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Sob um céu mais que dourado

Sob um céu mais que dourado

Sol põe-se e dá cor extra ao cenário colonial e tropical de Goiás Velho.

Goiás Velho, Brasil

Uma Sequela Da Febre do Ouro

Dois séculos após o apogeu da prospecção, perdida no tempo e na vastidão do Planalto Central, Goiás estima a sua admirável arquitectura colonial, a riqueza supreendente que ali continua por descobrir.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


É no topo do morro da igrejinha de Areias que Goiás está, desta vez, em festa. Os cânticos intensos dos fiéis propagam-se pelo vale circundante, pairando sobre a mancha uniforme de telha portuguesa que os anos  embelezaram. A honra da celebração vai para Bárbara, a santa protectora dos raios e trovões e também dos artilheiros. À laia de provocação, o fogueteiro de serviço solta canas para o céu como se disso dependesse a sua vida. Os estrondos fazem ricochete nos morros vizinhos de São Francisco, Canta Galo e das Lages e, a maior distância, na imponente Serra Dourada. Espantam alguns tucanos que esvoaçam para a segurança do cerrado. Incontornável e contundente, o anúncio alerta os crentes atrasados que correm, ofegantes, Rua Passo da Pátria e escadinhas da igreja acima.  Não é de bom tom perder a bênção da cruz e a procissão há muito que chegou à derradeira paragem. O mesmo que aconteceu a Goiás Velho como é também chamada, de quando em quando, a povoação.

De Arraial a Capital Estadual

Esta cidade goiana de vinte e seis mil habitantes teve origem em 1732, cerca de cinquenta anos depois de, na senda do sucesso obtido em Minas Gerais, os bandeirantes que se aventuraram para o interior do Brasil em busca de metais preciosos e escravos, terem achado ouro na região. Achado não será o melhor termo. Fazendo fé no que ficou para a história, ter-se-á tratado mais de um acto de ilusionismo.

Em 1682, uma bandeira liderada pelo velho Paulista Bartolomeu Bueno da Silva chegou ao território dos índios Goyaz que, para seu gáudio, usavam artefactos de ouro. Pouco vocacionado para a diplomacia mas perito em crueldade e trapaça, o anhanguera (velho diabo) - como a nação Goiá o haveria entretanto de alcunhar - resolveu o assunto incendiando sobre um prato alguma cachaça (que os índios pensavam ser água) e ameaçando que faria o mesmo com todos os rios das redondezas senão lhe revelassem as suas minas de ouro. Três anos mais tarde, apesar de dado como morto, o velho diabo regressou a São Paulo com os sobreviventes, ouro e índios escravos de Goiás. Em 1722, o seu filho homónimo, que sobrevivera à primeira  investida, organizou nova bandeira e lançou o arraial de Sant’Anna. Este arraial marcou, em 1732, o estabelecimento da vila com o mesmo nome, rebaptizada como Vila Boa de Goiaz numa homenagem sarcástica aos habitantes nativos da região, extintos pelos invasores ainda antes do ouro que só durou até ao fim do século XVIII. 

Todas as cidades têm uma história. Goiás parece ser a sua. Até o epíteto “velho” ajuda a ilustrar o fenómeno, apesar de parte da população o achar  mais depreciativo que necessário (para a distinguir do estado homónimo de que faz parte). Pouco ou nada mudou desde que se tornou na capital da recém-criada Capitania de Goiás e atingiu o apogeu. Para a preservação da sua arquitectura peculiar foi decisiva a transferência da capital do estado para Goiânia, em 1937, uma despromoção que a deixou perdida no tempo.

Como descreve a UNESCO, que concedeu a Goiás o título de património mundial, em Dezembro de 2001, “ ... o seu desenho urbano é um exemplo notável do desenvolvimento orgânico de uma cidade mineira, adaptada às condições da área (...) de uma cidade europeia admiravelmente adaptada às condicionantes climáticas, geográficas e culturais do centro da América do Sul”.

De qualquer um dos seus pontos panorâmicos, com destaque para o campanário da igreja do Rosário ou do morro da igreja de Areias se observam estes atributos. O casario que sobressai do verde da vegetação tropical é uniforme. Erguidas em adobe, taipa e pau-a-pique, as casas são quase todas térreas e as que fogem à regra têm, no máximo, dois pisos. São ainda pintadas de branco com excepção para as portas, janelas e molduras cujas cores dependem da disposição dos donos. Já as ruas, estreitas e invariavelmente cobertas por uma calçada irregular feita de enormes pedras cinzentas, causam entorses frequentes e, aos poucos, arruínam os carros dos condutores mais destemidos. Alguns edifícios públicos destoam em dimensão com destaque para o Palácio Conde dos Arcos, o hospital e o Quartel do Vinte, de onde partiram soldados do Vigésimo Batalhão de Infantaria para a Guerra  do Paraguai.

A espaços, surgem ainda casarões imponentes com brasões senhoriais e as sete igrejas barrocas que abençoam a cidade, com destaque para a da Boa Morte que é também um museu repleto de arte sacra do escultor barroco goiano José Joaquim da Veiga Valle. Mas não é só na arquitectura e património histórico que está o passado de Goiás.

Contornamos uma peladinha aguerrida a ter lugar no relvado da Praça Brasil Caiado quando, junto ao seu enorme Chafariz de Cauda, nos deparamos com um adolescente que brinca com um cachorro. Entre festas ao “Chacal”, conversa puxa conversa, Sebastião acaba por nos informar: “Eu sou  tetraneto do Bartolomeu Bueno (filho), o fundador da Vila Boa. Vivi toda a vida aqui e a minha família também. Nunca saímos de cá.” 

Mais abaixo, é Zé Pires – com, no mínimo, o triplo da idade de Sebastião - que nos aborda: “Tão fazendo matéria é? Essa cidade ‘tá cheia de estórias mesmo! (...) Tem muita gente que ainda tenta a sua sorte com o ouro, por esse cerrado fora. Às vezes aparece até aí no Rio Vermelho, só que é quase sempre só um niquinho sem valor! Não dá p’ra levar p’rá Fundição”. E ata o seu cavalo a uma árvore para melhor puxar pela memória.

A História Viva de Goiás

Quando não são os testemunhos materiais, a própria população remete para a era mineira de Goiás. Sebastião é descendente dos Paulistas; Zé Pires, provavelmente dos Emboadas, os imigrantes que vieram de Portugal atraídos pelo ouro de Minas Gerais e se deslocaram para o centro do Brasil. Ambos são brancos, mas a maior parte dos habitantes da cidade é negra ou mulata, com sangue dos escravos africanos recrutados para trabalhar na mineração. Vive e convive nas mesmas casas humildes construídas pelos seus antepassados para acolher a ilusão da riqueza, uma ilusão que, em tantos casos, o fim precipitado do ouro e os preços altíssimos dos produtos trazidos de longe, transformou em pesadelo.

Para muitos vilaboenses, a situação ainda não melhorou o suficiente, como no Brasil, em geral. A imigração do estado de Goiás para Portugal – onde tantos têm ascendentes familiares que desconhecem - e outros destinos europeus e do mundo acentua-se. Goiás contribui com os seus números. A história reverte-se.

Outros lá se vão safando com as artes em que se destacam. Em frente à Rádio FM Vilaboa, ensaia, compenetrado, o Trio Raio de Sol, constituído por Elsimar no violão, António Robertinho na viola e Magela no acordeão. Lá dentro, no pequeno estúdio, actua o trio Nascente, de José Rito, Renan e Juan Mineiro. A vida faz-se destas oportunidades. Mesmo que a rádio não pague a actuação, quem sabe se a promoção não os leva a algum festival de sertanejo.

Vários talentos de Goiás foram valorizados tarde e a más horas.

Aninha da Ponte da Lapa, como era conhecida pelos vizinhos Ana Lins Peixoto Bretas foi um deles. Nascida em 1889, recebeu apenas a instrução primária. Esteve ausente de Goiás parte substancial da sua vida. Com o falecimento do marido e o regresso de Jabuticabal - interior de São Paulo - rapidamente passou a ser admirada na cidade pela excelência dos doces que confeccionava e vendia. Mas, foi só quando se aproximava dos noventa anos que o Brasil a descobriu como Cora Coralina, a escritora da tradição e da vida do interior que encantou Carlos Drummond de Andrade e Jorge Amado:“(...) Admiro e amo você como alguém que vive em estado de graça com a poesia. Seu livro [Poemas dos Becos de Goiás e outras histórias mais] é um encanto, seu lirismo tem a força e a delicadeza das coisas naturais (...)"  

Cora Coralina faleceu em 1985. Logo após, amigos e parentes reuniram-se para transformar a sua habitação à beira do rio Vermelho na Casa de Coralina, um pequeno museu biblioteca que dá a conhecer o modo de vida simples da escritora e a obra que deixou. Lá estão, a sua velha máquina de escrever, os livros, os prémios e os manuscritos gastos, a roupa humilde e os utensílios de cozinha que usava na doçaria.

Em pouco tempo, a Casa de Coralina tornou-se numa referência cultural para as escolas do estado, mas não só.  Para a visitar, cruzam a Ponte da Lapa incontáveis excursões de estudantes irrequietos e visitantes individuais que, às vezes, vêm de tão longe como São Paulo, o Rio de Janeiro ou o estrangeiro. 

Sem Pressas nem Complexos

A Casa de Cora Coralina é uma excepção. Goiás está longe de ser turística. É verdade que durante a Semana Santa e, principalmente a Procissão do Fogaréu – única no Brasil - a cidade fica à pinha para assistir à reencenação da perseguição dos farricocos a Cristo. O mesmo acontece com a chegada do FICA–Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, uma das maiores mostras temáticas do mundo. Mas, além destas ocasiões, só a passagem de ano atrai um número significativo de visitantes, provenientes das cidades vizinhas, Brasília, Goiânia, Anápolis etc.

Ao contrário das “irmãs” de Minas Gerais, Tiradentes, Diamantina e Ouro Preto que são intensamente promovidas e recebem, todos os anos, milhares de visitantes brasileiros e estrangeiros interessados apenas na sua arquitectura, Goiás continua a pagar o preço da interioridade e permanece na sombra do título de Património Mundial. Enquanto não se faz justiça, trata da herança que recebeu e desfruta da sua vida genuína e sedativa.

As lojinhas e outros pequenos negócios funcionam nas casas seculares da cidade, identificados por nomes e logótipos pintados, nas paredes, em cores garridas. Abrem bem cedo para sustentar a pequena economia local: as lanchonetes que vendem os empadões típicos da cidade - nem mais nem menos que empadas gigantes com recheio rico - salgadinhos, cocos gelados e cremes de uma miríade de frutos, as lojas de tecidos, roupa e de artefactos religiosos, farmácias à moda antiga. Um ou outro estabelecimento mais moderno que fornece os indispensáveis celulares, ou aluga o filminho da moda. 

A cidade também é dinamizada por empresários de ocasião como o vendedor de picolé ou do bilhete da sorte que, circulam, sem rumo, sobre o empedrado irregular das ruas. Com o fim da tarde, os negócios fecham e os locais recolhem às casas ou reúnem-se à entrada da igreja, a aguardar o início da missa e, à conversa, nas esquinas. Assim que o sol se põe, os velhos lampiões de luz dourada começam a acender numa sequência desconexa. Goiás passa lentamente para o seu modo nocturno e instala-se uma paz só quebrada pelos foguetes ou cânticos, caso seja tempo de comemoração.

No dia seguinte, os vilaboenses despertam com o alvorecer para o ritmo tranquilo de trabalho que o clima do Planalto Central ajuda a marcar.

Situada sobre os 15º de latitude, faz calor todo o ano em Goiás. No Inverno - de Maio a Setembro - não chove, o ar é límpido e o céu permanece azulão, polvilhado de  pequenas nuvens brancas. “’Tá fazendo um frio de noite!” queixam-se os locais todos os dias de Julho e Agosto, apesar de a temperatura quase nunca baixar dos 15 graus.

O Verão, que dura os restantes meses, acolhe a época das chuvas, quando está frequentemente nublado e chove com frequência e intensidade, às vezes, surpreendentes.

Quase no virar de 2001, menos de um mês depois de Goiás Velho ter sido reconhecida pela UNESCO - o que custou ao governo estadual goiano 40 milhões de Reais - (15.260.000 €), caíram bátegas dois dias e meio sem parar e o caudal do Rio Vermelho subiu descontrolado. Quando a tormenta acalmou, três das quatro pontes que o cruzam mais quarenta casas das margens, incluindo a Coralina, estavam gravemente danificadas deixando moradores e visitantes que ali planeavam passar o reveillon desabrigados e isolados do centro de Goiás. Várias habitações desabaram e a cruz de Anhanguera - um dos principais símbolos da cidade -, assim como as caixas multibanco do Banco do Brasil, com dinheiro dentro, foram arrastadas Vermelho abaixo. Doze dias depois, o relatório dos estragos foi apresentado em Paris, na sede da UNESCO. Hoje, apesar da quase totalidade do património atingido estar recuperada, os residentes continuam a relembrar a calamidade: “(...) tinha mais de 150 anos que não batia uma enchente dessas (...), desabafam, de quando em quando, ao trazerem esses dias catastróficos à memória.

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