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Vai-e-vem fluvial

Vai-e-vem fluvial

Embarcação navega rio Uraichi acima, no coração da selva densa de Iriomote.

Iriomote, Japão

Uma Pequena Amazónia Japonesa

Florestas tropicais e manguezais impenetráveis preenchem Iriomote sob um clima de panela de pressão. Aqui, os visitantes estrangeiros são tão raros como o yamaneko, um lince endémico esquivo.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Good Morning, Marucu and Sara!” São 8 da manhã. Mantemo-nos dolorosamente ensonados quando recebemos os bons dias da sempre sorridente Kaori Kinjo, que recorre ao trejeito habitual dos japoneses de multiplicar os “us”, nas palavras, para melhor as articularem. Deixamos a guest house Rakutenya de Ishigaki e saímos, na sua companhia, em direcção ao porto de Rito-Sanbashi. Uma vez chegados, aguardamos pelo anúncio do embarque no ferry para Uehara - um vilarejo portuário de Iriomote - numa sala que não destoria de um pequeno aeroporto. Tão impacientes como curiosos, saímos vezes sem conta e examinamos as lojas e os escritórios daquela infraestrutura e as bases operacionais de uma ou outra agência turística local. Mas não vemos um único estrangeiro. Nem sequer japoneses veraneantes. Ao invés, os funcionários do porto e passageiros habitantes de Ishigaki e do restante arquipélago Yayeama olham-nos de alto a baixo, como se não encontrassem qualquer razão para ali andarmos e não nos compreendessem as feições tão díspares. Não obstante, Kaori assegura-nos no tom o mais convincente possível: ”A semana passada foi a nossa Golden Week. Muitos japoneses das ilhas principais estavam de férias e tínhamos dezenas de autocarros repletos às voltas por Iriomote. Agora, voltaram todos a casa e, entretanto, vieram as monções.”

É hora de entrarmos no ferry, uma embarcação delgada e de visual sofisticado, simultaneamente hidro e aerodinâmica. Mal zarpa, aquela espécie de torpedo flutuante atinge uma velocidade impressionante, com a proa bem elevada acima de um mar da China Oriental bastante encrespado. “Mas olhem que estes já são modelos antigos.” diz-nos Kaori. “Em Honshu, é que usam barcos realmente futuristas!”.

Meia-hora depois, atracamos em Iriomote. Do porto de Uehara, seguimos directos para a foz do rio Urauchi, um dos vários caudais sinuosos, lamacentos e remotos que serpenteiam pela ilha e lhe conferem um visual de mini-Amazónia das Ásias

Iriomote é tropical como nenhum outro domínio meridional japonês. Por aquela altura, as monções do sudeste asiático já estão instaladas e, se o calor é opressivo, mais o é a humidade, mantida por uma cobertura persistente de nuvens ora brancas, ora plúmbeas. 

Enquanto uma barca colorida e silenciosa nos conduz rio acima, ao longo da selva cerrada, confirmamos como o Urauchi é alimentado pela humidade permanente e pelas chuvas torrenciais. E como o rio flui das terras altas a grande velocidade para depois atingir a planura e se entregar primeiro aos vastos manguezais e, pouco depois, a um oceano Pacífico que, ali e por aqueles dias, não podia fazer melhor jus ao baptismo de Fernão Magalhães.  

Atingido o ponto em que termina o leito navegável – desembarcamos anestesiados pelo calor, pelo silêncio e pela beleza algo estéril do lugar. A partir daí, seguimos a pé, subsumidos na floresta encharcada da ilha e em busca de Mariyudo-no-taki, uma das suas quedas de água imponentes. Nos vários quilómetros luxuriantes e ensopados do trilho, cruzamo-nos com um ou outro morador de Iriomote que se exercita no mesmo percurso de olho na ameaça latente das víboras habu, cuja mordedura requer uma injecção pouco demorada do antídoto correcto. 

Apesar de se situar a apenas 20km para oeste de Ishigaki e alguns adicionais para leste de Taiwan, a ilha mais populosa do arquipélago Yayeama, Iriomote é, há muito, considerada a última fronteira do Japão. Com quase 300 km2, prova-se a maior ilha deste sub-arquipélago de Okinawa e tem apenas 2000 habitantes e uma única estrada que liga as povoações ínfimas das costas norte e leste.

Até ao fim da 2a Guerra Mundial, Iriomote praticamente não acolhia habitantes devido às suas selvas densas e os pântanos se manterem infestados de malária. Esse foi, todavia, um dos problemas que as tropas dos Estados Unidos conseguiram resolver em definitivo quando introduziram na ilha um tal de Wheeler Plan que preconizou o ataque aos mosquitos anofeles com recurso a DTT em vez da aniquilação do parasita da malária já nos corpos dos pacientes, como era feito desde 1920, pelo governo regional de Taiwan, então uma posse territorial nipónica.

Como consequência indirecta, aumentou o número de habitantes de Iriomote. Por esse motivo, a fauna local e, em especial, os furtivos yamanekos – os linces autóctones – são agora forçados a evitar os humanos. Tanto os que se mudaram para o seu território como os que chegam, de tempos a tempos, de outras partes do Japão, entusiasmados pela aventura de explorarem a mais bravia das suas ilhas. 

Já só sobram à volta de 100 espécimes do felídeo. O único lugar onde são seguramente avistados é nos sinais de trânsito amarelos que as autoridades disseminaram pela ilha, para sua protecção. 

Aproveitamos a escassez do felídeo para brincarmos com os guias sempre contidos e disciplinados. De cada vez que avistamos algum gato doméstico ou vadio, aproveitamos para gritar “yamaneko”. Como é de esperar, só os dois primeiros desses falsos alertas despertam verdadeira atenção.

Terminamos o percurso, admiramos a queda de água de Maryudo, a de Kampire e, ao longe, a cascata Mayagusuku. Depois, regressamos ao ponto de partida do trilho e, no mesmo barco, de novo à foz do Urauchi. Dali, levam-nos ao restaurante-esplanada de um hotel quase vazio onde é suposto recuperarmos energias a saborearmos comida típica de Iriomote.

O repasto é-nos servido sem mácula, organizado de forma geométrica nos compartimentos de uma caixa bento tradicional e elegante que ocupa a maior parte da mesa. E, não percebemos se a escolha musical havia sido intencional ou mera coincidência mas, durante toda a refeição, o restaurante só passou temas cantados – pelo menos em parte - em português do Brasil incluindo a surpreendente recordação de “Underwater Love” dos ingleses Smoke City. Até ao fim do dia, limitamo-nos a restabelecer-nos do cansaço gerado pela caminhada íngreme da manhã e pela humidade atroz que só parecia aumentar.

Pouco depois da nova alvorada, viajamos primeiro até Shirahama, logo para Uchibanare-Jima, onde visitamos uma das minas de carvão históricas de Iriomote.

De 1891 a 1960, 1400 mineiros chegaram a retirar do subsolo da ilha, no período anual de maior produção, cerca de 130 mil toneladas deste combustível fóssil. Tal como Iriomote, em geral, Uchibanare foi alvo dos bombardeamentos norte-americanos que tentaram terminar com esta extracção e anteciparam a conquista árdua de Okinawa e os ataques nucleares de Hiroshima e Nagasaki.

Em Funauki - uma pequena povoação portuária - inspeccionamos uma fábrica de pérolas mas também abrigos e túneis militares preservados. O guia que tomara o lugar de Kaori era nativo da aldeia. Tinha emigrado para estudar russo, em Moscovo, um ano antes da desintegração da União Soviética e viajou o mais que pôde pelas novas nações que dela emergiram. “Quando vos ouvi falar, pensava que era russo mas como, depois, não identifiquei nenhuma palavra, vi que me equivocava”. 

A sua esposa havia escolhido abrigar-se no extremo oposto da moribunda Guerra Fria. Tinha estudado em Michigan e falava um inglês bem melhor que o do marido. O casal produzia o jornal de Iriomote em que, só muito raramente publicavam notícias da aldeia que os acolhera.

Depressa percebemos porquê. Não passavam de 41 os habitantes de Funauki. Como tal, pouco ou nada por ali se passava.

À data, eram apenas três os alunos da escola local que - por decisão do governo regional que fazia questão de compensar o isolamento do lugarejo – empregava nove professores, o presidente, o vice-presidente, uma enfermeira e duas cozinheiras.

“Nós não nos queixamos” afiançou-nos o casal habituado à sua vida retirada e pacata. “Para os miúdos é que é pior. A três, é-lhes mesmo impossível fazerem actividades ou jogos de grupo. E raramente por aqui aparecem outros amigos.”

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