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White Pass & Yukon Train

White Pass & Yukon Train

Composição do White Pass and Yukon Train.

Skagway, Alasca

Uma Variante da Corrida ao Ouro do Klondike

A última grande febre do ouro norte-americana passou há muito. Hoje em dia, centenas de cruzeiros despejam, todos os Verões, milhares de visitantes endinheirados nas ruas repletas de lojas de Skagway.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Isolada entre o oceano Pacífico e a imensidão da British Columbia, a região da panhandle surge  fragmentada por incontáveis canais e fiordes de que se elevam as Coast Mountains, uma cordilheira litoral semi-subsumida na Tongass, a maior floresta dos Estados Unidos. Esta natureza rude inviabiliza a construção de vias e, com excepção de Skagway, Hyder e Haines, as povoações locais continuam desprovidas de uma ligação rodoviária ao exterior. A via de eleição é, desta forma, o Alasca Marine Highway, como o nome indica, uma espécie de auto-estrada marítima que tem início no longínquo porto aleuta de Unalasca/Dutch Harbour e percorre a passagem interior do cabo de frigideira alasquense até Bellingham ou Prince Rupert, a norte de Vancouver.

Tínhamos acabado de aterrar em Juneau vindos da grande Anchorage. É na pitoresca capital alasquense que embarcamos no M/V Malaspina com destino a Skagway, algumas centenas de quilómetros para norte, por entre fiordes verdejantes sempre ensopados pela chuva e a humidade. Atracamos na enseada escondida pouco depois do pôr-do-sol.

Janilyn aguarda-nos no topo da rampa que se projecta da doca. Sem se dar conta, atrapalha os passageiros que sobem, sobrecarregados com a bagagem que levam. Quando dá por nós, inaugura um acolhimento carinhoso e voluntarioso que duraria quase três dias. “Ainda bem que vieram. Estava mesmo ansiosa pela vossa visita!” Ao que acrescenta depois de fechar a porta traseira do jipe “ ’Bora! Deixei o meu marido e o meu filho no bar. O Lukas vai actuar dentro em pouco...”

Sem tempo para desenjoar da longa viagem, damos connosco no Bonanza, um bar acolhedor de Skagway, a beber Alaskans Amber tonificantes. Num canto, vários músicos tocam para si, para as famílias e alguns amigos, compenetrados como se fosse o concerto das suas vidas. Nas mesas e ao balcão, fluem conversas fáceis interrompidas apenas por uma ou outra piada demasiado divertida para ser ignorada.

Lukas pega na guitarra e conquista a sala com uma voz semi-rouca e melodiosa. As suas melodias em estilo Red House Painters ou Mark Kozelek a solo, causam arrepios na mãe Janilyn, e levam-na a um extremo de comoção que se vê obrigada a partilhar. “É maravilhoso não é? Tenho muito orgulho nele... e olhem ... já que estou a falar de orgulho, gostava de vos dizer outra coisa: eu e o meu marido não fazemos isto há muito tempo. Começámos a receber estrangeiros quando percebemos a imagem com que os Estados Unidos estavam a ficar no resto do mundo. Achámos que era importante mostrarmos a quem vem de fora a hospitalidade da verdadeira América e suavizar a imagem que o Bush estava a criar. Felizmente, agora, temos um presidente mais digno para nos ajudar.”

Apesar da contribuição quase sempre embaraçosa da bárbie Sarah Palin e da camada mais conservadora da população do 49º estado, esta porção diminutiva do Alasca contribui há muito para marcar a diferença. Talvez por o território estar destacado do Lower 48 e intimamente ligado à natureza, a sua existência revela-se mais leve e descomprometida, ideal para quem procura novas perspectivas de vida. Mas não só.

Skagway surge como uma das primeira povoações a quem chega do North Country (o grande Alasca setentrional) à descoberta da Panhandle, o cabo de frigideira. A sua população fixa não chega aos 1000 habitantes mas, porque faz parte da rota alasquense dos cruzeiros, à medida que Junho se aproxima, vai sendo reforçada com outros tantos imigrantes oriundos do norte dos Estados Unidos e do estrangeiro. Como acontece nas cidades vizinhas do sul, durante cada curto Verão, esta força de trabalho atende quase um milhão de visitantes que podem chegar em até cinco paquetes monstruosos por dia (com um total de 8000 passageiros), 400 por ano. São grupos de reformados e famílias inteiras que desembarcam em contra-relógio, determinados a passar momentos inolvidáveis e a gastar a condizer. Skagway facilita-lhes a vida. Os navios atracam quase sobre a Brodway Street. Esta rua mantém os forasteiros represados e entretidos entre as suas lojas, bares e cafés. Como complemento da emboscada, os edifícios históricos foram recuperados e re-decorados ao pormenor. Exibem montras e placares apelativos, chamamentos sofisticados do consumismo a que o mais alienado dos ascetas teria problemas em resistir. 

Nos derradeiros anos do século XIX, o apelo era outro. Reluzia bem mais que as vitrinas elegantes da Broadway Street e custava frequentemente a vida.

Em 1896 foi encontrado ouro no Klondike, uma região longínqua do vasto território do Yukon canadiano. No ano seguinte, um navio a vapor deixou no Moore’s Wharf de Skagway uma primeira leva de mineiros. Sucederam-se mais e mais embarcações que elevariam o seu número aos 30.000, na grande maioria americanos conflituosos e sem escrúpulos ansiosos por vencer os 800km de montanhas e glaciares que os separavam dos cascalhos milionários. Mas nem todos se fizeram ao caminho. As narrativas dos pioneiros depressa foram promovidas a mitos. Exaltavam tempestades congelantes, ataques de indígenas, de ursos e de lobos e travessias de rios mal calculadas em que várias caravanas se perdiam para sempre.

Os aspirantes mais prudentes dedicaram-se, em vez, a abastecer e servir os mineiros. Foram tantos os que ficaram em Skagway que, em 1898, a cidade era disputada por 10.000 almas gananciosas e tinha-se tornado na maior do Alasca.

“Entrem cavalheiros, não façam cerimónias! As senhoras, se não se importam, peçam-lhes dinheiro e vão às compras...” apregoa uma alcoviteira apertada por espartilhos e rendas sedutoras, à entrada do Museu-Bordel do Red Onion Bar.

Hoje, espectáculos como o teatro Days of 98, a povoação fictícia de Liarsville e o acampamento à beira-rio de Gold Rush remetem os visitantes para a época mas, como é de esperar, ficam muito aquém da realidade áspera de então, feita de álcool e prostituição, de lutas, tiroteios e linchamentos que os representantes da lei procuravam antes de tudo evitar.

Em 1897, Jack London e o cunhado James Shepard cederam ao apelo da prospecção. Pouco depois, London já padecia de escorbuto. Em 1903, passou a vida no Alasca para o papel sob uma perspectiva inesperada. Em “O Apelo da Floresta”, narrou as agruras de Buck, um mestiço de São Bernardo com uma pastora Shetland que é raptado na Califórnia por um jogador enterrado em dívidas e se vê desesperado no mundo-pior-que-cão do Klondike.

Para o interior, ao longo do Chilkoot Trail, a existência era de igual forma infernal. Ao chegarem à fronteira canadiana, milhares de prospectores só recebiam permissão para prosseguir quando tivessem para cima de uma tonelada de equipamento e provisões. Além de contrariar toda a lógica aduaneira dos dias de hoje, a exigência obrigava a inúmeras viagens de ida e volta e causava um grave congestionamento de carroças ao longo do íngreme White Pass. O problema  forçou o governo canadiano a construir um caminho de ferro. Atrasado pelos inúmeros obstáculos levantados por Soapy Smith – um controverso mafioso de Skagway -, o empreendimento só ficou concluído em Julho de 1900, já a febre do ouro passara.

Apesar de pouco ou nada ter servido os propósitos iniciais, desde então, a White Pass and Yukon Route manteve-se quase sempre em intensa actividade. Nos dias que correm, o seu comboio fumarento e os cenários de faroeste que atravessa são um dos principais motivos porque atracam tantos cruzeiros no Moore’s Wharf. No Verão, também dão emprego a dezenas de residentes da povoação.

Janilyn faz tudo o que pode para facilitar a experiência de quem agora visita a cidade que servia de porta de entrada para aquele reduto aurífero.

Quando chegamos enregelados da viagem ferroviária de ida e volta, ela, a família e amigos convidam-nos para nos sentarmos em redor da fogueira a beber cervejas e a comer salmão grelhado.

Na hora da partida, a anfitriã e o marido oferecem-nos sandes daquele peixe suculento e despedem-se numa comoção disfarçada. Em breve, a família se mudaria temporariamente para o Oregon. Skagway ficaria de novo entregue à sua solidão invernosa.