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Fila chilena

Fila chilena

Montanhistas contornam a cratera do vulcão Villarrica.

Pucón, Chile

A Brincar com o Fogo

Pucón abusa da confiança da natureza e prospera no sopé da montanha Villarrica.Seguimos este mau exemplo por trilhos gelados e conquistamos a cratera de um dos vulcões mais activos da América do Sul.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Tão rechonchudo como atarracado, há décadas que não passava pela cabeça de Don Carlos Carrillo caminhar para lá de alguns metros pelas ruas do pueblo, quanto mais meter-se em escaladas radicais. Ainda assim, o correspondente local da rádio nacional BioBio afiança-nos com toda a sua energia propagandista latino-americana que, uma vez que chegávamos de tão longe, não podíamos esquivar-nos ao desafio: “Chiquillos, és una oportunidad única pero tiene que ser ya mañana. No se van arrepentir, les prometo! Voy llamar a los chicos que suben y les digo que van !”

Faltava-nos recuperar da navegação desgastante entre Puerto Natales e Puerto Montt a bordo do cruzeiro-cargueiro Navimag que tinha incluído uma travessia tempestuosa do maléfico Golfo de Peñas. E também do suplício rodoviário a que nos submetemos para ir do porto de destino à longínqua Pucón. Mas viajantes que se prezem estão habituados a castigar o corpo em troca de conquistas e o cume de gelo e lava do imponente Villarrica justificava todo e qualquer novo sacrifício.

O despertar das 7 da manhã confirma-se lento e doloroso. Só à chegada ao ponto de encontro é que o ar frígido do Outono continental chileno nos resgata de vez ao torpor, mesmo em cima do início da ascensão.

Encontramo-nos com o grupo na base do sistema de teleféricos que assegura o transporte até à zona nevada da montanha. Cumpridas as apresentações e a primeira subida mecânica, seguimos lentamente os líderes e começamos a vencer a encosta gelada sobre crampons aguçados e desconfortáveis.

Algumas horas depois, chegamos aos 2500 metros de altitude e o ar cada vez mais frio e rarefeito exige inspirações lentas e profundas, como os passos que forçamos sob o peso dos nossos corpos e das mochilas. Faltam 347 metros para o topo, um esforço derradeiro para que os guias decidem preparar o grupo. Não há uma nuvem no céu. Gastamos, assim, a última pausa ofegante a apreciar e a fotografar as vistas límpidas de Pucón, do lago Villarrica que lhe faz companhia e da floresta de araucárias que os envolvem e à montanha em que nos encontramos. Xavi - um dos guias - aproveita para nos passar informações e instruções sobre a cratera que, garante com entusiasmo, estávamos prestes a cheirar.

Apesar da aparente contradição, o Villarrica prova-se, simultaneamente, um dos vulcões mais activos e mais escalados da América do Sul. É um dos únicos cinco no mundo que aloja um lago de lava no interior. Gera erupções estrombolianas que projectam materiais piroclásticos e fluxos de lava, por norma, contidos. Com o passar dos anos, as gentes de Pucón e arredores habituaram-se a confiar nas estimativas de actividade dos cientistas chilenos e no vulcão. De tal maneira que instalaram um centro de esqui com 20 pistas na sua encosta mais suave, operacional de Julho a Setembro, durante o Inverno austral. Mas nem sempre o Villarrica tolerou os desaforos. Em distintos episódios de erupção de 1971 e 1972, o fluxo da lava e a chuva derreteram a neve e deram origem a lahares. Estes lahares, por sua vez, causaram destruição significativa em várias povoações e, em conjunto com os gases tóxicos, provocaram pelo menos 30 mortes.

Daí para cá, a montanha produziu muitos outros acontecimentos vulcânicos dignos de registo que obrigaram à proibição das ascensões e até à evacuação do centro de esqui e das áreas circundantes, mas não voltou a causar vítimas. Enquanto o ascendíamos fazíamos fé em que, também durante aquele dia glorioso, o Villarrica seria clemente.

Mais meia-hora de escalada e, como havia prometido Xavi, começamos a sentir o fedor do enxofre. A neve volta a desaparecer e, pouco depois, conquistamos o cimo fumegante do cone. A prioridade é então recuperarmos o  fôlego mas, como estávamos já avisados, o bafo tóxico libertado pelo vulcão corta-nos frequentemente a respiração e causa uma tosse seca compulsiva que nem os lenços húmidos que nos cobrem a boca e o nariz evitam. Adiamos o descanso das pernas e contornamos a cratera até fugirmos ao vento sulfúrico.  Só quando atingimos um ponto impoluto nos podemos sentar, por momentos, a observar os seus curiosos rebordos multicolores, as estranhas galerias de gelo resistente e os refluxos, por sorte, diminutos da lava. Depois, retomamos o périplo e apreciamos as distintas visões quer da vasta região chilena da Araucania quer da boca da montanha. Descobrimos o vulcão vizinho de Quetrupillán e, entre os dois, no sopé da vertente sul, o enorme glaciar Pichillancahue-Turbio, repleto de fendas e salpicado por pequenas lagoas azuis, formadas pelo derretimento da superfície.

Este panorama, em particular, afaga-nos a alma e apetece-nos admirá-lo tempo sem fim. Mas tinham passado nove horas desde o começo da manhã e, preocupado com a perspectiva de um regresso sem luz, Xavi convoca o grupo para a descida. Não demoramos a perceber porque a visibilidade era, naquele caso, ainda mais importante.

Em vez da caminhada convencional pela encosta abaixo, é suposto deslizarmos em jeito de escorrega por canais previamente abertos na neve e no gelo. De início, divertida, a aventura passa a assustadora à medida que a inclinação das condutas começa a roçar a verticalidade.

Forza con el martillo!!” Agarren el martillo contra la pared! Volta a gritar outro guia enquanto desce a grande velocidade, para nos incentivar a usar o martelo de gelo como travão. Mas, em certos trechos, os canais de gelo alargam mais que o esperado e exigem uma experiência naquele desporto que não tínhamos ainda adquirido. Como resultado, somos prendados com algumas aterragens nada suaves e uma colecção condecorativa de nódoas negras.

Voltamos à zona degelada da encosta. Percorremo-la já não de teleférico mas com passadas largas sobre uma superfície terrosa inconsistente em que nos atolamos até meio da canela e nos inunda de poeira vulcânica que, vários banhos depois, continuámos com dificuldade em remover. Acabado o sofrimento, entregamo-nos a diversas recompensas da gastronomia local. Tínhamos conquistado o vulcão. Seguia-se a descoberta da desafiante Pucón.

Guias: Chile+