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Black Dragon Pool

A laga mais famosa de Lijiang, com a Montanha Nevada Dragão de Jade em fundo.

Lijiang, China

Uma Cidade Cinzenta mas Pouco

Visto ao longe, o seu casario vasto é lúgubre mas as calçadas e canais seculares de Lijiang revelam-se mais folclóricos que nunca. Em tempos, esta cidade resplandeceu como a capital grandiosa do povo Naxi. Hoje, tomam-na de assalto enchentes de visitantes chineses que disputam o quase parque temático em que se tornou.

Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)

A chegada na tarde anterior e os primeiros passos nas ruas empedradas deixam-nos bem claro o que tínhamos a fazer. Não estávamos sequer nos meses mais quentes e movimentados da cidade. Entramos no sábado. Uma turba de forasteiros, na sua maioria da etnia predominante Han, invade-a aos poucos, sem resistência, muito pelo contrário.

Enquanto caminhamos ao longo dos canais e cruzamos incontáveis pontes, são raros os estrangeiros ocidentais por que passamos. Os novos moradores de Lijiang aprontam-se para receber os compatriotas e para com eles lucrar. 

Mais e mais portadas de madeira escura e trabalhada se abrem ao ritmo a que a luz solar esbranquiçada nelas incide ou, pelo menos, a sua refracção do pavimento basáltico. São excepcionais as que desvendam domicílios em vez de lojas: estabelecimentos repletos de chás e especiarias, de sedas e tecidos díspares e afins ou de uma miríade de bugigangas coloridas, umas artesanais, outras nem tanto. Por entre estes comércios, surgem estalagens e bancas de comes e bebes que se aprestam para grelhar ou fritar espetadinhas condimentadas, de peixes de água doce, de gambas mas também de larvas, grilos e gafanhotos. Panelas e caixas estriadas ou perfuradas soltam vapor que mantem quentes especialidades complementares: bolinhos de feijão, de tapioca e de soja, doces e salgados, alguns, aconchegados em delicados embrulhos vegetais.

Passa do meio-dia. A fome aperta e a multidão interrompe os seus passeios. Comandada pelo apetite voraz dos Han tanto pela melhor gastronomia da nação, como pelo mero convívio sentado, a multidão toma conta dos restaurantes e das imediações das bancas. Cerca da uma da tarde, com as energias repostas, volta a deambular pelas ruelas, reforçada pelos passageiros de autocarros de tours vespertinos entretanto chegados.

Percebemos o quanto degenerara a tranquilidade e genuinidade matinal da povoação. Reagimos a condizer. Afastamo-nos das artérias ligadas ao seu coração determinados a apreciá-la no todo.

Estudamos o mapa com a devida atenção. Apontamos à Shizi Shan (Lion Hill), uma colina florestada que se destaca no limite ocidental da Cidade Velha e de que se projecta o seu famoso pavilhão Wangu, erguido sobre dezasseis colunas cada qual com vinte e dois metros e alegadamente decorado com 2.300 padrões caprichosos que representam os vinte e três grupos étnicos que habitam hoje a região de Lijiang.

Contam-se cinco os pisos do pavilhão. Subimos a escada interior até ao último e saímos para a sua varanda. Aquela altura revela-nos a vastidão do Vale Li e, à distância, a montanha de Neve Dragão de Jade, com os seus quase 5.600 metros de altitude. Para leste, nas imediações abaixo, impressionam-nos os telhados sem fim de Lijiang que formam uma vasta mancha parda, aqui e ali salpicada de branco ou pelos tons quentes de outras áreas não cobertas dos lares. Mesmo se recuperado após o sismo de magnitude 7.0 de 1996 que matou trezentas e cinquenta pessoas e deixou muitas mais sem abrigo, o cenário actual da cidade respeita os seus oitocentos anos como entreposto da rota equestre do chá, durante as dinastias Ming e Qing e, por cerca de meio milénio, controlada por uma família poderosa, a Mu.

Situada a 2500m no extremo sudoeste da China, distante de Pequim, de Shangai e de Hong Kong, como de todas as principais urbes antigas da civilização Han, até há algumas décadas atrás, Lijiang preservou-se num mundo à parte. Ergueu-a e habitou-a séculos a fio o povo Nashi (ou Naxi) que se crê ter migrado do noroeste da China para regiões contíguas ao Tibete e antes dominadas por tibetanos. Tal como estes e os Bai, os Nashi proliferaram no comércio de chá levado a cabo nos trilhos traiçoeiros Chama dos Himalaias, entre Lhasa e a Índia, na confluência com a rota da Seda que passava mais a sul.

Mesmo se vulnerável a influências trazidas pelos mercadores Han, Lijiang surgiu como expressão única econveniente e dessa mesma prosperidade reforçada. Já em tempos turísticos, a cidade cedeu à pressão esmagadora da curiosidade dos compatriotas. Continua a moldar-se para a servir.

Descemos da Lion Hill com a noite a apoderar-se do Vale Li e de toda a província de Yunnan. Distraídos com a mudança de tons da atmosfera, quase ficamos fechados na torre de madeira. Evita-o um monge que avisa o porteiro do edifício mesmo antes de este o encerrar. Do pavilhão, regressamos à pousada pitoresca que tínhamos escolhido, com os seus quartos dispostos em redor de um pátio muralhado e acesso através de uma pesado portão garrido.

Às 8h30, despertamos para a manhã frígida de Domingo ainda mal recuperados. Como era de supor, o esforço madrugador prova-se curto. A essa hora, já Lijiang estava repleta dos mesmos transeuntes entusiasmados do dia anterior. Palmilhamo-la ao sabor da multidão, conformados com o seu poder inexpugnável. Estávamos afinal na China. O âmbito populacional do país era de milhões de milhões, não de uns meros milhões.

O nome Lijiang significa Cidade das Pontes. E, travada pela sua própria dinâmica caprichosa, a multidão entrecruzava-se e progredia mais lenta que a água a fluir nos canais e sob os incontáveis passadiços e pontes do centro histórico. Com o tempo, Lijiang tornou-se num habitat que conjugou benefícios das montanhas, rios e florestas em redor. Um sistema ramificado de irrigação tinha origem nos picos nevados da Montanha Nevada Dragão de Jade e corria através das aldeias e campos de cultivo. A lagoa de Heilong – que não tardaríamos a espreitar – e inúmeras fontes e poços completavam-no e asseguravam as necessidades diárias de água e de cereais, frutos e vegetais, a prevenção de incêndios e a produção local de restantes bens. Um dos outros elementos do sistema, as azenhas, tem um derradeiro representante na ponte Yulong, junto ao que subsiste da antiga muralha massiva da cidade. Leva a um redobrado êxtase os vários hidrófilos que a visitam ano após ano. Na Black Dragon Pool, os visitantes de Lijiang conseguem conciliar numa mesma vista tanto a origem geológica da água como o seu reservatório final. Até há pouco, era possível apreciar os moradores a lavar vegetais nas correntes dos canais, no caminho entre o mercado e as suas casas. Esse hábito pertence agora ao passado. Mas, contra toda e qualquer modernidade, outros costumes e tradições persistem. Alguns deles, bem polémicos no Ocidente.

Chegamos a 2ª feira. Apesar de menos urgente que no fim-de-semana que terminara, enchemo-nos de coragem e levantamo-nos com nova aurora gélida. Espreitamos o mercado nas imediações da pousada e surpreendemo-nos com a visão de vários cães já sem pele, pendurados na barra de metal de uma banca de talho. Contemplamos os cadáveres dos animais com a estranheza de quem os costuma encontrar como mascotes ou, vá lá que seja, como espécimes vadios. Alheio a tão profundo fosso cultural, o talhante de serviço aborda-nos e pergunta-nos se os queremos levar. Rejeitamos. Em vez, compramos tangerinas.

Quando regressamos ao âmago semi-labiríntico de Lijiang, a praça Bailong entra em modo de festa. Um grupo de mulheres idosas nashi convivem trajadas com a roupa tradicional da sua etnia: saia frisada azul escura, camisa e bonés de azuis de tons celestes e coletes de malha vermelhos. As senhoras dão as mãos e começam a cantar. Pouco depois, inauguram uma dança circular que acompanha a cantoria e atrai um pequeno auditório. Logo ao lado, dois homens a cavalo e vestidos com gorros de pele de panda vermelho e coletes ainda mais felpudos levam a cabo a sua própria exibição, apenas de pose, na expectativa de que os visitantes Han da cidade lhes paguem por fotos na sua companhia. É algo que vemos repetir-se com frequência.

Com o novo ocaso, a luz suave da tarde volta a disseminar-se. Jantamos no andar cimeiro de um café de nome “Enjoy” de onde fotografamos o pavilhão Wangu iluminado e destacado, ao longe, sobre a Lion Hill e, encosta abaixo, o casario secular de Lijiang dourado por uma iluminação nocturna exuberante que combina luzes amarelas nos velhos telhados com a de candeeiros de papel chineses vermelhos.

Em seguida, dirigimo-nos ao edifício não menos antigo da Dayan Naxi Ancient Music Association e instalamo-nos para apreciar um dos concertos da Orquestra Naxi local. Os vinte e tal músicos decanos entram sem pressas. Vários deles ostentam cabelos e barbas brancas. Veteranos de tais exibições, pouco ou nada ensaiam. Inauguram, num ápice, os temas dongjing tradicionais taoistas que haviam escolhido para o alinhamento. E encantam-nos com a magia das suas flautas e de distintos instrumentos de corda asiáticos: charamelas, alaúdes chineses, plectros e cítaras, entre outros.

A música tradicional dongjing foi apurada ao longo de cinco séculos até atingir uma harmonia e uma concepção artística considerada transcendental. Em tempos, estava reservada à nobreza chinesa. Com o passar dos anos, a exclusividade cedeu perante a paixão do povo nashi pela música. Nesse dia, a orquestra oferecia-a a nós e aos restantes espectadores. E como se de nada de especial se tratasse, emprestava um pouco mais de vida e de cor a Lijiang.

 

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