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Frescura da manhã

Frescura da manhã

Moradora no extremo de uma das ruelas de madeira de Nzulezu, após um banho revigorante.

Nzulezu, Gana

Uma Aldeia à Tona do Gana

Partimos da estância balnear de Busua, para o extremo ocidente da costa atlântica do Gana. Em Beyin, desviamos para norte, rumo ao lago Amansuri. Lá encontramos Nzulezu, uma das mais antigas e genuínas povoações lacustres da África Ocidental.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Temos a praia pela frente. Só que o litoral de areia amarelada, farta, que se estendia por várias dezenas de metros do coqueiral denso até onde as vagas se aventuravam e que nos havia ali atraído estava reduzido a uma pobre amostra, entrecortada por faixas divisórias de pedras negras. Busua não era mais o que já fora. Sem razões para lá nos alongarmos, prosseguimos até à povoação piscatória vizinha de Beyin, uma aglomeração sortida de casas dispostas entre a beira-mar e a estrada ribeirinha em que terminaria a secção rodoviária da viagem.

Blay Erzoah Ackah David, o anfitrião e guia, identifica-nos à chegada. Dá-nos umas boas-vindas tímidas à sua terra. Em seguida, prepara-nos para a jornada fluvial que nos esperava. Leva-nos a um canal estreito ali próximo onde subimos a bordo de um barco de madeira. Começamos de imediato a percorrer o canal, primeiro ao longo de uma vastidão de capim ensopado, entretanto, enfiados num palmeiral denso, bem mais sombrio, dotado de uma espécie de dique de bambu instalado de forma a que os nativos delimitem a circulação dos peixes. Essa secção lúgubre e apertada pela vegetação dura o que dura. Sem que o esperássemos, a luz regressa. O canal reabre para uma lagoa verde-escura que reflete as folhas pendentes das palmeiras-ráfia e um viveiro compartimentado em diversos corredores de estacas. Quase de imediato, passa para uma vastidão aquática de águas tremelicantes, do mesmo cinzento do céu carregado. Por essa altura, estávamos em pleno no lago. Pagaiada após pagaiada, internamo-nos no grande paul de Amansuri, um ecossistema de pântano, manguezal, planícies alagadas e litoral arenoso do extremo sudoeste do Gana, com a Costa do Marfim a meros 40km.

Durante algum tempo, vemos apenas as margens verdejantes, algumas aves pernaltas e uma ou duas canoas que sulcavam a distância. Assim é, até que, quase cinquenta minutos após o embarque, vislumbramos um trio de habitações de madeira alinhadas contra as palmeiras da margem. Aproximamo-nos. Contornamo-las. Percebemos que essas três ocultavam muitas mais, lacustres, quase todas coloridas, ligadas por passadiços geométricos de tábuas envelhecidas.

“Espero que tenham gostado da viagem! Sejam bem-vindos a Nzulezu.” atira Blay Erzoah ocupado com a atracagem e o desembarque.

Subimos para um passadiço imediato. Percorremo-lo até outro perpendicular. Blay Erzoah toma-o, apontado ao extremo oposto da povoação. Nós, cedemos à curiosidade. Tresmalhamo-nos por outros caminhos e inauguramos uma exploração tão irresistível como, depressa nos inteiramos, tabu. “O chefe da aldeia está à nossa espera!” informa o guia. “Primeiro que tudo, temos que o saudar.”

Blay Erzoah conduz-nos a um edifício comunal simples. No interior, o líder da comunidade saúda-nos com novas boas-vindas. Faz-nos sentar e inaugura uma apresentação aturada de Nzulezu, a aldeia palafítica em que vivia há muito a sua comunidade de quase seiscentas pessoas. Descreve-nos uma crença há muito popularizada naquelas partes do distrito de Jomoro: “ainda acreditamos que os nossos antepassados chegaram há cerca de 500 anos de Walata (parte da actual Mauritânia), uma das primeiras cidades das províncias do Sudão Ocidental, que integrava o antigo império do Gana. Foi fundada por foragidos de uma guerra tribal que assolava esse território e que buscavam um lugar em se que pudessem instalar. Acreditamos que foram guiados por um caracol. O caracol é o totem da nossa comunidade. Até temos um santuário em sua honra.”

É aqui que a maior parte dos interlocutores forasteiros do chefe se engasgam de incredulidade perante o imaginário da multidão em fuga a seguir uma das criaturas mais lentas à face da Terra. Nós, não fugimos à regra. Ao contrário de tantos outros que exasperaram o patriarca, optamos por não questionar a narrativa.

Até há pouco, três igrejas disputavam a fé tradicionalista dos aldeãos: uma católica, uma metodista e uma pentecostal. O edifício desta última foi arrastado por umas das últimas cheias. De forma subtil, como é sua função, a Cristandade levada até eles durante e após o período colonial desafia a crença tanto na inusitada divindade de Nzulezu como na sacralidade do Amansuri.

De acordo com a tradição, se uma mulher estiver menstruada, não pode cruzar o lago. E, ainda hoje, as gentes da aldeia receiam partir para outras partes, cientes da profecia de que uma excessiva debandada originará uma catástrofe que aniquilará a população remanescente. Os nativos acreditam ainda que o Amansuri os protege de qualquer má intenção. Que quem o tente cruzar com más intenções não sobreviverá sequer à travessia.

A dissertação do chefe arrasta-se, só ligeiramente mais rápida que qualquer gastrópode e por vários outros tópicos. Tem o fim precipitado pelo alarido dos alunos endiabrados da escola ao lado, que se veem no intervalo das aulas e enchem o labirinto de tábuas e cana-de-bambu do castanho e amarelo-vivo dos seus uniformes e de tropelias.

Como é de esperar nestas situações, ainda mais de crianças e adolescentes ganeses, a sua trupe irrequieta desafia-nos os propósitos fotográficos com traquinices, poses e movimentos guerreiros desajeitados.

Verdade seja dita que os habitantes de Nzulezu, em geral, não são propriamente afáveis para com os forasteiros. Por norma, quem vem de fora, chega conduzido por guias de Beyin ou de outras paragens e são raros os visitantes que se hospedam na povoação. Ora, desagrada aos nativos que a aldeia lucre quase só com os ingressos de 20 Cedis (aquém de 4€), bem menos que as pequenas “agências” instaladas na costa.

Agradecemos ao chefe que fica à conversa com Blay Erzoah. Em vez de nos deixarmos intimidar, informamo-los que vamos regressar ao modo de descoberta da aldeia.

Como é apanágio do Gana e da África Ocidental, ao longo dos 600 metros do passadiço principal, mas não só, as mulheres embelezam os cabelos umas das outras, instaladas às portas das pequenas casas, onde a luz do dia as ajuda a manusear os pentes e outros utensílios que dão forma aos penteados da moda. Algumas das “clientes” amamentam os filhos recém-nascidos em simultâneo. Assim mantêm sossegada parte da criançada a seu cargo e permitem que as cabeleireiras de serviço lhes tratem das fartas cabeleiras. Uma, em particular, transforma o cabelo caju de uma vizinha em trancinhas. E fá-lo com uma bebé adormecida enfiada numa canga amarela às costas.

Numa ruela mais próxima da beira-lago, um casal trata de lavar roupa em alguidares cheios de sabão. E de a estender. Parte das vestes num longo estendal garrido de que se destaca uma colcha com os padrões garridos deste confins ainda tão tribais de África. Outra parte, simplesmente esticada sobre o soalho estriado da povoação.

Passamos por uma jovem mulher que instalara uma venda de laranjas de casca verde. Com os corpos uma vez mais desidratados pelo calor tropical e pelo sal e picante do inevitável fufu - a papa de mandioca que os ganenses acompanham de peixe, carne e muito piriri - encaramos a sua banca com alívio. Compramos-lhes alguns dos citrinos. Ela serve-nos dois ou três na hora, pouco incomodada com o enredo fotográfico em que, sem esperar, se vê metida. As laranjas revelam-se bem mais suculentas do que poderíamos supor. O sumo estimula-nos tanto como o sorriso rasgado com que a vendedora reage à nossa satisfação.

Em certas casas e pequenos negócios, ao invés, pouco ou nada há que fazer. Mulheres preguiçam espojadas no chão com as crianças indolentes ao alcance. Outras, conversam sentadas na extremidade de passadiços, com os pés pendurados sobre o lago.

Uma ínfima porção dos lares está dotada de antenas parabólicas o que não garante a companhia da televisão. Fazer chegar a electricidade a estas paragens molhadas e marginais não consta na lista de prioridades das autoridades ganesas. Uma vez que o gerador da aldeia – ou outro qualquer privado - funciona a gasolina e o combustível tem um preço proibitivo, ver televisão, numa TV particular, é um luxo raro. Como o é a frescura frigorífica da cerveja no bar local, felizmente menosprezada face ao vinho de palma local (diz-se que um dos melhores do Gana) e ao akpeteshi, uma espécie de gin que os nativos há muito aprimoram.

A alimentação e subsistência de Nzulezu dependem sobretudo da pesca e dos vegetais e tubérculos plantados em pequenos hortos em redor. Desde a hora em que atracámos, vários dos homens pescavam no lago em canoas tradicionais cavadas de troncos únicos.

A configuração da aldeia, como a pesca, depende da estação do ano. Estávamos ainda na época das chuvas e a água envolvia na totalidade o castro de palafitas, sustentava grandes colónias de plantas anfíbias que salpicavam de um verde intenso o caudal de outra forma escuro. De Novembro a Março, todavia, as chuvas rareiam. A sequia anual faz o caudal diminuir. Expõe a floresta de estacas da aldeia e concede uso temporário de terrenos que, por aquela altura, não conseguíamos sequer conceber. “Estão a ver aquela secção ali cheia de nenúfares ao lado da escola?” certifica-se Blay Erzoah. “Acreditem ou não, ali é o campo de futebol. Os miúdos da escola jogam lá todos os dias. Agora, só se fosse polo aquático.” É outra das razões porque os vemos um pouco por todo o lado, entregues às aventuras mais aventureiras que se lembram de inventar.

Em plena monção, Blay Erzoah constata que as nuvens escuras já desciam e prometiam o habitual dilúvio de fim da tarde. De acordo, precipitamos o reembarque e a navegação canal abaixo, de volta a Beyin e às imediações do grande Atlântico.

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