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Pela sombra

Pela sombra

Visitante percorre um trilho do jardim das Wynwood Walls, de igual forma decorado por murais sugestivos.

Miami, E.U.A.

Uma Obra-Prima da Reabilitação Urbana

Na viragem para o século XXI, o bairro de Wynwood mantinha-se repleto de fábricas e armazéns abandonados e grafitados. Tony Goldman, um investidor imobiliário astuto, comprou mais de 25 propriedades e fundou um parque mural. Muito mais que ali homenagear o grafiti, Goldman fundou o grande bastião da criatividade de Miami.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Por fim, conseguimos estacionar num parque em altura que abandonamos à pressa estimulados pelo regresso ao afago estival. Em pleno Inverno do Hemisfério Norte, um sol suave mas generoso continuava a prendar a Florida.

As ruas de Edgewater em redor, esquadrinhadas à boa moda anglo-saxónica, exibem uma fascinante atmosfera recreativa-laboral, percorridas por executivos confortáveis em uniformes de calção-camisa a cruzarem-se com ciclistas, skaters e muitos clientes de ginásios próximos que identificamos pelas lycras, t-shirts respiráveis e ténis, tudo das melhores marcas e de última geração. Da sua classe média para cima, há muito que não falta dinheiro a Miami. Os Bentleys, Mustangs, BMW Z3, Porsches Cayennes e afins que por ali circulam indiciam que essa prosperidade está para durar.

É daquele reduto à beira do Mar das Caraíbas e a norte da Baixa de Miami que apontamos a Wynwood, a Oeste. Com os anos, Wynwood subdividiu-se. Conta com um Art District que ocupa vários eixos e com um Fashion District concentrado ao longo da West 5th Avenue.

De 1950 em diante, Wynwood foi conhecido como “El Barrio” ou “Little San Juan”. Era apenas um de tantos núcleos habitacionais gerado por imigrantes com a mesma origem geográfica e étnica que compunham Miami. Como “El Barrio”, coexistiam “Little Haiti”, “Little Havana”, “Little Jamaica”, “Little Brazil” e até “Little Moscow”, entre outros.

A nova cena porto-riquenha do “Little San Juan” antecedeu a hoje bem mais famosa “Little Havana” em quase dez anos. Após o término da 2ª Guerra Mundial, os antigos residentes anglo-saxónicos da classe média trabalhadora debandaram para bairros dos arredores onde podiam viver com melhores condições. Os porto-riquenhos ocuparam o seu espaço mas não beneficiaram nem dos anteriores empregos em fábricas nem das vantagens colaterais. Ainda assim, aos poucos, lá proliferaram restaurantes, mercados, lojas e outros negócios dos próprios moradores.

Com o tempo, o bairro diversificou-se. Acolheu negros de distintas origens, cubanos, haitianos, colombianos, dominicanos. No fim dos anos 70, já não era “Little San Juan”. Nem harmonioso nem próspero. Tinha regredido para um Wynwood multiétnico de classe baixa. Metade dos seus quase 20.000 habitantes mantinham-se desempregados. O tráfico de droga alastrou-se como uma epidemia. A insegurança e o crime minaram o bem-estar, como acontece ainda nas zonas mais desfavorecidas de Miami.

Dos anos 70 até 1987, pouco aconteceu em Wynwood digno de registo salvo que uma grande fábrica de pão que lá resistia ninguém sabia bem porquê vagou o seu edifício. Por essa altura, uma facção de um tal de South Florida Art Center deixava Coconut Grove devido ao aumento das rendas. Alguns dos seus artistas formaram uma organização não lucrativa e compraram-no. Em 1987, inauguraram-no para os novos fins. Baptizado de Bakehouse, tinha quase 9.000 m2. Era o maior espaço de trabalho artístico da Flórida. Hoje, o Bakehouse Art Complex mantem-se operacional na mesma antiga fábrica que fermentou o incrível movimento criativo que se viria a formar.

De tanto andar, damos com o contraste absoluto dos anos 70 e 80 deprimidos do bairro. Em pleno Miami Design District, o Palm Court foi erguido com a leveza e subtileza de acrílico azulado que combina com o verde de cinquenta palmeiras de distintas espécies. A agência de comunicação do espaço comunica, orgulhosa, que entre elas “se incluem a Coccothrinax spinosa e a Heterospathe elata em redor de uma catedral geodésica icónica da autoria de um arquitecto e inventor de renome, Buckminster Fuller.”

Ofuscados por tanta pompa, uma coisa temos como certa: à parte das palmeiras de tronco fino e folhagem elegante, aquela plazza interior agrupava obras de arte, instalações e, claro está, algumas das lojas mais dispendiosas do Planeta. Deixamo-la apenas e só com memórias visuais e fotográficas.

Quando percorremos uma rua no exterior, dirigidos ao âmago de grafiti de Wynwood, temos a certeza praticamente absoluta que é o ex-futebolista italiano Gianluca Vialli quem está sentado a ler um catálogo no interior de um atelier de mobiliário. Prosseguimos com essa convicção.

Estúdio atrás de estúdio, antro hipster após antro hipster, chegamos ao pórtico das Wynwood Walls e ao ponto mais popular do bairro. Passado o estímulo inicial da Bakehouse, foram os sprays de artistas de rua ansiosos por exibir o seu talento que mais cor emprestaram ao bairro. Durante décadas, ilegal e até perseguida, a sua acção acabou sacralizada. As Wynwood Walls são o templo que milhares de seguidores da arte visitam, uns vindos das imediações, outros, como nós, do outro lado do oceano e do Mundo.

Miami parece reconhecer o papel determinante de um homem em particular na transformação de Wynwood da noite para o dia. Tony Goldman era um investidor imobiliário multimilionário que já tinha estado por detrás da recuperação do SoHo e da South Beach de Miami. Ora, no que dizia respeito a bairros, Goldman sempre teve o condão de ver ouro onde os outros só achavam lixo. Com Wynwood, a história repetiu-se. O investidor e dois dos seus filhos começaram a comprar partes do distrito de armazéns de Wynwood. Em vez de arrasarem as velhas estruturas, deram-lhes nova vida com recuperações sábias das propriedades e, em simultâneo, em arte que as valorizasse. Em 2009, abriram uma galeria ao ar livre que permitiu aos grafiters e outros artistas exibir as suas pinturas em murais. Fizeram coincidir a inauguração desta galeria, a Wynwood Walls, com a reputada Art Basel de Miami. Essa opção granjeou à nova galeria uma enorme projecção mediática.

Entusiasmado, Tony Goldman projectou muito mais para o seu bairro então predilecto de Miami. A seu ver, todo Wynwood devia ser promovido a uma exibição de arte urbana de rua. A realidade excedeu as expectativas até no plano imobiliário. De cemitério de armazéns e fábricas abandonadas, Wynwood tem, hoje, dos metros quadrados mais valiosos da Flórida.

Tudo começou, todavia, ao ar livre, nas Walls. Com o sol quase a deixar de incidir no seu pórtico nominativo, apressámo-nos a lá entrar.

Um caminho de lajes conduz-nos por um relvado de brilho sintético, entre os sucessivos murais garridos, imaginativos, quase sempre surreais que compõem a galeria. Antes de falecer em 2012, com 68 anos, o mentor das Walls agrupou nomes conceituados ou, pelo menos, promissores do panorama mundial da arte urbana: a japonesa Aiko, o chileno Inti, Avaf, P.H.A.S.E. 2, os brasileiros Gémeos, uma armada de nova-iorquinos, sobretudo de Brooklyn, e o português Alexandre Farto, mais conhecido como Vhils, mas tantos outros.

Entre as Walls, longe de intelectualóide, o ambiente é de diversão domingueira. Grupos de amigos, famílias e namorados começam por contemplar os grafitis e pinturas destes artistas de rua com alguma ponderação e debate intelectual. Essa abordagem dura o que dura. Num ápice, é substituída pelas incontáveis selfies ou fotos de grupo tiradas com as obras em fundo.

Bem menos policromática e excêntrica que as restantes, a obra de Vhils pode ser menos observada, mas parece merecer um interesse mais curioso de quem a confronta. Fiel à sua linha, em vez de apenas grafitar ou pintar - como acontece com boa parte dos autores das obras em redor - Vhils, pinta o seu mural. Depois, escava-o, branqueia-o com ácidos, perfura-o com pequenos martelos pneumáticos. Trabalha os pormenores com martelo, cinzeis e afins, de distintas dimensões. E tal como o próprio Vhils sintetiza no seu perfil da galeria: “valoriza pessoas comuns em ícones, muitas das suas imagens são baseadas em fotos de pessoas que tira de revistas, do trabalho de Sebastião Salgado, ou da sua própria camara.”

Outras obras, patentes nos murais, portas e jardins das Wynwood Walls, suscitam-nos distintas sensações. O mural panorâmico de Logan Hicks transporta-nos para uma frieza urbana digna de um Blade Runner contemporâneo, ou de uma qualquer misteriosa pré-alvorada de Brooklyn. As pretensas mentes das “crianças trabalhadoras” do chileno Inti, parecem penetrar nas de quem nelas fixa o olhar.

Até os próprios bares e restaurantes que servem as Walls - com destaque para o Wynwood Restaurant and Bar - são decorados por obras de uma inacreditável criatividade. O logotipo e as paredes interiores deste pouso sempre à pinha são da autoria de Shepard Fairey, eternizado pelo seu poster azul-avermelhado “Hope” que exibe a face de Barak Obama.

Deixamos o interior muralhado das Wynwood Walls, por uma espécie de túnel pintado de verde, dotado de uma composição de velhas ventoinhas de parede e de um longo banco de madeira. Nele, por baixo das ventoinhas, repousam e tagarelam dois velhotes de bonés que tanta modernice parece ter deixado extenuados.

Saímos para a NW 26th Street e cedemos, de imediato, prioridade a um grupo de skaters mais hip que o próprio bairro. Atravessamos a rua. Do lado de lá, esbarramos com um mural da multifacetada (actriz, pintora, modelo, autora) canadiana Elisabetta Fantone. Nele, Andy Warhol surge enquanto Andrew Warhola, um prisioneiro por crimes contra a arte. De uniforme laranja, Warhol vê-se obrigado a segurar uma placa da sua infracção que descreve isto mesmo. Divertimo-nos a fotografar aquela que era uma das mais atrevidas paredes do bairro. E a adicionarmo-nos à composição das formas o mais cómicas possível. Então, um grafiter que coloria a parede contígua, aproveita o pretexto e mete conversa. Apesar do ar de miúdo de bicicleta BMX, Davel já tinha os seus trinta e tal anos. Ficamos à fala uns bons vinte minutos. Foi mais que suficiente para percebermos o quanto tinha beneficiado do boom de Wynwood mas, ao mesmo tempo, para ele contribuído. “Vivo nesta zona desde pouco depois de que nasci. Antes, andar nestas mesmas ruas, à noite, era uma aventura. Agora, é um dos bairros mais caros de Miami. É incrível o poder que arte pode ter, não é? E, por falar nisso, que tal a minha obra? Gostam?” Afastamo-nos para a podermos interpretar e gabamos-lhe a excentricidade garrida da sua completamente louca abstração. Trocamos contactos. Prometemos ainda que espreitaríamos mais do seu talento online. O ocaso já obscurecia a arte de Wynwood e o dia em geral. Estava na hora de recorrermos ao acolhimento festivo dos bares no interior das Walls. 

 

ESTE ARTIGO FOI CRIADO COM O APOIO DA TAP - flytap.pt   

A TAP tem voos diários de Lisboa para Miami, com partida às 10:50 e chegada a Miami às 15:15