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Enseada escondida

Enseada escondida

Uma bangka nas águas cristalinas da enseada que conduz ao lago Kayangan.

Busuanga, Filipinas

Uma Armada Pouco Secreta

Na 2a Guerra Mundial, uma frota nipónica falhou em ocultar-se ao largo de Busuanga e foi afundada pelos aviões norte-americanos. Hoje, os seus destroços subaquáticos atraem milhares de mergulhadores.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Sem qualquer hipótese de conseguirmos voo, pelo menos nos dez dias seguintes, resistimos à desconfiança e ao receio e compramos bilhetes para um dos barcos que assegurava a ligação marinha de El Nido para Busuanga, a principal ilha do arquipélago filipino Calamian.

O sol ainda nasce quando subimos a bordo de uma bangka colorida, de dimensões maiores que as convencionais mas, para todos os efeitos, uma simples embarcação típica, de madeira, equipada com flutuadores laterais e desadequada a longas travessias e ondulação. Instalamo-nos a bordo o melhor que podemos na companhia de outros passageiros franceses, ingleses e australianos e submetemo-nos ao destino.

A viagem para norte do Mar da China do Sul prossegue, sempre que possível ao longo da costa. Mesmo assim, acabamos por enfrentar ondas que ensopam a embarcação e obrigam os tripulantes a recorrer a uma velha bomba de extracção de água. Os trajectos por que seguimos sem a protecção de ilhas são, felizmente curtos e, apesar de longa e emocionante, a navegação termina sem incidentes mais graves.

Desembarcamos em Coron ao fim dessa tarde. Cumprida uma caminhada curta, damos entrada no Sea Dive, um hotel de quatro andares plantado à beira-mar, humilde mas acolhedor, conhecido por reunir mergulhadores de todo o mundo ávidos por descobrir os destroços de uma armada nipónica que jaz ao largo da ilha vizinha de Coron, entre os dez e os quarenta metros de profundidade.

Pouco depois, conhecemos Andy Pownall, o proprietário de uma pequena reserva insular próxima e especialista no tema. Não tarda a introduzir-nos à história daquele museu subaquático: “Em 1944, durante a fase asiática da 2a Guerra Mundial, os norte-americanos bombardearam intensamente uma frota de embarcações nipónicas que se encontrava em Manila. Afundaram quinze navios e obrigaram os japoneses a esconder os barcos que resistiram fora do que pensavam ser o raio de acção dos bombardeiros. A baía de Coron e as águas em redor de Busuanga foram os ancoradouros escolhidos. ... mas os aviões de reconhecimento americanos descobriram o paradeiro da frota. Às seis da manhã de 24 de Setembro, depois de descolarem de porta-aviões e voarem 550km (na altura, uma distância recorde para este tipo de ataques) em mais de seis horas, levaram a cabo um ataque devastador que afundou ou danificou gravemente mais 24 barcos. Entre estes, encontravam-se algumas das jóias da marinha japonesa: o Akitsushima, o Kogyo Maru e o Irako todos com cerca de 150 metros de comprimento; o Olympia Maru; o Lusong e o Tae Maru.

A Jim, o norte-americano expatriado dono do hotel, a incursão em Busuanga parece ter corrido melhor. Passada a fase de adaptação e garantido o sucesso do investimento inicial, o proprietário limita-se a colher os lucros garantidos pela febre gerada pela frota afundada e a usufruir dos cuidados femininos fáceis que abundam em Coron, como um pouco por todas as Filipinas. Sem muito mais que fazer, pavoneia-se pelo bar e pela sala de refeições exterior do estabelecimento que ergueu quase só em madeira, também ele com a forma de uma embarcação multi-convés, se visto do mar contíguo.

Jim dá uma outra sugestão a mergulhadores estrangeiros que ainda planeiam as suas aventuras e desaparece na companhia de algumas jovens do seu séquito de empregadas e acompanhantes nativas. Deixamos de o ver por algum tempo, também porque partimos à descoberta das redondezas de Coron.

Sabemos que por ali existem sete lagos, todos cercados por rochedos de calcário. E, de antemão, que destes se destacam o Kayangan e o Barracuda com acesso através de enseadas com cores de postais do paraíso. Começamos por visitar o primeiro. Mal a bangka barulhenta que nos transporta atraca e o homem do leme nos dá o OK, subimos uma das vertentes rochosas que isolam o lago do oceano e, já do outro lado, descemos um trilho até às suas margens abruptas.

Quando entramos no Kayangan, somos quase os únicos nadadores encerrados naquela espécie de aquário natural. A exclusividade dura menos do que desejávamos. O lugar não tarda a ser invadido por excursões de coreanos e japoneses que se divertem a chapinhar e a boiar em grupo, sustentados por coletes salva-vidas garridos que adulteram a paisagem estranhamente tropical.

Falta ao Kayangan a característica mais interessante do “irmão” Barracuda: três camadas sobrepostas de água doce, salobra e salgada. Mudamos de enseada e verificamos a excentricidade deste último, numa paz líquida que tínhamos sentido por momentos no lago irmão e reconquistamos com apreço. Quando a sombra dele se apodera, regressamos a Coron e ao SeaDive.

Jim reaparece na manhã seguinte. Há um batalhão de mergulhadores a embarcar em várias bangkas alinhadas no retalho de mar de que se eleva o hotel e o americano supervisiona as operações que vão fluindo sem percalços. Assim que sente as embarcações desaparecer da vista do varandim, regressa à sua vida. Farto da frota nipónica afundada e de tanto mergulho, Jim carrega então a sua própria lancha com mobiliário e utensílios de praia, comida, cerveja e outros géneros. Já ao leme, despede-se com trejeitos de político sem escrúpulos dos funcionários e dos hóspedes curiosos e zarpa com um grupo de amigos e acompanhantes filipinas para piquenicar num qualquer recanto balnear de Busuanga.

Todos regressam ao fim do dia e trocam narrativas entusiasmadas das peripécias do dia, regadas por sucessivas cervejas San Miguel geladas.

Os proeminentes franceses, discípulos de Costeau e adeptos incondicionais destas odisseias exóticas lideram o debate: “A determinada altura, percebemos que era mesmo o Kogyo Maru.” diz um deles. “Havia coral por todos os lados. Os mastros estavam cobertos de coral-alface em que se escondiam pequenas colónias de peixes-leão. Descemos ao longo do convés no meio de cardumes ondulantes de peixes-fuzileiro, peixes-morcego, alguns cavalos-marinhos solitários e até tartarugas. O barco estava repleto de vida, foi mais que impressionante ! ... tudo iluminado por uma luz azul fria estilo extraterrestre que chegava da superfície.”

As embarcações japonesas ali afundadas são mais longas que a profundidade a que jazem. Permitem mergulhos sem grandes dificuldades técnicas mas, ainda assim, arriscados pelas armadilhas labirínticas que as estruturas complexas agora camufladas podem suscitar. Proporcionam inúmeras oportunidades de exploração. Por esta razão, muitos dos mergulhadores no SeaDive tinham dividido as suas expedições por vários dias. Além do entusiasmo, mostravam uma óbvia ansiedade por voltar.

Entretanto, Jim regressa à base com o mesmo espalhafato da partida. Deixa o descarregamento da lancha a cargo dos empregados do hotel e inteira-se pela enésima vez da situação subaquática do Okikawa Maru, do Tangat, do Akitsushima e companhia.

Com óbvio desprezo pela repetição das experiências alheias, o anfitrião proclama sem qualquer pejo: “muito bem rapazes, estou a ver que continuam com a adrenalina toda. Vejam mas é se arranjam umas filipinas jeitosas para se acalmarem!”.

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