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Memória cruel

Memória cruel

Casal analisa uma imagem da devastação de Hiroxima após o rebentamento da bomba atómica Little Boy.

Hiroxima, Japão

Uma Cidade Rendida à Paz

Em 6-8-1945, Hiroxima sucumbiu à explosão da primeira bomba atómica usada em guerra. Volvidos 70 anos, a cidade luta pela memória da tragédia e para que as armas nucleares sejam erradicadas até 2020.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Não fosse pelo seu passado marcante e dificilmente seria uma descoberta prioritária esta urbe de novo produtiva e populosa do oeste de Honshu, a maior ilha do Japão. Como qualquer forasteiro, chegamos intrigados sobre as cicatrizes históricas que viríamos encontrar sabendo que mais de seis décadas haviam decorrido desde a sua destruição massiva. A chegada de shinkansen (comboio-bala) a uma estação sofisticada local que abrigava vários outros comboios similares dizia mais do lado futurista do Japão e o cenário urbano em redor também não parecia ajudar.

Pedimos indicações que nos permitem chegar à paragem de autocarro de que precisamos e, com sorte, até o aguardamos no sentido correcto. Mas é um velho eléctrico verde e amarelo que se aproxima com o número que devemos apanhar e, quando subimos, seguimos finalmente a bordo do passado da cidade. A Hiroden, a companhia que os explora e aos autocarros da cidade, estabeleceu-se em 1910 e, no início de 1945, operava já dezenas de eléctricos. Apenas quatro sobreviveram à guerra mas a construção de um metropolitano revelou-se demasiado dispendiosa (Hiroxima está situada num delta) e, como tal, as autoridades optaram por reforçar os transportes à superfície. Compraram eléctricos antigos a cidades vizinhas e combinam o seu serviço com o de outros mais modernos.

É fim de semana. Passamos por um estádio de basebol à pinha e, ao longe, vemos a réplica do castelo medieval da cidade mas, mais cedo do que estimávamos, uma voz feminina  de tom juvenil, à boa moda nipónica, anuncia-nos a paragem de saída. Atravessamos a mesma avenida por que continua o eléctrico e, já do lado oposto, damos com o Parque do Memorial da Paz e, numa absoluta solidão arquitectónica e temporal, com as ruínas da Cúpula de Genbaku, à beira do rio Aioi.

O edifício funcionava, à época, como o Salão de Promoção Industrial de Hiroxima e a sua resistência à explosão continua a surpreender a maior parte dos cientistas. Devido ao vento, a tripulação do B-29 Enola Gay falhou o alvo, uma ponte próxima do rio Aioi. A detonação deu-se a 580 metros do solo, como predeterminado, mas cerca de 240 metros ao lado do ponto escolhido.

Mesmo assim, a cerca de 100 metros de distância, estima-se que a pressão provocada sobre o edifício tenha sido de 35 toneladas por m2. Num raio de 2 km, quase nenhuma estrutura ficou de pé mas a destruição generalizada verificou-se até 12 km2.

Neste espaço e fora dele, entre 70 a 80 mil habitantes, (cerca de 30% da população de então) morreu imediatamente, enquanto outros tantos ficaram feridos. Ironicamente, sabe-se que o urânio (U235) era ineficiente e que só 1.68% do material presente na bomba - que os americanos baptizaram de Little Boy - fissionou.

Outras cidades japonesas eram alvos possíveis mas Hiroxima acabou condenada por acolher um importante arsenal do exército e um porto no seio de uma vasta área industrial urbana. Para mais, era cercada de colinas o que contribuiria para aumentar os efeitos da explosão e convencer o Japão a render-se incondicionalmente, de acordo com a Declaração de Potsdam.

Atravessamos o rio e o parque verdejante, entre grupos de crianças japonesas que as escolas fazem questão de levar ao memorial para as elucidar sobre o período mais tenebroso da história nipónica. Como é de esperar, a inocência das suas idades impede-as de assimilar  demasiado o significado daquele lugar e muitas entregam-se a brincadeiras endiabradas em redor dos monumentos desmistificando-os e perturbando os pensamentos e as orações de visitantes que continuam a sofrer com a perda de familiares ou simplesmente da honra japonesa.

Entramos no museu e, por três longas horas ficamos entregues ao silêncio lúgubre das suas salas, aos mapas, aos vídeos, aos vestígios distorcidos e transformados de outras formas pela explosão e seus efeitos e aos cenários reconstituídos do terror vivido pela cidade.

Nesse tempo, a abundância de informação simplificada permite-nos também saber e compreender vários aspectos surpreendentes da tragédia. O facto de os radares japoneses terem detectado os aviões uma hora antes do bombardeamento e terem optado por não os tentar interceptar por serem apenas três e a força aérea nipónica precisar de poupar combustível. O destino incrível de Eizo Nomura que sobreviveu a apenas 170 metros do hipocentro (hoje marcado no chão como um monumento) se encontrar na cave de um edifício anti-sísmico de betão reforçado e o drama comovente de Sadako Sakai, a menina que tinha dois anos quando se deu a explosão e a quem foi, nove anos depois, diagnosticada leucemia. Sabe-se que a sua melhor amiga Chizuko Hamamoto a visitou no hospital e que, fazendo fé na crença popular japonesa de que um cisne concederá um desejo a quem dobrar 1000 cisnes de origami, ofereceu a Sadako o primeiro. Mas Sadako tinha apenas um ano de vida. Diz-se que dobrou 644 cisnes de origami antes de falecer e que os seus amigos completaram os restantes e os enterraram junto com a menina.

Regressamos ao exterior e encontramos duas idosas nipónicas em meditação junto à estátua das crianças da bomba atómica. Questionamo-nos se não serão hibakushas - sobreviventes do ataque nuclear - já que a sua idade e a postura compenetrada e comovida tudo o indica.

Em 2010, o governo japonês reconhecia 227.565 hibakushas, em grande parte a viver ainda no Japão e, muitas, em Hiroxima. Destes, as autoridades nipónicas reconhecem que 1% sofrem de doenças causadas pela radiação. Todos recebem um apoio financeiro mas o apoio médico e financeiro prestado aos últimos é especial. Como é especial, de uma forma negativa, o seu estatuto social encoberto. Durante décadas, o desconhecimento acerca dos efeitos da radiação levou a que os hibakusha fossem discriminados por receio de contágio e hereditariedade das doenças. Essa questão vai-se desvanecendo à medida que as vítimas, todas idosas falecem.

É outra das heranças problemáticas que Hiroxima tenta ultrapassar. Em 1949, por iniciativa do seu mayor, o parlamento japonês declarou-a Cidade de Paz. Desde então, tornou-se numa sede apetecível para conferências internacionais sobre a paz e outros assuntos sociais, de tal forma que a Universidade local fundou, em 1998, um Instituto da Paz de Hiroxima. Ao mesmo tempo, o mayor actual de Hiroxima é o Presidente dos Mayors for Peace, uma organização que tem como fim mobilizar as cidades e os seus cidadãos para a abolição e eliminação de todas as armas nucleares até 2020. Uma conquista que se revela cada vez mais improvável.

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