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A Crucificação em Helsínquia

A Crucificação em Helsínquia

Derradeira cena da Via Crucis representada no cimo da escadaria da Catedral de Helsínquia.

Helsínquia, Finlândia

Uma Via Crucis Frígido-Erudita

Chegada a Semana Santa, Helsínquia exibe a sua crença. Apesar do frio de congelar, actores pouco vestidos protagonizam uma re-encenação sofisticada da Via Crucis por ruas repletas de espectadores.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Contemplamos o casario semi-colorido de Porvoo a partir da margem oposta do rio Porvoonjoki. Estamos em Março, faz um frio de rachar e a neve que cai de quando em quando retoca o cenário coberto de branco. Num ou outro fogacho inesperado, o Sol espreita envergonhado entre as nuvens velozes. Aquece os tons da povoação ribeirinha mas mal nos massaja as faces avermelhadas. Tuula Lukic não se queixa, muito pelo contrário: ”o rio descongela a olhos vistos. Não tarda temos aí a Primavera.” afiança-nos.

Conclusões deste tipo são frequentes na Finlândia às vezes debaixo de muitos graus negativos. Esforçamo-nos por ter em conta a latitude mas, ainda assim, retemos algum espanto. Tuula percebe-o e ri-se com cortesia. “Bom... tenho um grupo à espera junto à catedral. Se não se importam, vou subindo. Já nos voltamos a encontrar.“

Ficamos entregues à paisagem e ao vento frígido com que os corvos se debatem para pousarem em segurança sobre o telhado em A do templo. Pouco depois, cruzamos a ponte estreita, subimos várias ruelas e calçadas escorregadias e voltamos a dar com a guia, ocupada com explicações históricas sobre a vila que os grasnares infernais das aves, logo ali por acima, atrapalham. Tuula gesticula que esperemos e prossegue. Aproveitamos para contornar o edifício e acabamos por descobrir um ensaio teatral da crucificação de Cristo. Actores que fazem do Messias e dos ladrões sobem a um palanque com as cruzes ao ombro e posicionam-nas, lado a lado, sobre o chão. Então, os que desempenham papéis de soldados romanos simulam que os pregam às cruzes e suscitam esgares e gritos de dor que uma encenadora que beberica um grande copo de café ajuíza e corrige. Alguns dos brados desiludem-na. Justificam prolongadas intervenções e exemplificações enérgicas que o dialecto finlandês contribui para dramatizar. A nós, faz-nos confusão, acima de tudo, ver as personagens nos seus trajes invernais do dia-a-dia: gorros, casacos, calças e botas de neve volumosos em vez da mera coroa de espinhos e do pano dobrado em que Jesus terá sido vitimado.

Não há, no entanto, volta a dar-lhe. Estão -7º e a representação é exaustiva e demorada. Martelada atrás de martelada, grito atrás de grito, passa-se meia hora. Quando nos parece que o suplício está a chegar ao fim, é a vez da personagem de Maria se estrear. Os seus prantos e lamentos aos pés do redentor inspiram novos reparos na directora. 

O actor de Jesus livra-se finalmente da mãe a fingir e da tarefa. Curioso face ao prolongado interesse destes únicos espectadores, decide averiguar: “vêm de Portugal? A sério? Bom, não me importava de lá estar a ensaiar isto agora. A Semana Santa faz-nos sempre sofrer um pouco. Eu até sou sueco mas este ano vou participar aqui em Porvoo. Já fiz de Cristo antes, no Inverno e em tronco nu. Posso-vos dizer que foi um sofrimento atroz. Este ano, vamos estar de túnica mas descalços. Mesmo assim, acaba por ser bastante doloroso. Se ainda estiverem por Porvoo logo à noite, venham assistir!”

Entretanto Tuula volta a entrar em cena. “vejo que estiveram entretidos.“ Gabamos a beleza da catedral luterana (a primeira da Finlândia) e a nativa conta-nos que tinha sido recentemente recuperada da sua própria tragédia humana. “Foi uma desgraça! Em 2006, um jovem embriagado resolveu brincar com fogo no interior, sem saber que estavam a fazer reparações com alcatrão. Causou um incêndio que destruiu o telhado e não só. As autoridades não estiveram para misericórdias. Até lhe encurtaram a pena mas foi condenado a pagar 4.3 milhões de euros, coitado“

Os Ensaios Gélidos de Porvoo e o Evento Pomposo da Capital 

Deixamos Porvoo ainda a meio da tarde, em direcção a Helsínquia. No dia seguinte, a capital amanhece cinzenta e nevosa. Exploramo-la horas a fio sob uma meteorologia inclemente até que, mais próximo do anoitecer, as nuvens debandam e se instala uma bonança recompensadora.

Instalamo-nos numa saliência estrutural sobre o Mar Báltico, ao lado da doca de ferries internacionais. Dali,  observamos o longo pôr-do-sol boreal e a iluminação artificial a destacar a catedral de Helsínquia sobre o casario histórico submisso. Assim que o céu enegrece, caminhamos para o interior da cidade à procura da estação inicial da sua 17ª representação da Via Crucis, prestes a ser levada a cabo pela Congregação Catedral de Helsínquia e pela Ristin Tien Tuki ry, uma associação ecuménica encarregue de assegurar o evento.   

Encontramo-lo numa encosta limítrofe do Parque Kaisaniemen despida de folhagem, coberta de uma boa altura de neve e invadida por um público agasalhado e entusiasta. A multidão disputa os melhores lugares para acompanhar as provações de Cristo entre um extenso elenco de cidadãos de uma Jerusalém fino-romana hostil às suas crenças e pregações, e mais frígida que nunca. Jesus é detido por um pequeno esquadrão de centuriões e conduzido à presença de Pôncio Pilatos, seguido por um cortejo de figurantes históricos que avança pelas avenidas Unionkatu e Yrjö-Koskisen katu à luz de velas.

A representação continua, elegante e grandiosa, no cimo da escadaria da Säätytalo (A Casa dos Estados) adaptado a palácio do governador romano, onde o povo judeu acaba por optar pela libertação do prisioneiro insurgente Barrabás, condenando, assim, Cristo à Crucificação.

A procissão de actores, figurantes, e o público muda-se, então, para as imediações da Catedral onde muitos mais espectadores aguardam a acção. Ali, Cristo vence uma nova escadaria, desta vez com a sua pesada cruz ao ombro, numa subida penosa que um foco redondo acompanha e evidencia, facilitada por um auxiliar nosso contemporâneo que os encenadores acrescentaram sem qualquer complexo.

Entre as falas e os gritos dramáticos das personagens bíblicas, trechos de cânticos líricos combinados com violinos e outros instrumentos, Cristo e os ladrões  encontram o calvário em frente à fachada altiva do templo. Após a morte, o Redentor desce da cruz pelo seu próprio pé, a escadaria entra na penumbra e é subida por dezenas de actores e figurantes que seguram velas e tochas num derradeiro momento multi-sensorial de espectáculo religioso. O público parece agradado mas, à boa maneira finlandesa, não recompensa os participantes e encenadores por aí além. Retira-se para os seus domicílios ou para os inúmeros refúgios profanos e nocturnos de Helsínquia.

Em termos de calendário, entretanto, a Semana Santa deu lugar à Páscoa. Estava na hora de descobrirmos o lado pagão da época.