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Acima de tudo

Acima de tudo

Visitantes de Graaf-Reinet sobre um penhasco de dolomitos com vista para o vasto Valley of Desolation.

Graaf-Reinet, África do Sul

Uma Lança Bóer na África do Sul

Nos primeiros tempos coloniais, os exploradores e colonos holandeses tinham pavor do Karoo, uma região de grande calor, grande frio, grandes inundações e grandes secas. Até que a Companhia Holandesa das Índias Orientais lá fundou Graaf-Reinet. De então para cá, a quarta cidade mais antiga da nação arco-íris prosperou numa encruzilhada fascinante da sua história. 


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Demoramos apenas uma hora e meia a descer de Malealea, nas terras altas do Lesoto. Às 7h30, cruzamos à fronteira sul-africana de Makhaleng Bridge e a apanhamos a estrada R56 para sudoeste. Por essa altura, o condutor e guia do camião-autocarro Albertrham “Tenk” Engel já se sentia a regressar à Elim em que nascera e vivera a maior parte da sua vida, nas imediações do Cabo Agulhas. Com a progressão simplificada pelas rectas longas e planas do Grande Karoo, pisava forte no acelerador. À medida que a tarde se anunciava, o bafo sufocante do semi-deserto, fazia-nos esquecer o frio enregelante do Lesoto. Não tardamos a entrar nos domínios do Great Escarpment onde o Planalto Central do Sul de África mergulha na direcção dos oceanos meridionais. É entre as suas falésias e mesetas imponentes que damos entrada no destino do dia: Graaf-Reinet.

“Tenk” faz o camião desdobrar-se pelas intersecções da grelha geométrica da cidade, até o imobilizar no estacionamento do hotel. “Muito bem rapazes e raparigas, quem disse que não queria fazer mais nada pode instalar-se, descansar ou dedicar-se ao que bem lhe apetecer. Os que disseram que ainda queriam sair, aguardem um pouco, o guia de cá está quase aí.

Não tardamos a apurar que somos os únicos nesta categoria. Minutos depois, David McNaughton aparece em trajes beije-caqui de explorador e leva-nos a bordo da sua carrinha. Em tempo semelhante, sentimos por ele enorme empatia. David trabalhou na Força Aérea Sul-Africana antes de criar a sua empresa de tours em Graaf-Reinet. Apaixonado por história, tinha aprendido a fundo a da África do Sul, mas não só. Falamos de Fernão Magalhães, de Bartolomeu Dias e, claro está, de Vasco da Gama. Aproveitamos para com ele esclarecer questões nas nossa mentes parcialmente nebulosas quanto à passagem dos navegadores portugueses pelas costas da sua nação: o porquê de nunca lá se terem fixado, apenas mais a norte, em terras do Moçambique de hoje.

Mas, não tardamos, a dar com a entrada do Parque Nacional Camdeboo. A explicação entusiasta do cicerone é interrompida pelo avistamento quase imediato de avestruzes, zebras, macacos, cabras-de-leque e de espécimes distintos da fauna residente. Vínhamos de outros safaris na África do Sul. Entusiasmados pela proximidade de um tal de Valley of Desolation, os animais retiveram-nos apenas alguns momentos.

Do fundo da savana, subimos a uma das mesetas que a recortam. No cimo, admiramos a vastidão da pradaria pejada de animais. David mostra-nos um outro ponto de observação na orla de uma falésia. Dali, desvendamos uma barreira de colunas de doleritos com 120 metros de altura, alaranjados pelos últimos raios do ocaso, o mesmo que se repete nos mais de 100 milhões de anos de acção vulcânica e de erosão que produziram tais esculturas.

Dessas colunas para diante, o Grande Karoo estende-se a perder de vista, com um visual ainda mais ermo e inóspito que a secção porque tínhamos chegado do Lesoto. E, entre a elevação em que estávamos e outra oposta, dispunha-se o casario quase todo térreo de Graaf-Reinet, instalado num desfiladeiro com perfil de oásis.

O crepúsculo dá lugar à noite. Quando regressamos à cidade, Graaf-Reinet estava já entregue à sua paz. Durante muito tempo, esse foi um raro privilégio.

No virar do século XVIII para o XIX, o interior da África do Sul, além de repleto de animais selvagens, era habitado por tribos belicosas, como se provavam há muito os San, hoje também conhecidos por Bushmen. Ainda assim, holandeses intrépidos acabaram por se aventurar nos limites indómitos da Colónia do Cabo. A Companhia Holandesa das Índias Orientais geria a colónia com mão de ferro e, demasiadas vezes, contra os interesses dos seus súbditos.

Insatisfeitos pela permanente repressão, sucessivos grupos de agricultores bóeres nómadas, os voortrekkers, deixaram o litoral em busca de maior autonomia. Nem assim a Companhia Holandesa das Índias Orientais os largou. Os seus líderes tinham o objectivo de expandir o comércio da colónia para o interior onde esses pioneiros se refugiavam. Assim, em 1786, fundaram Graaf-Reinet, baptizada em homenagem ao governador de então da Colónia do Cabo, Cornellis Jacob van de Graaf e da sua esposa, Reinet. Ainda e sempre fartos das castrações da Companhia Holandesa das Índias Orientais, os voortrekkers da região expulsaram o seu administrador, proclamaram Graaf-Reinet independente e pediram a protecção directa do governo holandês. Ficaram, então, na expectativa do que viria da Colónia do Cabo. A esperada reacção nunca chegou a acontecer já que, entretanto, os rivais coloniais britânicos dela se apoderaram.

Como havia acontecido com a Companhia Holandesa das Índias Orientais, os voortrekkers rejeitaram os Britânicos. Aqueles que persistiam na Colónia do Cabo, inauguraram uma nova vaga épica de migrações que ficou conhecida por Great Trek e a que se deve a actual presença Bóer em recantos improváveis da África do Sul.

Após feroz resistência, os Britânicos colocaram termo à pioneira República Independente de Graff-Reinet. Capturaram os seus líderes e condenaram-nos à morte ou a longas penas de prisão na Cidade do Cabo. Já no século XX, durante a Segunda Guerra Bóer, os Britânicos fizeram de Graaf-Reinet o centro das suas operações. Voltaram a lá condenar e executar dezenas de Bóers.

Passado este período conturbado, mesmo a evoluir devagar devagarinho, Graaf-Reinet veio a revelar-se providencial para o desenvolvimento da área circundante. Do final do século XVIII até à chegada do caminho-de-ferro que a ligou ao litoral de Port Elisabeth, teve a fama e o proveito de polo comercial movimentado.

Em 1865, contava com sessenta e quatro outspans, locais onde os criadores de gado e vaqueiros podiam repousar e refrescar os seus animais, bem como remover outros das carroças em que seguiam. Dezenas de pousadas floresceram nas imediações destes outspans e recém-chegados aptos nos mais diversos misteres aumentaram a população. A meio do século XIX, Graaf-Reinet era a povoação mais importante a leste da Colónia do Cabo e a norte de Port Elisabeth.

Pouco depois de desembarcar na Cidade do Cabo, em 1841, o explorador escocês Dr. David Livingstone prosseguiu numa caravana de carros-de-bois rumo a Kuruman, no norte da África do Sul. Pelo caminho, passou por Graaf-Reinet. Ali conheceu o reverendo Andrew Murray e a sua esposa, como ele, fervorosos cristãos. Por certo entusiasmado pela empatia religiosa do encontro, descreveu Graaf-Reinet como “A Cidade Mais Bonita de toda a África”.

Na actualidade, com menos de 60.000 habitantes, Graaf-Reinet não surge nem nas primeiras setenta maiores cidades sul-africanas. Mantém-se relevante devido à presença arrojada em pleno Karoo, pela sua produção agrícola e  criação pecuária: de ovelhas merino, de cabras angorá e de mohair, de avestruzes e de outras espécies e derivados. Mesmo diminuta, Graaf-Reinet orgulha-se sobremaneira da sua história. Brada aos ventos a incrível concentração de monumentos nacionais que abriga.

Na manhã seguinte, é Domingo. Dedicamo-lo ao centro secular da cidade, vazio de gente e tranquilo como nunca supusemos possível na África do Sul. Um sócio de David dá-nos boleia até a um miradouro próximo, situado numa elevação oposta à da tarde anterior. Dali, contemplamos a Igreja Reformada Holandesa, destacada bem acima da vegetação frondosa que dissimula o casario, na sua maior parte branco.

Descemos do morro apontados à igreja.  Espreitamos o interior e ascendemos ao coro. Um grupo de cinco crentes, quatro cantores e uma pianista, ensaiam os cânticos que irão entoar, daí a umas horas, na missa.

Graaf-Reinet orgulha-se também de que a sua enorme igreja é a única da África do Sul - provavelmente do mundo - equipada com uma cozinha e uma chaminé. Fosse ou não assim, os nossos olfactos diziam-nos que, àquela hora, não deveriam ainda ter uso.

Voltamos ao exterior e ao dia solarengo mas fresco. Caminhamos Church Street abaixo com desvios estratégicos a ruas paralelas e perpendiculares, atentos à arquitectura peculiar dos edifícios históricos que a delimitavam, com óbvia génese na dos Países-Baixos dessa época, retocada para se adaptar ao clima e ambiente do Karoo: a do Hester Rupert Art Museum apenas umas centenas de metros da igreja. A do Drostdy Hotel e da Old Parsonage, hoje, Reinet House Museum. Na sua génese, a primeira foi a sede do magistrado da cidade, logo, a sede do poder judicial. Já a Old Parsonage, abrigava os membros do clero mas, ao longo dos anos, acolheu vários outros hóspedes.

Para onde quer que viremos, a nomenclatura das ruas é, ou inglesa ou afrikaans, a língua falada pela maior parte dos moradores brancos da cidade e da província de Cabo Oriental. Num caso ou no outro, menos que 10% do total de negros ou mestiço, com sangue khoiSan (90%). Os khoisan são um curioso grupo étnico formado pela fusão dos antigos grupos rivais San e Khoi Khoi, estes últimos que os colonos holandeses tratavam por Hottentots, numa referência onomatopeica aos cliques orais da sua linguagem. Curiosamente, o longo predomínio bóer ditou que, em Graaf Reinet, mais de três quartos da população negra ou mestiça fale agora afrikaans em vez de inglês ou de línguas-mãe africanas como o Xhosa ou dialectos KhoiSan.

À imagem do que acontece noutras partes da África do Sul, passo atrás de passo, também a imaculada Graaf-Reinet nos parecia cada vez mais um privilégio histórico criado e preservado pela minoria branca, neste caso Bóer.

Reparamos como abundavam as casas seculares vazias, disponíveis para alugueres de curtos períodos aos compatriotas endinheirados vindos de outras paragens. Por contraste, boa parte dos habitantes negros ou mestiços moravam em lares remediados nos arredores. Pareciam-nos desenquadrados da grelha urbana arejada, verdejante e requintada no âmago da cidade.

À chegada, “Tenk”, também ele mestiço, que se dizia descendente dos pioneiros voortrekkers, alertou-nos para o facto de estarmos na África do Sul e termos que estar bem atentos durante a nossa exploração da cidade, tal como o fez à chegada a Durban, a Port Elisabeth, a Cape Town e noutros lugares. Mesmo de máquinas fotográficas ao pescoço, não experimentamos qualquer problema. O crime persiste, todavia, em Graaf-Reinet, cometido quase sempre pela maioria negra-mestiça que sobrevive à margem da prosperidade Bóer ou anglófona, como acontecia há séculos quando os seus antepassados se viram forçados a roubar o gado aos colonos europeus trespassantes. Faz há muito parte do seu passado, um passado único e prolífico feito de determinação, conflito e imposição. 

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