À boa maneira do Luisiana, a viagem de pouco mais de 30km entre Morgan City e Franklin, revela-nos uma intrincada dinâmica fluvial.
À saída de Morgan, cruzamos o rio Atchafalaya, no seu caminho tortuoso para o Golfo do México. Por altura de Idlewild, voltamos a tê-lo à vista.
É, de novo, o Atchafalaya.
Só que, agora, o Lower Atchafalaya, um caudal que corre a sul do rio principal. Por altura de Patterson, esse caudal surge já identificado como Bayou Teche. O Teche vem de mais a norte. Deriva de um outro bayou, o Cortableau. Segue o seu próprio caminho até que se une ao Lower Atchafalaya, pouco antes de este desaguar no Atchafalaya principal.
A leste, apontado a Nova Orleães e, logo, também ao Golfo do México, flui ainda o Mississipi. O mais longo dos rios dos Estados Unidos (3770km) é, em termos de dimensão e importância, um vizinho proeminente do Atchafalaya.
Por estranho que pareça, há três a cinco milénios atrás, o Mississipi seguia o curso actual do Bayou Teche. Foi o lento assoreamento do seu delta que ditou o desvio do caudal mais para oriente.
Durante a migração acadiana do Canadá para estas partes do Sul Profundo dos E.U.A., os colonos internaram-se no que se tornaria a Nova França sobretudo pelo Bayou Teche.
Contra todas as dificuldades, os lugarejos em que se fixaram estiveram na génese de várias das vilas e cidades actuais.
Por estrada, mas ao longo do Teche, atingimos o destino da viagem e uma dessas urbes, Franklin.

Alameda ladeada de carvalhos com barbas-de-velho
De Entrada em Franklin
Vanessa, a cicerone que nos guiava desde o encontro inicial às portas de Morgan City, conduz-nos à loja de velas de Chad Boutte e Steven Mora.
Nativo com ascendência indígena Chitimacha, Chad era originário de Charenton, uma povoação mais a montante do Bayou Teche.
Steven, o parceiro de Chad, dava o nome a uma empresa de tours criada em New Orleans, onde já viviam em 2014, quando começaram a organizar passeios pelos bairros históricos da cidade.
O casal somou essa experiência e poder financeiro aos antes adquiridos no prolífico showbiz de Las Vegas, onde trabalharam na produção dum espectáculo com temática Guerra das Estrelas.
Neste tempo, num regresso a Franklin, seduziu-os uma das casas antes pertencente a fazendeiros abastados da região. Quando a oportunidade apareceu, compraram-na para retiro temporário da vida que levavam em New Orleans.
O restauro da mansão e o prazer de estarem no “campo” de Franklin depressa alterou o plano inicial. A determinada altura, viviam em Franklin em pleno.

Vista aérea de Franklin e do Bayou Teche
Decidiram, assim, transpor o negócio dos passeios guiados para a zona que tão bem conheciam, e que atraía cada vez mais visitantes.
Projectaram o início da actividade para 2020. Por essa altura, New Orleans começou a reportar os seus primeiros casos de Covid-19.
A expansão da Pandemia forçou à suspensão ou ao encerramento de tudo o que eram negócios turísticos.
Nesse hiato, Steven e Chad, formados em História, interessados na daquelas partes do estado norte-americano crioulo, dedicaram-se a estudar o passado de Franklin e da sua mansão antebellum, leia-se, construída antes da Guerra de Secessão dos Estados Unidos.

Steven Mora na loja de velas Fifolet
A Estória Particular de Steven, Chad e da Loja de Velas Fifolet
Fifolet, a loja de velas agora situada no nº 617 da Main Street em que os conhecemos, surgiu de um dos passatempos a que se entregaram durante o longo retiro pandémico.
Enquanto inspeccionamos a loja, Steven atende uma cliente. Chad tem outros afazeres. Ainda assim, explica-nos que estava a trabalhar em aromas indígenas para as velas.
Mantinha alguma matéria-prima na loja pronta para exemplificar como os chitimachas haviam dominado a arte de gerar cestos e outros utensílios, à base de fibras vegetais.
Com a tarde a meio, resolvemo-nos a explorar Franklin.
Main Street fora, na direcção do fulcro comercial e administrativo da cidade.

Semáforos e a igreja Unida Metodista, ao lusco-fusco
Main Street Abaixo, entre Igrejas e Mansões Seculares
Sucedem-se as igrejas, umas mais antigas que outras, a Unida Metodista quase frente a frente com a mais ampla da Assumpção.
E, com apenas uma mansão a separá-la desta última, o edifício alvo, mas, por comparação, diminuto, da Unida Metodista de Ashbury, já usado para culto religioso dos afro-americanos, pouco depois do eclodir da Guerra Civil Americana e de as forças da União terem tomado Franklin.

Igreja Unida Metodista, Franklin
Não tarda, damos com um sector de lojas e negócios.

Edifícios históricos de Franklin, em plena Main Street
À noite tem direito a iluminação especial garantida por lampiões de ferro fundido.
Já seculares, preservados como símbolos elegantes da antiguidade de Franklin, conservam ainda a mensagem “Do Not Hitch”, com que as autoridades lembravam os cavaleiros a não atarem os seus cavalos a tais relíquias.
A linha central de lampiões dá luz ao mercado de artes Gather on Main.

Lampiões iluminam a Main Street e a igreja da Assunção de Franklin
Termina no cruzamento com a Willow St. que conduz à única ponte sobre o sempre iminente Bayou Teche.
O parque de estacionamento e edifícios do xerife local e de outras instituições policiais e tribunais marca o término de uma área mais moderna e artificial da cidade.
Continuamos a percorrer a Main Street, apontados a sudeste. A rua depressa nos devolve à Franklin monumental de outros tempos.

Mansão de Franklin velada por um carvalho com barbas de velho
À das mansões com jardins relvados, à sombra de enormes carvalhos de que pendem barbas-de-velho.
Caminhamos até uma delas, a mansão Fairfax em que pernoitaríamos.
O Bayou Teche, no Cerne da Génese de Franklin
Reconhecido o abrigo, regressamos à Willow St. e à beira do Bayou Teche. “Andam jacarés ao pé do açude!” grita-nos um jovem que, pelas máquinas fotográficas que carregamos, pressente um provável interesse.
Encontramos dois, de porte considerável, razão mais que suficiente para as gentes da cidade não se banharem no rio.

Jacaré no Bayou Teche de Franklin
O Teche tem, ao longo de Franklin, outro dos seus meandros quase em forma de “ferradura”.
Abastece uma profusão de plantações que compõem uma manta de retalhos de verdes e amarelados, sobretudo de cana-de-açúcar e de milho.
Não só.

Divisória num açude do Bayou Teche
A região em volta foi desbravada, a partir de 1808, por colonos ainda nascidos em França, Joseph Carlin e a sua família. Este pioneiro desenvolveu de tal maneira o seu “Carlin Settlement” que atraiu seguidores.
Os primeiros povoadores em volta foram franceses, acadianos, alemães e até dinamarqueses e irlandeses.
Após a Compra da Luisiana pelos Estados Unidos à França, este sortido multinacional foi suplantado por um afluxo de ingleses empreendedores.

Outra casa senhorial na linha de muitas outras erguidas por proprietários de plantações de cana-de-açúcar.
Às tantas, os forasteiros a por ali se fixarem eram tantos que geraram uma verdadeira vila.
Organizaram-se ao longo do Bayou Teche.
Decididos a prosperarem com a produção de cana-de-açúcar que, naqueles domínios quentes e húmidos do Luisiana, crescia a forte ritmo.

Cana-de-açúcar na beira de uma estrada de Franklin
Viabilizadas pela mão-de-obra forçada e gratuita de milhares de escravos para ali levados de África, as plantações multiplicaram-se.
A vila, essa, foi baptizada de Franklin, em homenagem ao Founding Father dos Estados Unidos Benjamin Franklin. Tornou-se um porto açucareiro fluvial preponderante, à imagem do que se tornou St. Francisville.

Estruturas da fábrica de açúcar Sterling Sugars
Fez a fortuna de algumas centenas de fazendeiros do Sul norte-americano, a razão fulcral de ser das tantas ou mais mansões faustosas que continuam a abrilhantar a cidade.

Cadeira de balouço num alpendre da Fairfax House
A Realidade Paranormal de Franklin, Incontornável como em quase todo o Luisiana
Anoitece.
Pelas oito da noite, rendemo-nos à sessão paranormal que já levávamos como incontornável, no Luisiana. Cheerisha, a guia, recebe-nos na mansão que acolhera a loja Fifolet.

Pequenas nuvens acima de uma das mansões senhoriais de Franklin
Ainda no piso térreo, conta-nos que atormentava a casa Charlie que trabalhou numa tal taverna Hulick, transformada em Reed Tavern, em 1816, quando Barnet Hulick a vendeu a Isaac Reed.
A taverna mantinha-se concorrida quando Charlie foi atingido por um raio e pereceu. Por razões que só a razão conhece, Charlie aparece, na casa, amiúde, com intenções de interagir com os vivos.
Passamos ao andar de cima. Cheerisha diz-nos que, em tempos, viveu no sótão da casa uma rapariga de nome Emily que lá foi bastante maltratada.
“A Emily começou por surgir, com bastante medo. Agora, já se sente mais segura e as suas expressões paranormais tornaram-se frequentes.
Notámos que várias das bonecas do quarto mexiam as pernas e um vestido de época lá exposto oscilava como se houvesse vento.”

Boneca num quarto “assombrado” duma mansão de Franfklin
Passamos à segunda casa da experiência, aquela em que moravam Steven e Chad.
Nessa, Cheerisha recorre a vários instrumentos de medição de energias do sobrenatural:
a um medidor de campo electromagnético fantasma e a varas de radiestação que usamos os três e que oscilam de forma caprichosa, supostamente, consoante as respostas dos espíritos às abordagens de Cheerisha.

Guia Cheerisha usa varas que se movem com energias paranormais
A guia afiança-nos que lá viveu uma criada escrava, chamada Chloe que há muito reclama o seu lugar na mansão.
“Sabem que, quando a mãe do Steven cá veio, começou a sentir uma pessoa a dormir com ela e teve que ir para a sala.
Entretanto, o Steven e o Chad fizeram um quarto para a Chloe.
Tudo ficou mais calmo, mas outras crianças visitam a Chloe. O Simon e o Charlie fazem o baloiço do jardim mexer-se.”
A última das sessões finda, sem sinal de fantasmas, além dos bipes e luzes do medidor electromagnético e das deambulações das varetas.

Guia Cheerisha exibe uma foto da velha “Reeds Tavern”
Uma vez mais, encerramos a abordagem ao paranormal do Luisiana convencidos que ainda teriam que nos convencer.
Damos entrada na mansão-pousada de Fairfax tarde e a más horas. Já ensonado, o dono esforça-se por se mostrar interessado pelas experiências que nos tinham atrasado.
“Nunca participei em nada disso e não acredito, mas, depois de termos comprado esta casa, tirei uma foto lá em cima e, quando fui a ver, aparecia uma mulher.
Não era a minha esposa… Hoje já é tarde. Amanhã, falam sobre isso com ela.”

Mansão de Franklin velada por um carvalho com barbas de velho
COMO IR
Reserve o voo Lisboa – Miami (Flórida), Estados Unidos, com a TAP: flytap.com por a partir de 820€. De Miami, poderá cumprir a ligação para Lafayette (2h) por, a partir de 150€, ida-e-volta.
Lafayette dista menos de uma hora por estrada de Franklin.