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Devils Marbles

Devils Marbles

A visão excêntrica dos Devils Marbles, um fenómeno geológico improvável também sagrado para os aborígenes.

Alice Springs a Darwin, Austrália

A Caminho do Top End

Do Red Centre ao Top End tropical, a Stuart Hwy percorre mais de 1.500km solitários através da Austrália. Nesse trajecto, a grande ilha muda radicalmente de visual mas mantém-se fiel à sua alma rude.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


É na sugestiva povoação perdida no Outback vermelho de Erlunda que nos juntamos ao tráfico espaçado da Stuart Highway. 

Baptizada em honra do pioneiro homónimo, esta estrada liga Adelaide a Darwin, via Alice Springs, nuns intermináveis 2834 km. Percorrem-na, com enormes intervalos, veículos de todos os tipos, das mais antigas relíquias automóveis a sofisticados comboios rodoviários compostos por dezenas de atrelados. 

Alguns quilómetros depois da partida madrugadora, o “Track” - como é também chamado - leva-nos a cruzar  a linha imaginária do Trópico de Capicórnio assinalada, sem grande pompa, numa esfera armilar plantada à beira do asfalto. Continuamos em direcção ao topo do grande norte e deparamo-nos com a primeira paragem histórica do percurso: Barrow Creek.

A povoação fantasma surgiu no mapa como uma estação de telégrafo perdida no meio do nada australiano. Depressa se tornou famosa pelos permanentes conflitos entre colonos e aborígenes Kaytetye de que foi palco, originados inicialmente pelo roubo de gado e sabotagens da linha por parte dos últimos e alimentados por consequentes vinganças e contra-vinganças sanguinárias.

Sobram da povoação original, apenas as ruínas do edifício emissor e da pequena prisão. Na proximidade, as bombas de combustível e o pub local reciclaram o seu estatuto de estação do outback, a que atribuíram, hoje, funções de abastecimento.

Marco, o barman residente, queixa-se de que há muito que não deixa o negócio-domicílio: “aqui tudo fica longe demais. Estamos condenados a esta sina eternamente renovada de ver passar...” O desabafo poético é interrompido pelo pedido de mais dois pints de Millers e resgata-o da realidade árida do bush circundante. Enquanto isso, os clientes, todos estrangeiros, ignoram o balcão e o interminável test de cricket e circulam ao longo das paredes de madeira como intelectuais de ocasião, maravilhados pela incoerência criativa das obras expostas. Há notas antigas de todo o mundo, recortes de jornais com notícias insólitas, troféus poeirentos e outros bibelots improváveis. Retoca-se a galeria cada vez que chegam mais viajantes. Sarah e Rebecca, inglesas de Liverpool, afixam dois postais cómicos. Ainda divertidas com o contributo, regressam, ao seu ínfimo Twingo alugado e somem no horizonte da Stuart Hwy.

A altura da vegetação aumenta à medida que a latitude decresce. Também parte da dinâmica climatérica e paisagística, as nuvens brancas que salpicam o céu azulão assumem formas particulares e anunciam a próxima experiência esotérica do percurso.

Situada a quatrocentos quilómetros para norte de Alice Springs, a povoação seguinte, não passa de um ponto ínfimo perdido na vastidão do mapa australiano mas, fazendo fé em vários testemunhos, parece ter conquistado um lugar de destaque no Universo.

Luzes no firmamento, discos rotativos com cúpulas azuis e seres prateados deles teletransportados para a superfície, ali, vermelha da Terra, tudo parece ser comum em Wycliffe Wells.

Lew Farkas, gerente da estação de serviço e do parque de caravanas locais, há cerca de vinte e cinco anos, não só decorou as suas instalações com estátuas e motivos de outros mundos como assegura “ ... eu próprio já tive uma meia dúzia de avistamentos, só este ano”. E, para que não fiquem quaisquer dúvidas, remata: “o dono anterior avisou-me logo quando me passou isto ... com ele, e com vários aborígenes de cá, é exactamente a mesma coisa”.

As posições mantêm-se extremadas. Os analistas mais cépticos afiançam que tudo se deve, na verdade, ao alto consumo de álcool do Northern Territory e à necessidade que os locais têm de acrescentar emoções àquelas que são consideradas as vidas mais monótonas do país. Do lado oposto e sem complexos, os locais rejubilam com as frequentes visitas de ovnilogistas conceituados, participam em convenções e descrevem experiências à media especializada internacional.

Dez quilómetros para diante, Sarah e Rebecca reaparecem paradas à beira da estrada. Apesar de terem acabado de passar mais uma estação de serviço, o seu Twingo imobilizou-se por falta de combustível. Quando voltam, à boleia, a Wycliffe Wells, um amigo de Lew Farkas, não resiste a comentar: “Estão a ver !? ” Aqui, nunca é preciso ir muito longe para ver extraterrestres.”

À passagem pelos Devils Marbles – duas enormes rochas amareladas, redondas e sagradas para os aborígenes que se equilibram sobre uma plataforma rochosa – o sol revela-se mais abrasador que o normal. Provoca uma busca desesperada de sombra que acaba por precipitar a partida.

Três horas depois, anuncia-se Daly Waters. A chegada é acompanhada duma suave transição para o clima tropical do Top End e as nuvens cobrem, agora, totalmente o céu. Surgem árvores dignas desse nome e rios a extrapolar o leito que nos obrigam desviar caminho e a cruzar pontes de campanha.

A povoação revela-se mais um apinhado de casas de madeira abandonadas que tem na proximidade o que resta do primeiro aeroporto internacional da Austrália, construído para combater a invasão japonesa, na 2a Guerra Mundial. Daly Waters dá sinais de vida apenas no pub homónimo, mais um antro aberrante e acolhedor do Outback que seduz e retêm ozzies e estrangeiros como se a função da Stuart Hwy fosse, tão só, ali chegar. Repete-se a decoração caótica de um qualquer ferro-velho próspero e a oferta das melhores cervejas australianas. Ao lado do balcão, jazem a inevitável mesa de snooker e uma TV em que o mesmo test de cricket emitido, na tarde anterior, em Barrow Creek,  está para durar.

O acumular dos quilómetros deixa o Outback vermelho definitivamente para trás enquanto a estação das chuvas se adensa. Aparecem os já esperados territórios inacessíveis do Top End. 

Sem forma de chegar a Matarranca e às curiosas termas homónimas, seguimos directos ao Parque Nacional Nitmiluk (lugar do sonho das cigarras, em dialecto aborígene jawoyn) para descobrir que a sua Katherine Gorge está, também, parcialmente, fora de alcance. Sobra a vista panorâmica do alto da falésia, logo à entrada da garganta que revela a vastidão verdejante do “bush” ensopado, quebrada pelo caudal transbordante e repleto de crocodilos do rio Katherine.

O cenário repete-se ao longo dos parques nacionais vizinhos, o Lichtfield e o Kakadu, permanentemente irrigados por uma humidade sufocante e pela chuva, ora escassa ora diluviana mas sempre presente. Só as estradas principais, como a Stuart e a Arhnem Highway, escapam à inundação impondo-se frequentes travessias anfíbias sempre que delas nos desviamos.

A planície de Nadab é um território privilegiado pela natureza. Dela se projectam mesetas ferrosas que contrastam com o verde  dominante e foram, há muito, eleitas pelos aborígenes como abrigos e suportes da sua arte. Ubirr destaca-se pela quantidade de inscrições em surpreendente estado de preservação descrevendo cenas de caça, cerimónias, mitologia e magia. Para êxtase dos apaixonados pela fauna australiana e da pré-história, entre desenhos de peixes locais, tartarugas e wallabies (pequenos cangurus) sobressai uma pintura de um thylacine, o recém-extinto Tigre da Tasmânia.

Pela sua localização, no prolongamento do planalto de Arhnem, o caudal do Mary river transborda, de Dezembro a Abril e cria, em redor, uma enorme área de pântanos, pauis e lagoas fluviais que, com a chegada do Gurrung (uma das seis estações do ano aborígenes, de meio de Agosto a meio de Outubro), se transformam nos oásis australianos, os billabongs.

Até então, a comunidade conflituosa de saltwater e freshwater crocks partilha a paisagem verdejante e encharcada com uma fauna variada que inclui manadas de brumbies (cavalos selvagens) e de búfalos de água.

A impossibilidade de viajar pelos territórios inundados até às famosas Jim Jim Falls de Kakadu, faz das diversas quedas de água do Parque Nacional Lichtfield um itinerário alternativo, procurado pelos australianos da capital Darwin e por todas as agências de turismo a operar no Northern Territory. Uma atrás da outra, Wangi, Tolmer, Tjaetaba e Tjayanera surgem invadidas por grupos de jovens irrequietos que, munidos de geleiras pejadas de cervejas, celebram cada minuto longe de Darwin e dos seus castigantes postos de trabalho.

Com 120.650 habitantes, a cidade mais moderna e populosa do inóspito Northern Territory, é simultaneamente a menor das capitais de estado do país. Erguida, de frente para o Mar de Timor e o Oceano Indico, como porta de entrada setentrional da Austrália, Darwin tem um passado complicado e um futuro promissor.

Foi destruída e reconstruída em duas ocasiões distintas. Em 1942, 188 caças japoneses - a mesma frota que atacaria, em seguida, Pearl Harbour - deram início a uma série de raides que deixaram a cidade em ruínas. Na década de setenta, Tracy, o mais devastador dos ciclones que a visitaram até hoje, destruiu 70% dos edifícios erguidos ou recuperados após o fim da 2a Guerra Mundial.

A nova reconstrução sublinhou os traços modernos da sua arquitectura que acolheu uma sociedade multiétnica enriquecida por imigrantes dos quatro cantos do mundo que continuam a instalar-se para trabalhar na indústria mineira e no crescente sector turístico local.

Darwin esforça-se para não desiludir quem chega ao fim da Stuart Highway, animando-se com festivais originais e outros eventos. A missão revela-se, no entanto, ingrata. É que, de Alice Springs a este longínquo Top End, a estranha Austrália do Northern Territory faz questão de deslumbrar.