Pelas contas do calendário, quando damos entrada na Cidade do Cabo, vindos de uma longa travessia sul-africana a bordo de um camião, já o Inverno se devia ter instalado.
E, no entanto, os dias sucedem-se com céu limpo e calor a roçar os 30º, nada que aquecesse as águas frígidas, sempre repletas de algas troncudas que castigam as falésias e areais hiperbólicos destas paragens. Agradecidos ao Adamastor pela benevolência meteorológica, deliciamo-nos com o seu temido território.
Mesmo se a atmosfera é soalheira, o vento sopra furibundo de cada vez que nos aproximamos dos abismos para que espreita a Table Mountain, a meseta imponente e crua que o continente negro exibe como a sua derradeira obra orográfica.
Prenda-nos com resquícios da cacimba soprada do horizonte meridional, de onde a montanha se desdobra em formas ainda mais caprichosas e se mete, como quem não quer nem saber, nos embates dolorosos do mar.
Lá, onde numa não menos pungente missão, a História as uniu num longo e esforçado abraço.
Era-nos impossível resistir ao apelo daquele outro lugar. Não tardaríamos a persegui-lo.

Avestruz juvenil percorre a areia branca à procura dos progenitores.
A Epopeia Lusitana da Passagem do Cabo das Tormentas
Na viragem do século XV para o XIV, os homens lusos embarcados com rumo austral receavam a silhueta desta meseta como nenhuma outra elevação por que passavam.
Confrontavam-na como mau augúrio de aflições e de mais que prováveis desventuras causadas pela batalha entre os dois vastos oceanos: o Atlântico que já domavam; e, para leste, o Índico de que pouco ou nada podiam supor.
O medo exacerbado da Terra Incognita abaixo do Cabo Bojador suscitava, nas suas mentes, uma panóplia de miragens e paranóias. Aos poucos, à custa de muita vivência e resiliência colectiva, os marinheiros portugueses aprenderam a defender-se.
Com Bartolomeu Dias ao comando, dobraram o Cabo das Tormentas e assim começaram a desmistificar o desconhecido. O feito teve a continuidade que merecia. Nem por isso a travessia se tornou fácil.
Tinham passado quarenta e cinco anos desde o feito de Dias. O medo era já secular. A meio do recém-aberto Caminho para as Índias, a costa quase sobrenatural que há tanto o causava também deixou Luís de Camões em apuros.
Decorria a Primavera de 1533. Camões seguia a bordo da nau “São Bento”, parte da frota de Fernão Álvares Cabral que navegava a rota antes percorrida por Vasco da Gama.
Por altura do Cabo da Boa Esperança, a “São Bento” e três outras embarcações viram-se envoltas numa tempestade brutal.
Só a “São Bento” se salvou.
A Homenagem de Luís Camões à Travessia Pioneira do Cabo das Tormentas
Camões teve a fortuna do seu lado mas sentiu na pele gélida e arrepiada a inspiração para eternizar, no canto V dos “Lusíadas”, o imaginário monstruoso que atemorizava até os mais intrépidos lobos do mar.
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Não acabava, quando uma figura
Se nos mostra no ar, robusta e válida,
De disforme e grandíssima estatura,
O rosto carregado, a barba esquálida,
Os olhos encovados, e a postura
Medonha e má, e a cor terrena e pálida,
Cheios de terra e crespos os cabelos,
A boca negra, os dentes amarelos.
40 (…)
C’um tom de voz nos fala horrendo e grosso,
Que pareceu sair do mar profundo.
Arrepiam-se as carnes e o cabelo
A mim e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo.
Continuamos na demanda do que, ao longo dos séculos de Descobertas, o havia causado.
Da Cidade do Cabo ao Cabo que lhe Dá o Nome
Partimos do bairro costeiro de Sea Point numa manhã de Sábado enevoada. Percorremos a estrada que serpenteia, quase sempre junto ao oceano, pela base das falésias a sul da Cidade do Cabo.
Desviamos para a enseada ampla de Hout Bay, àquela hora, repleta de desportistas compenetrados em se livrarem das más energias da semana.
Prosseguimos estrada M6 acima. Atravessamos para o leste, apontados a Simons Town, uma povoação que atrai hordas de forasteiros intrigados pelas colónias de pinguins residentes em redor da Boulders Beach.
Dali, atentos aos repetidos avisos de travessia de babuínos e à eventual presença dos símios, progredimos costa leste abaixo.

O farol da Ponta do Cabo, sobre um dos pontos litorais mais elevados da Península do Cabo.
O primeiro indício que temos do Cabo é o farol vermelho e branco sobre o mais elevado dos promontórios. Ascendemos às suas alturas. Durante a subida, em cada varandim em que tentamos espreitar o cenário abaixo, quase somos varridos pelo vento insano que castiga a vertente oeste.
Voltamos a descer os degraus antes vencidos e atalhamos para o trilho que conduzia à secção norte do Cabo, aquela por que os marinheiros primeiro tinham que passar.

Outra perspectiva da Dias Beach, com o farol da Ponta do Cabo em fundo.
A Tormentosa Praia de Bartolomeu Dias
Não tarda, chegamos ao cimo da Praia de Dias. Um aviso alerta para o perigo atroz de qualquer tentativa de banho naquelas águas. Esse mesmo perigo estava desenhado no mar como em poucos outros lugares o tínhamos constatado.
Ondas magistrais precipitavam-se sobre o areal com uma violência desconcertante e o vento empurrava a água que lhes ficava atrás mar-adentro de forma tão intensa que a sua acção produzia grandes radiais brancas, semelhantes às deixadas pelos helicópteros quando planam, rasos, sobre a água.

Ondas pujantes, correntes, ventos poderosos e uma água gélida fazem da Praia de Dias impraticável para banhos. Mas há sempre quem o tente…
Sentamo-nos a apreciar a tão deslumbrante selvajaria marítima.
Enquanto o fazemos, vêm-nos de novo à mente as agruras vividas por Bartolomeu Dias, Vasco da Gama e por todos os navegadores e marinheiros que os seguiram. Bartolomeu Dias, o pioneiro, acabou por entregar a sua vida ao Cabo.
D. João II e a Missão Crucial de Bartolomeu Dias
Em 1488, D. João II encarregou-o de procurar o rei cristão Prestes João e de encontrar uma rota para as Índias. As duas caravelas de cerca de cinquenta toneladas que comandava navegaram sem sobressaltos de maior ao largo da sempre agitada Angra dos Ilhéus (junto à actual cidade namibiana de Lüderitz) e do Cabo das Tormentas.
Mas, em seguida, entraram num dos terríveis temporais característicos da zona.
Rezam as crónicas que as embarcações ficaram treze dias sem controle, a debater-se com o vento e as ondas. Chegada a bonança, Bartolomeu Dias ordenou navegação para leste, em busca da costa. Só encontrou mar e decidiu rumar a norte.

O pelourinho de Bartolomeu Dias ao pôr-do-sol. Não muito longe, está o dedicado ao navegador Vasco da Gama. Foram ambos mandados erigir pelo estado português
Nesse acerto, detectou diversos portos da costa da África do Sul de hoje. Passada a baía da actual Port Elisabeth, deu com um rio. Bartolomeu Dias baptizou-o de rio do Infante. Então, desgastada pelos muitos dias de agonia que havia vivido, a tripulação forçou-o a voltar a Portugal.
No regresso, Dias apercebeu-se que tinha contornado o extremo sul de África.
O rei D. João II decretou a famosa alteração do nome Cabo das Tormentas para Cabo da Boa Esperança. A epopeia das Descobertas portuguesas continuou a fluir, apontada como nunca antes ao Oriente.
O feito de Bartolomeu Dias provou-se de tal forma revolucionário para a ordem mercantil que vigorava entre o Velho Mundo, África e Ásia que o Cabo da Boa Esperança foi alvo de todas as atenções e a sua visita por viajantes – marinheiros ou meros leigos do mar – ainda hoje é celebrada à altura.

O Cabo da Boa Esperança, bem desenhado para lá da Praia de Dias.
Os Confins do Cabo da Boa Esperança
Deixamos a Praia de Dias. Prosseguimos novo promontório acima. Quanto mais subimos, mais o vento recupera a agressividade que já nos revelara na Ponta do Cabo.
Ainda assim, os turistas imitavam-se em fotografias arrepiantes, nos recantos mais arriscados daquela paisagem extrema.
Apenas um outro longo trilho os separava da base do Cabo, onde os menos aptos a caminhadas íngremes ou sobre penhascos aguçados se contentavam com as fotos da praxe atrás da placa de madeira que identifica, em afrikaans e em inglês, o derradeiro ponto sudoeste do continente africano, não o sul.

Grupo de visitantes faz-se fotografar atrás da placa emblemática do Cabo da Boa Esperança
Esse, situa-se no muito menos exuberante e badalado Cabo Agulhas, a 150 km para leste.
Na senda descobridora de Dias, Vasco da Gama habituou-se a vencer as sucessivas tempestades e o Cabo da Boa Esperança em geral: uma, duas, três vezes, o mesmo número de viagens que levou a bom porto para a Índia.
Acabou por falecer em Cochim, com cinquenta e cinco anos. Já no que disse respeito a Bartolomeu Dias, o destino e o Cabo da Boa Esperança provaram-se cruéis. Em 1500, Dias era um dos capitães da segunda expedição “indiana” liderada por Pedro Alvares Cabral que veio a descobrir o Brasil e prosseguiu para leste, em direcção à Índia.
Pois, a 29 de Maio, quatro dos barcos desta expedição confrontaram-se com nova enorme tempestade ao largo do Cabo. Todos desapareceram, incluindo o capitaneado por Bartolomeu Dias, então com cinquenta anos. Para Dias, o Cabo nunca deixou de ser das Tormentas.
Avestruzes na Praia. Convívio Inesperado com a Fauna do Cabo
Quando relembramos este facto, guardamos por ambos, admiração a dobrar. Continuamos a explorar os cenários daqueles confins até que as trevas nos levassem o privilégio.

Calhaus de basalto e uma densa colónia de algas troncosas preenchem boa parte da costa a norte do Cabo.
Uma floresta de grandes algas, como as que víramos ao largo da Cidade do Cabo, preenchia o mar ali bem mais acinzentado e alisado que na praia de Dias.
Com o sol prestes a pôr-se, deixamos a zona da placa sempre concorrida e dirigimo-nos à saída do parque.
Não fazemos sequer trezentos metros.
Duas avestruzes percorriam a beira-mar em busca de alimento. Detemo-nos e fotografamo-las à distância, não tanta como aquela em que vislumbramos várias mais, a tentarem ultrapassar uma barreira rochosa que as separava dos progenitores.
Um trilho de surfistas conduz-nos às suas imediações e permite-nos apreciar o seu comportamento naquela situação de desconforto.
Sempre o mais juntas possível, as jovens aves alinhavam-se e esticavam as cabeças de forma tão sincronizada que nos parecem uma única assustada criatura, uma espécie de deusa indiana Shakti asada.

Jovens avestruzes douradas pelo luz do derradeiro sol do dia, mantêm-se juntas na aflição de verem bloqueado o acesso para junto dos progenitores.
O sol começa a livrar-se das nuvens roxas que o aprisionavam. Incide na praia e no bando de aves. Estas, agrupadas pela Natureza, exibem-se, também por ela amareladas.
Quando o grande astro se liberta de vez, tinge toda a praia de um dourado resplandecente e gera silhuetas mágicas das aves.
Foram as derradeiras e insólitas imagens que guardámos do Cabo.

Avestruz percorre o areal de uma praia próxima do Cabo da Boa Esperança, ao fim do dia.