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Fim da Viagem

Fim da Viagem

Hidroavião desliza em direcção a outros já atracados num rio nas imediações de Talkeetna.

Talkeetna, Alasca

Vida à Moda do Alasca

Em tempos um mero entreposto mineiro, Talkeetna rejuvenesceu, em 1950, para servir os alpinistas do Monte McKinley. A povoação é, de longe, a mais alternativa e cativante entre Anchorage e Fairbanks.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Passadas Wasilla e Palmer, a civilização fica para trás e, com ela, os últimos cruzamentos e desvios. A possibilidade de tomarmos um caminho errado desaparece na quase deserta George Parks highway. São onze e quarenta e cinco da noite mas a luz expande-se teimosamente a partir do horizonte e ilumina a noite branca. Apesar do nome, a atmosfera envolvente é azulada, retocada pelos tons naturais da paisagem. As montanhas insinuam-se, à distância, destacadas do céu limpo pelos seus cumes nevados. Como contraponto, a floresta de coníferas domina as terras baixas e alonga-se mesmo até à berma da estrada. Impõe um breu húmido e misterioso que nos vemos obrigados a sondar com cuidados redobrados

Os alces são a principal causa de acidentes rodoviários no Alasca. É depois de o sol se pôr, que se sentem mais à vontade para cruzar as estradas ou sobre elas estacionar. Castanhos, altos e esguios, confundem-se facilmente com os troncos das árvores e, muitas vezes, os condutores só os detectam, já sobre o asfalto, um azar que estamos determinados a evitar.

De quando em quando, passamos braços amplos de rio, feitos de águas selvagens alimentadas pelo degelo contínuo dos glaciares circundantes. Estamos em plena época do salmão e os alasquenses dedicam-lhes parte considerável das suas energias. Durante o dia, as margens delimitadas para o efeito estão à pinha de pescadores entusiasmados com a oferta inesgotável de peixes e com a competição que se instala. Chamam combat fishing a esta forma comunal de pescar mas a maior parte dos adeptos não leva o nome muito a sério e aposta na camaradagem.

À milha 98 da George Parks Highway tomamos o desvio que conduz a Talkeetna, uma das povoações mais emblemáticas do Alasca. Por volta do século XX, formou-se, aqui, um novo pólo de mineração do ouro que havia, entretanto, sido descoberto em diferentes regiões do estado.

Com o fim da febre, a preservação do seu aspecto histórico e o facto de se situar às portas do Parque Nacional Denali ainda por cima dotada de um aeroporto, tornaram-se em atributos que atraíram as famílias da grande Anchorage, e todos os aventureiros ansiosos por avistar e conquistar o grandioso Mt McInley - a montanha mais elevada da América do Norte -  uma tarefa de tal forma desafiadora que o cemitério da povoação está repleto de lápides em homenagem dos homens que a tentaram em vão cumprir. E só em 1991, foram 11 as vidas sacrificadas pela montanha.

Mas não foram só os alpinistas que promoveram a povoação ao seu quasi-estrelato alasquense. Outras sub-culturas enriquecem a comunidade alternativa que a povoa e frequenta: os aviadores intrépidos que transportam os alpinistas e turistas à montanha e mais tarde os sobrevoam. Os bichos do mato sociais insatisfeitos com as ambições clonadas e materialistas da maior parte dos compatriotas que chegam determinados em arrancar do 49º estado uma existência à sua maneira. Os grupos descomprometidos de neo-hippies, de ambientalistas jurados apoiantes ou não do Green Party que já fizeram do partido dos verdes o mais votado em Talkeetna.

Estas personagens e clãs sociais misturam-se de forma dinâmica, democrática e afável. Como resultado, Talkeetna irradia um bem-estar e acolhimento que fazem com que muitos visitantes vão adiando as suas partidas. Alguns deles para sempre.

É o tamanho diminuto da aldeola (chamemos-lhe assim) que começa por surpreender. À boa maneira do Alasca, o centro resume-se a uma única rua, a Main Street, em que se concentram os edifícios mais antigos, agora lojas, agências de tours, bares e restaurantes embelezados por pinturas, letreiros e outras decorações coloridas.

De Junho a Setembro, esta rua é percorrida  para cima e para baixo, vezes sem conta por dia, até que se esgota a novidade e os forasteiros se vêem forçados a escolher um poiso para desfrutar o lento anoitecer.

Um dos lugares mais encantadores da vila, o Fairview Inn, deixa escapar acordes de música ao vivo para a rua desafiando os transeuntes mais curiosos. Fundado em 1923 como estalagem de pernoita para o longo trajecto entre Seward (junto à costa sul) e Fairbanks (centenas de quilómetros para norte, a meio caminho para Círculo Polar Ártico), este estabelecimento acompanhou o passado recente do Alasca e, com o tempo, transformou-se numa espécie de museu vivo.

Assim que entramos no bar do rés-do-chão, reparamos na construção clássica. O chão é de tábua corrida, gasta. O enorme balcão, quadrado para optimizar o contacto com os clientes, surge protegido por uma assustadora pele de grizzly pendurada no tecto e a que fazem companhia algumas outras bem como armações de alce e de caribu. Em redor, o mobiliário é constituído de várias relíquias, incluindo uma velha jukebox e a única slot machine de Talkeetna. Espalhadas, um pouco por toda a parte, encontram-se ainda testemunhos da história da região, nos mais diversos formatos e avisos humorísticos que aproveitam para regulamentar o comportamento errático dos clientes.

Como na maior parte do estado, a cerveja é, aqui, uma espécie de instituição. Além da famosa Alascan - a marca emblemática, por excelência - inúmeros pequenos bares e cervejarias oferecem novos sabores com frequências diversas que chegam a ser semanais.

Quando os Bathtub Gin começam a actuar, as duas salas do piso térreo estão lotadas e a cerveja refresca praticamente toda a assistência.

Os músicos da banda – incluindo o vocalista tocador de banjo e a teclista, a sua mãe octogenária - são moradores da cidade mas, nessa noite, dão a ouvir temas do Louisiana e do Mississipi o que leva à loucura um inesperado sector sulista do público. Animados pelo concerto, só deixamos o bar às tantas. Lá fora, como por todo o estado, a noite é branca. Descansamos por algumas horas e tomamos o pequeno-almoço no primeiro bar a abrir.

Àquela hora, sobrava tempo livre ao empregado, pelo que resolveu meter conversa. A manhã ainda nem tinha começado e damos connosco a elogiar mais uma vez a Alaskan Amber que tanto nos havia encantado. Mark aceita a admiração mas ressalva que estávamos por aqueles lados há poucos dias. "Aqui em Talkeetna temos as nossas próprias cervejeiras particulares. Eu sou louco por improvisar novos sabores. Eu e vários outros cá da terra. Façam uma coisa. Mudem os vosso planos. Ficam lá em casa até Domingo. Assim já podem explorar melhor estas paragens e as cervejas caseiras que aqui formos servindo."  

Por muito que soe a lugar comum, por estas e por outras é que quem viveu o Grande Norte sabe que é melhor não dizer adeus.