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Antes da chuva

Cenário palafítico do manguezal de Katungan.

Camiguin, Filipinas

Uma Ilha de Fogo Rendida à Água

Com mais de vinte cones acima dos 100 metros, a abrupta e luxuriante, Camiguin tem a maior concentração de vulcões que qualquer outra das 7641 ilhas filipinas ou do planeta. Mas, nos últimos tempos, nem o facto de um destes vulcões estar activo tem perturbado a paz da sua vida rural, piscatória e, para gáudio dos forasteiros, fortemente balnear.

Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)

A monção habagat continuava a saturar o grande arquipélago filipino de humidade produzida mais abaixo no mapa, da evaporação dos mares mornos das Celebes, Banda e cia. Seguimos a bordo de um avião que descolara de Mactan-Cebu para um céu coberto de nuvens densas, dispostas em camadas. No solo, a falta de luz solar directa achatava os cenários. Nem assim deixámos de reconhecer as Chocolate Hills de Bohol, uma vasta colónia de outeiros redondos e verdejantes espalhados a meio do caminho para o destino final. Cruzamos o Mar de Bohol e, com relativa facilidade, reconhecemos Camiguin. São quase oito mil as ilhas filipinas. Nenhuma outra se revela assim, ao longe, como um cone achatado solitário, projectado das águas.

O piloto faz o avião descer e, com um círculo apertado, alinhar-se com o extremo da pista de chegada. Vinte minutos depois, já aterrávamos no eco-hotel Bahay Bakasasyunan. Sentimos a manobra mais como de borregagem tão curto foi o tempo de repouso. À hora combinada, lá estávamos os dois sob o tecto da recepção feito de metades de cocos secos. Michael, o guia que nos acompanhava desde Manila, apresenta-nos o anfitrião local, Ken. Ken, revela-nos o motorista Jamie. Este último dá-nos a conhecer o veículo em que nos transportaria a todos. Devíamos tê-lo suspeitado: era um jeepney. Mais moderno, não tão típico ou exuberante que aqueles que os filipinos se habituaram a fabricar com motores dos jipes abandonados pelos norte-americanos no fim da 2ª Guerra Mundial. Ainda assim, de um verde quase fluorescente, decorado com um homem-aranha a levantar voo de entre os faróis dianteiros.

Tínhamos dormido quatro horas mas fizemo-nos fortes como o super-herói e demos início aquele novo almanaque filipino. Como bom cristão, Ken sugere começarmos a explorar a ilha pela igreja San Nicolas de Tolentino, a maior da capital Mambajao e de toda Camiguin. Encontramos a sua nave à pinha de jovens de uniforme escolar que assistem a uma eucaristia matinal com a quietude possível. Depressa nos tornamos no principal foco de distração pelo que precipitamos a debandada para outras paragens. Não fazíamos ideia do quão longe a missa ia do adro, no que dizia respeito a Cristianismo. Voltamos a deter-nos, agora na base de um vulcão que os nativos apelidaram de “Old” apesar de ser o mais recente da ilha, nascido em 1871, de uma chaminé do Monte Hibok-Hibok, este, o único em actividade. A população da ilha conhece bem o histórico de destruição causada pelo Hibok Hibok, com uma erupção violenta em 1951 que arrasou 20km2 da ilha, provocou três mil mortes e uma emigração massiva que fez diminuir para metade os 70.000 habitantes da ilha. De acordo, rogam-lhe clemência na forma de uma Via Crucis disposta monte acima, com cada uma das estações ilustradas por estátuas tão kitsch quanto coloridas. Ken informa-nos que são dois mil os degraus até à última estação. Habituados a pagar promessas afins pelo amor à descoberta, metemo-nos a caminho, ao mesmo tempo que três crentes femininas, uma delas de cinquenta e tal anos e duas jovens, uma das quais mais bonitinha, com um ego reforçado e memória fotográfica para selfies a condizer.

As estações sucedem-se. Cristo caminha derreado para a sua cruz, ladeado de centuriões abonecados. Nós, tanto passamos pelo trio como somos por ele ultrapassado consoante o tempo que nos detemos em determinadas estações.

Da décima estação em diante, a vegetação tropical da encosta concede planos panorâmicos daquela vertente da ilha, no imediato, coberta por plantas espanadores, mais abaixo e até à beira-mar, de coqueirais.

Deixamos a 12ª estação em que Jesus morre na cruz. A 13ª surge dentro de uma cova coberta de musgo. Quando entramos, deparamo-nos com as três mulheres já em oração, ajoelhadas sobre a estátua de Cristo deposto e acarinhado pela mãe. Acompanhamos as suas preces em silêncio. Ainda assim, a mais velha pressente-nos. Quando se vira para trás e nos contempla, as lágrimas correm-lhe, abundantes, face abaixo. Trocamos sorrisos tímidos e deixamo-las entregues à sua fé. Regressados ao início da escadaria, uma nativa tinha montado uma banca e vendia lansiums, ou lanzones como lhes chamam os filipinos, uma fruta do estilo da líchia. Durante o trecho de jeepney que se seguiu, devorarmos dezenas das suas polpas e recuperámos boa parte dos nutrientes suados na subida. Era a primeira vez que ouvíamos falar de lanzones, muitas mais se repetiriam.

Como acontece com frequência nos redutos vulcânicos, brotavam das profundidades de Camiguin fartas águas termais. Passámos por umas primeiras conhecidas por Soda Waters. Seguimos para a nascente e piscina de Santo Niño, esta bem mais desafogada e, assim viemos a constatar, com um importante papel social na ilha.

Ken instalou-nos e a Michael sob abrigo usado para refeições. Logo, surgiu uma senhora que nos serviria o almoço. A piscina de água fria resplandecia de vida. No seu interior, peixes pédicures mordiscavam-nos os pés de molho. Sediado do lado oposto do muro mas em permanente movimento, um grupo protagonizava um festival de galhofa, partidas e acrobacias. Michael examina-os com atenção: “Não é normal os filipinos terem corpos assim naquelas idades. São polícias de Cagayan de Oro. Tiveram o fim-de-semana de folga, apanharam o ferry e vieram até cá descontrair.

Camiguin distava uma mera hora de barco da capital de Mindanao, a má afamada grande ilha do sul das Filipinas.

Terminamos o almoço e enfiamo-nos na piscina para nosso próprio recreio. Um grupo de crianças lideradas por um treinador, junta-se a nós, reclama várias das pistas inexistentes e dá início a um treino de natação. Era o estímulo de que precisávamos para deixarmos o lugar e o descanso.

Quilómetros adiante, passámos por uma escola em que um elenco de miúdos ensaiava ao som de tambores. “Ah, é verdade...” atira Ken. “Nós, cá, temos o Festival dos Lanzones. É já daqui a uns dias. Agora há ensaios em todas as escolas.” Durante vinte minutos, apreciámos as coreografias dos alunos, munidos de estandartes pintadas com cachos amarelos. Por fim, lá nos dedicámos ao fito original da visita.

Ao longo da sua colonização das actuais Filipinas, os espanhóis ergueram torres de vigia que facilitavam o avistamento dos inimigos mouros de etnia malaia. Uma delas, até então escondida pelo edifício escolar, abrigava reguilices de várias outras crianças.

Prosseguimos o manguezal de Katungan que a maré baixa deixara descoberto. Atravessámo-lo sobre passadiços de madeira que entravam floresta adentro com extensões para intrigantes refúgios lacustres. Haviam sido construídos nos recantos mais encantadores da paisagem que se reflectia no mar raso e estático. Por essa altura, nuvens arroxeadas filtravam a luz solar e tornavam aquela natureza viva ainda mais especial. Casais de namorados conhecedores do lugar, ocupavam vários dos refúgios, distantes de outros partilhados por famílias barulhentas. O crepúsculo não tardou a envolver o mangal e a precipitar o reentrada no hotel.

Acordámos pela primeira vez em Camiguin. O conforto do descanso não chegou sequer ao pequeno-almoço. Andávamos de olho na meteorologia caprichosa da monção habagat e o vento forte já chegara a Camiguin. Quando nos encontrámos à mesa, tanto nós como Michael sabíamos que um tal de furacão Sarika (Karen) se aproximava de Luzon, seguido de outro, o Haima (Lewin). A comitiva de uma reunião familiar convivia numa grande mesa ao lado. Não tardaram perseguir um chapéu de senhora que voou para o mar.

Longínqua mas poderosa, a tempestade tornou aventureira a incursão de bangka (embarcação tradicional) à ilha menor de Mantique. No regresso, subimos ao observatório do vulcão Hibok Hibok. Vencida a resistência de Edmund, o único funcionário do lugar, ficámos uma hora no terraço do edifício atentos ao momento em que as nuvens lhe revelassem a cratera. Contamos-lhe que tínhamos subido ao cume do Pico (Açores) uns dias antes. A narrativa fascina-o e inspira uma profícua conversa sobre vulcões.

Cumprida a descida vertiginosa para o litoral, detemo-nos na iminência da enorme cruz que assinalava o Cemitério Afundado da ilha. Primeiro no cimo das escadarias, depois sobre o areal negro abaixo, entretemo-nos a apreciar os vaivéns excitados das famílias a bordo de bangkas operadas em regime de turnos e num engenhoso modo de puxa-corda.

O novo dia amanheceu mais uma vez ventoso e com o mar revolto, pelo que a capitania local suspendeu as viagens de bangka até à White Island. A White Island era bem mais que um enorme banco de areia coralífera. Em dias de esplendor tropical proporcionava fabulosos momentos balneares com vista privilegiada para a ilha de Camiguin. Tornou-se, assim, uma das mais reputadas imagens de marca das Filipinas, um manancial de fotogenia que nos continuava barrado. Conformámo-nos e retornámos ao jeepney. Dirigimo-nos para a velha igreja espanhola de Bonbon quando, à passagem pela aldeia de Yubeng, avistamos camponeses a trabalhar num arrozal muito amarelo. A essa hora, era tanta a água acumulada no céu azul-escuro que parecia ir desabar mais minuto menos minuto. O dilúvio apanhou-nos à beira do arrozal. Ken activou o seu modo de protecção civil: “Venham por aqui. Eu conheço os donos desta casa, o filho foi da minha turma!”. Bateu à porta sem grandes modos. Do interior, abriram-nos caminho ao refúgio, tudo isto a acontecer sob o olhar incrédulo de dezenas de vizinhos que participavam numa reunião daquele mesmo barangay (freguesia) realizada debaixo de um telheiro. Assim mesmo, autorizado à força, Ken instalou-nos numa espécie de canapé frente a frente com um ancião que via T.V. na companhia de três netos. O senhor manteve-se em silêncio, ou indignado ou acanhado pela nossa presença. Durante mais de meia-hora, passaram muitas mais pessoas, pela sala e por um varandim acima, ligado a diferentes quartos. Era extensa a família que partilhava aquele lar. Com a ajuda de Ken, fotografámo-nos na companhia de todos. Quando a chuva deu tréguas, retomámos o circuito.

Mesmo encharcada e desabrigada como estava, a velha igreja hispânica do século XVII deslumbrou-nos. Um sismo tinha-lhe derrubado o telhado e o piso era já de terra. A humidade das monções cobria-lhe as paredes de musgo. Nada disso impedia que acolhesse uma missa mensal em que os crentes da ilha participavam com redobrado entusiasmo.

Às quatro da tarde, o vento amainou e as nuvens cederam a um céu azul. Não nos saía da cabeça a frustração da White Island mas sendo Domingo, a actividade das bangkas continuava barrada pela proibição matinal da capitania.

Habituados a forçar soluções, re-despertámos Michael e Ken para a importância da missão. Ken, percebeu a urgência do apelo complementar de Michael. Findos três ou quatro telefonemas arrastados em tagalog, comunicou-nos que, muito excepcionalmente, nos tinham disponibilizado uma bangka com um dos melhores timoneiros de Camiguin. Jamie fez o jeepney voar até ao porto. Ignorámos o melhor possível as experiências passadas do quanto as bangkas eram desadequadas para navegar com ondas e entregámo-nos à viagem. O timoneiro sossegou-nos a todos. “Não se preocupem. Está agitado mas não é nada de especial.” De facto, dez minutos de montanha-russa marinha depois, ancorámos do lado protegido. Corremos desenfreados para a sua extremidade norte. Quando nos viramos para trás, ofegantes, somos prendados com a vista sublime da enorme língua de areia, curva e deserta. Para diante, Camiguin surgia projectada do oceano. Sobrepunha-se ao mar, imponente, luxuriante e, agora com todas as cores do casario no sopé, dos seus coqueiros e da vegetação espraiada encosta acima, até às crateras supremas. Desde a permissão conseguida por Ken, o sol baixava sobremaneira no horizonte. O barqueiro, por seu lado, tinha instruções para nos fazer voltar à ilha às cinco e meia. Atrasámos a hora o mais que pudemos. Quando o sol caiu atrás de nuvens baixas, rendemo-nos às evidências e metemo-nos na bangka. Vencemos mais dez minutos de sobe-e-desce algo assustadores e desembarcámos numa praia ao lado do porto. A salvo e até secos, entregámo-nos a um delicioso êxtase que se prolongou pelo jantar adentro. Na manhã seguinte regressámos a Cebu.

 

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