o fim do banho por uns bons vinte minutos. Quando voltamos à terra firme, a beira-mar era já uma espécie de parque recreativo, repleto de famílias e dos seus jovens rebentos, de casais e de amigos adolescentes zulus, todos entregues a um convívio revigorante sobre a areia ensopada e as vagas desenroladas.

O sol não tardou a cair para trás da floresta oposta e a praia arrefeceu de forma abrupta. Tenk deu sinal para regressarmos ao “Tommy”, o camião em que seguíamos.

Jantamos na pousada Shonalanga em que tínhamos dado entrada, com direito a espectáculo étnico e a uma pequena lição de dialecto zulu. Logo após, ainda cedo, recolhemos ao quarto que nos calhara. No dia seguinte, íamos explorar o Parque Nacional Hluluwe-Infolozi com partida antes da alvorada.

Tendo em conta a temperatura da tarde passada, a latitude a que estávamos e a proximidade da costa, dificilmente o iríamos antecipar mas, mal pusemos o nariz fora do quarto o frio era de rachar. Dois guias do parque recebem-nos e distribuem-nos pelos jipes que conduziam, com direito a cobertores, não fossemos enregelar pelo caminho. A viagem para o interior noroeste durou quase uma hora. À chegada, já de dia, enquanto o guia Sipho Mtshalo nos explicava o que íamos encontrar no parque, pudemos contemplá-lo com olhos de ver. Estávamos a cargo do que o grupo identificou, de imediato, como um sósia de Eddie Murphy. Um clone do actor, ele próprio criador de piadas atrás de piadas mas que, devido a forma fechada e monocórdica como falava, ninguém conseguia entender. Muito à laia de Murphy em “Um Príncipe em Nova Iorque”, Sipho revelava-se, mais que seguro, algo vaidoso. Andava abotoado de forma imaculada na gabardine azul que lhe servia de uniforme, com uma bandeirinha da África do Sul cosida sobre o coração.

Combinava-a com um chapéu de pele, aventureiro que baste mas elegante, claro está. Ora, tal como nos confessou, Sipho tinha já boa parte do que desejava na vida incluindo quatro mulheres e - disso se gabou ainda - muitas vacas. Mesmo assim, passados apenas uns minutos, já se insinuava sem qualquer pudor a uma das duas participantes austríacas da viagem. Jackie torna a não achar piada. Deixa-o perceber o mais que pode, sem chegar à rudez. Sipho conforma-se. Por fim, pôde concentrar-se na missão de que estava encarregue: detectar a fauna do parque e falar-nos das suas excentricidades.

O Hluluwe-Infolozi é a mais antiga reserva natural de África. Pejado de colinas cobertas de vegetação arbustiva, é também o único parque estatal da África do Sul em que é possível aos visitantes avistar todos os animais do sempre ambicionado Big Five.

Não tardamos a cruzar-nos com rinocerontes, manadas de búfalos e de elefantes. O guia colega de Sipho, aproximou, inclusive, o jipe que conduzia demasiado de alguns dos paquidermes. Um deles, furioso com o desaforo, obrigou-o a uma marcha-atrás de emergência. Leões, vimo-los ao longe, a partir de um miradouro que partilhámos com várias famílias afrikaans, na companhia de homens quarentões e cinquentões que, apesar de pouco passar das dez de manhã e de conduzirem as famílias pelo parque, emborcavam cerveja a forte ritmo.

Depois de três dias e meio no PN Kruger, o Hluluwe-Infolozi não acrescentou mundos e fundos ao histórico de safari que já trazíamos e que continuámos a enriquecer. O parque alberga, todavia, uma das maiores populações de rinocerontes brancos do mundo. Sem quase perdermos tempo em sua busca, deslumbrámo-nos com vários espécimes a apenas uns poucos metros. Aliada aos cenários espaçosos e gentis daqueles confins africanos e à personagem risonha e caricata de Sipho, esta benesse acabou por compensar o doloroso despertar nocturno e a letargia sonolenta e frígida em que nos vimos até ao sol se elevar no horizonte.

Regressamos a Santa Lucia em redor da hora de almoço e aproveitamos para investigar algo mais daquelas paragens. Se na Suazilândia nos surpreendeu o predomínio das estações de serviço Galp, já devíamos ter previsto que os Descobrimentos lusitanos também nas terras litorais zulus deviam ter deixado marca.

Pouco mais de meio século após Bartolomeu Dias ter dobrado o Cabo das Tormentas, o navio português “São Bento” vinha de Cochim comandado por Fernão de Alvares Cabral (filho de Pedro Alvares Cabral) e sobrecarregado. Naufragou junto à foz do rio Msikaba, nas imediações da actual cidade de Port Edward. Inspirada pela abundância de dunas amareladas, a tripulação sobrevivente baptizou pela primeira vez a região na foz do rio Umfolozi de Rio dos Medos de Ouro. Mais tarde, o navegador e cartógrafo Manuel Perestrello, renomeou a zona de Santa Lúcia, no dia desta santa. O nome acabou “emprestado” à área mais a norte da Zululândia por onde andávamos, a região oficiosa em tempos liderada pelo famoso e respeitado rei Shaka kaSezangakhone, mais conhecido por Shaka Zulu.

Dedicamo-nos, por fim, ao Parque Nacional Isimingaliso. À falta de meios para uma incursão abrangente pela imensidão anfíbia, subimos a bordo de um dos barcos que percorre o rio Umfolozi até à eminência do Índico e, logo, de volta. Por essa hora, o sol aproximava-se uma vez mais do horizonte. Dourava a água do lado poente e, no contrário, requentava o verde da vegetação. Em simultâneo, encarniçava a pele espessa dos inúmeros hipopótamos que se haviam apoderado do rio, indiferentes aos crocodilos do Nilo e aos tubarões-touro que por lá também proliferavam.

Do cimo do convés, avistamo-los a todos, também às barbatanas emersas dos predadores marinhos oportunistas que se haviam habituado à água salobra e a emboscar presas no caudal pouco profundo.

A determinada altura, entre canaviais ribeirinhos e uma floresta salpicada de palmeiras-de-leque e similares, o Umfolozi esbarra na barreira de sedimento que há já bom tempo lhe furtou o Índico. Então, com o grande astro a cair para trás do oceano e vários hipopótamos a bocejar de inércia e deleite, o piloto inverte marcha. Ao voltarmos ao ponto de embarque, milhares de andorinhas esvoaçantes rasgam o crepúsculo acima. E um segundo grupo de jovens zulus prenda os passageiros com exibições de danças guerreiras. A sua exibição é rica nos movimentos de ataque e defesa que tanto dificultaram a vida às tribos rivais do sul de África, aos primeiros colonos da África do Sul, os voortrekkers (pioneiros) boers de que Tenk e Ricardo se orgulham de descender. E aos britânicos que se seguiram e que, a custo de muito sangue e ainda mais esforço, agregaram e dominaram todo o país incluindo a Zululândia tribal e selvagem que há vários dias nos deslumbrava.

 

Esta reportagem foi criada com o apoio de NOMADTOURS.CO.ZA e criada durante um itinerário South African Explorer de 20 dias entre Joanesburgo e a Cidade do Cabo com passagem pela Suazilândia e o Lesoto,

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