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Refeição destemida

Refeição destemida

Tratador alimenta crocodilos num parque zoológico nos arredores de Cairns.

Norte de Queensland, Austrália

Uma Austrália Demasiado Selvagem

Os ciclones e as inundações são só a expressão meteorológica da rudeza tropical de Queensland. Quando não é o tempo, é a fauna mortal da região que mantém os seus habitantes sob alerta.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Uma das nossas longas viagens pelo outro lado do mundo teria fluído com um calendário bem mais descontraído não fosse a passagem programada pelo extremo norte de Queensland. Desfrutámos dos meses “dourados” do Outono japonês e o Inverno havia-se entretanto instalado com uma suavidade inesperada que, além do derrube das folhas amarelas, algum frio e escassa neve poucas outras consequências trazia. Não existiam, à primeira vista, razões lógicas para apressar a partida daquele Extremo Oriente exótico que continuava a esfriar.

Alguns milhares de quilómetros para sul, no entanto, crescia lentamente uma indesejada La Niña e o fenómeno era o oposto.  O Pacífico do Sul aquecia a olhos vistos e, no prolongamento da costa nordeste da Austrália, o Mar de Coral atingia já temperaturas pouco saudáveis para a Grande Barreira de Recife.

Sabíamos que o desenvolvimento daquele padrão não augurava nada de bom para o litoral oriental da grande ilha e, assim, apressámos a mudança para o Hemisfério Sul e a descoberta da Austrália Tropical.

Aterramos em Cairns no fim de uma época seca e alta que se estendia já muito para lá do normal. O céu estava limpo e manteve-se azul na maior parte dos dias se bem que a humidade aumentava e exigia inspirações cada vez mais profundas.

Pouco depois, devido ao típico laxismo português de achar que tudo se resolve à última, vemo-nos em sérios trabalhos para alugar uma campervan. “Só se vos conseguir uma ute (australiano para pick-up) com cobertura de lona e a arranjarem à vossa maneira ... querem que tente? “ pergunta a miúda loura ao balcão do turismo da cidade, deixando-nos num desespero indisfarçável.

Por sorte, um seu derradeiro telefonema tem resposta positiva e safamo-nos com a velha van de serviço da Cairns Older Car, uma empresa de aluguer de muito-usados. É já ao volante da velha carrinha que visitamos os armazéns do Salvation Army local, onde tentamos solucionar a sua nudez pouco acolhedora, comprando cortinas e colchões em segunda mão. Terminada a “decoração”, partimos para o norte luxuriante.

Paramos pela primeira vez no Parque Nacional Barron Falls onde apanhamos um teleférico que deixa o litoral, sobe a encosta verdejante da Grande Cordilheira Divisória e detêm-se na Red Peak Station onde um ranger aborígene Tjapukai encaminha os visitantes interessados para um passeio pela floresta. A humidade revela-se ali mais opressiva que nunca e faz o guia nativo falar devagar. Explica, com exemplos fáceis, as crenças sagradas do seu povo, a começar por como todas as coisas – o Sol, a Lua, as estrelas, a Terra e as suas criaturas etc. -  tiveram origem no tempo da estória, o Buluru.

Prosseguimos a bordo do Skyrail, a caminho da próxima estação e, pelo caminho, sobrevoamos a selva imensa que cobre a região. Até Kuranda, pouco mais se vê que as incontáveis copas das árvores multi-milenares e um ou outro fio de água. No regresso, o panorama repete-se até nova aproximação ao Mar de Coral quando o verde predominante dá lugar a vários tons de azul.

Tem 135 milhões de anos a floresta que acabamos de sobrevoar. É a mais antiga do mundo e considerada um palco privilegiado das etapas evolucionárias da Terra. No norte de Queensland, este processo natural intensificou-se como em poucas outras partes do planeta e deu origem a uma biodiversidade tão vasta que mereceu o reconhecimento da UNESCO que declarou o Parque Nacional Daintree (alguns km para norte) um Património Natural da Humanidade. Em breve, perceberíamos melhor o porquê do título.

De volta à campervan improvisada, percorremos a Captain Cook Highway que nos leva mais e mais para norte. Internamo-nos, dessa forma, numa Austrália perdida entre outras selvas densas a oeste e as praias bravias que acolhem o Mar de Coral e mantemo-nos atentos à estrada para evitar as travessias saltitantes dos wallabies e restantes cangurus, causadoras de acidentes frequentes um pouco por toda a Austrália. Desgastados pelo calor, cedemos ao apelo dos areais brancos e das águas tranquilas de uma praia chamada Four Miles. Mas, à entrada, uma enorme placa amarela alerta, em várias línguas, para perigos diversos: correntes, crocodilos e a presença de stingers.

“Chegaram há pouco a estas partes, certo?“ pergunta o nadador-salvador ozzy, debaixo do seu chapéu akubra e nitidamente à procura de diversão. “Pois, bem me parecia ... lamento informar-vos que só podem entrar no mar dentro daquela área”.

Olhamos com atenção e vemos tratarem-se de quinze metros quadrados dos quase 900 metros de extensão da praia. E, quando parece impossível a coisa piorar, percebemos que, dentro do limite das bóias, a água não chega aos joelhos. 

O quadrado flutuante sustém redes que evitam a entrada de diversas espécies de alforrecas e medusas temidas por injectarem químicos potencialmente letais ao picarem  as vítimas (daí o nome inglês stingers). Nascem nas fozes dos rios que descem da Grande Cordilheira Divisória e colonizam as águas costeiras do Mar de Coral durante os cinco meses quentes da estação das chuvas, quando a sua temperatura pode passar os 30º.  

Ao contrário da desilusão, o banho é curto. Seguimos caminho em direcção ao Parque Nacional Daintree, teimando em parar noutros litorais atractivos.

Percorremos o areal da Cow Bay quando conhecemos James Pratt morador de uma casa de praia próxima. E basta mencionarmos a frustração de não nos podermos refrescar em águas tão convidativas, para que inaugure um novo drama  australiano. “Pois é. Na verdade os meus caniches estão, neste preciso momento, a correr perigo. Nem os devia deixar correr tão perto da água. Nunca se sabe quando um croc anda por perto... “E quando não são os crocs são as stingers. Vá lá que essas só chateiam por uns meses...”.

Há pouco que acrescentar quanto à primeira ameaça. Como o restante Top End australiano, o extremo norte de Queensland é, desde os confins do tempo, um habitat privilegiado do maior réptil do mundo, o crocodilo estuarino. Encontram-se exemplares nos rios, nos mangais, em lagos e, porque estão aptos a nadar em água salgada, também nas praias.

Ao contrário dos vizinhos de água doce – que são menores e só atacam humanos em casos extremos de auto-defesa – os crocodilos estuarinos são agressivos, podem passar os seis metros de comprimento e provocam, todos os anos, algumas vítimas mortais em acidentes que os jornais sensacionalistas australianos aproveitam para fazer as suas primeiras páginas. Não são os únicos. Apesar de ínfima, a ameaça das stingers não fica atrás.

Continuamos a explorar a região durante duas semanas recheadas de experiências e sensações intensas. Voamos então de Cairns para Alice Springs, no centro do continente australiano, onde celebramos a entrada no novo ano.

Alguns dias depois, cumpria-se o esperado. Em todos os canais de TV e estações de rádio da Austrália e um pouco por todo o mundo noticiava-se que o norte de Queensland estava debaixo de água. Que se aguardavam mais tempestades tropicais e ciclones durante os piores meses da época das chuvas. Duzentas mil pessoas tiveram que deixar as suas casas. Trinta perderam a vida e nove foram dadas como desaparecidas. O prejuízo final cifrou-se em mais de mil milhões de dólares australianos (cerca de 800 milhões de euros). E, como sempre acontece nestes tempos de calamidade, voltaram a surgir casos hiper-explorados de humanos atacados por crocodilos à solta na recém-formada vastidão aquática.