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Oeste Dourado

Oeste Dourado

Vista da fachada ocidental da muralha com o minarete menor de Kalta em destaque por detrás do pórtico principal.

Khiva, Usbequistão

A Fortaleza da Rota da Seda que os Soviéticos Aveludaram

Nos anos 80, dirigentes soviéticos renovaram Khiva numa versão amaciada que, em 1990, a UNESCO declarou património Mundial. A URSS desintegrou-se no ano seguinte. Khiva preservou o seu novo lustro.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


A tarde aproxima-se do fim e a azáfama apodera-se da praça em frente ao portal Oeste de Ichon Qala, a velha área muralhada de Khiva. Uma multidão munida de baldes e bilhas disputa a água fornecida por uma bomba afundada numa falha do pavimento. Equipas aguerridas de miúdos jogam à bola enquanto outros desafiam a paciência inesgotável da estátua de Al-Khwarizmi um matemático, astrónomo e geógrafo nativo nascido em 780. No século doze, as traduções para latim do seu trabalho sobre os numerais indianos introduziu o sistema numérico decimal posicional ao mundo Ocidental. Hoje, a escultura inquisitiva de bronze inspira aos infantes da cidade um sem número de jogos e traquinices.

Voltamos ao interior das muralhas. Adicionamos o nosso movimento ao da Terra e fazemos a pequena bola do sol encaixar-se entre as ameias e nas janelas um pouco mais abaixo, posicionadas sob duas cúpulas de grandes dimensões.

O acesso ao cimo dos adarves terminava às seis da tarde, muito mais cedo do que convinha a quem, como nós, queria admirar e registar o interior da cidade sob uma luz crepuscular. Num contacto anterior com a responsável pelas entradas indagámos se havia alguma forma de ela nos ajudar, até porque também o estaríamos a fazer para promover a sua cidade. A mulher, volumosa, em uniforme de óbvia herança soviética e cabelos e alguns dentes dourados a condizer, puxa pelo seu melhor inglês e responde com indisfarçável frieza: “normalmente não posso fazer isto mas... estejam cá às 8h. Ah! E vai-vos custar 10.000 SUMs (meros 4€). Damos uma volta pela cidade e encontramo-nos com Nilufar, a jovem guia usbeque multilingue – falava usbeque, russo, inglês, francês e um pouco de alemão – que nos ajudaria caso algum problema de última hora surgisse e nos transmitiria uma lição de história recém-aprendida, no topo das muralhas.

A matriosca apareceu do outro lado da praça e não perdeu tempo: “já não apanhei o meu marido em casa e vim de táxi. Tenho que vos pedir mais 5000 SUMs.” Nilufar vira-a sair de um velho Lada conduzido por um homem e em que seguiam também, atrás, três miúdos. Foi-lhe fácil concluir tratar-se da sua família e que a funcionária estava a apenas a inflacionar o lucro retirado ao alegado favor. A guia, que nascera no ano em que a U.R.S.S. se dissolvera, tudo fazia para evitar a discussão com aquela mulherzona mais que feita que a oprimia e intimidava.

Sem conseguir disfarçar a desilusão, esboçou um pranto que procurámos de imediato compreender e estancar: “mas, afinal, o que foi Nilufar?” começamos por lhe perguntar. “Nós sempre aprendemos na escola que na União Soviética não existiam subornos ou este tipo de coisas. Agora vocês chegam de tão longe e eu vejo-me logo metida numa aldrabice destas. Sinto-me envergonhada.”

Tentámos desmistificar a doutrina impingida pelos professores da sua geração e das anteriores com a máxima suavidade possível. Nilufar pareceu conformar-se com a aspereza da nossa versão. Acalmou-se, ganhou coragem para voltar a enfrentar a guardiã que não se amansava por nada deste mundo “Olhem que têm que se despachar!” alerta-nos de dedo esticado. Pagamos-lhe a quantia exigida e atravessamos a arca de Khuna, a residência fortalecida interior dos governantes seculares da cidade. Prosseguimos para o topo do limiar ocidental das muralhas de Khiva. Pouco depois, chega mais uma dupla de clientes fora de horas da senhora. Em vez de pensarmos no que haveríamos de pensar, dedicámo-nos ao cenário esplendoroso.

Para diante, num tom predominante de areia torrada apenas quebrado pelos azuis e verdes elegantes da majólica islâmica típica daquelas paragens da Ásia Central, repetiam-se os paredões, as ogivas, os frontões e minaretes de sucessivas madraças. Atrás da última, estendia-se um casario térreo da mesma dominante, misturado com verde de vegetação que quase nunca o suplantava. Como a contemplávamos então, Khiva pouco tinha que ver com o que chegou a ser no seu apogeu.

De acordo com os arqueólogos, terá sido fundada nos séculos V ou IV b.C. Pouco depois, já era conhecida como um dos entrepostos da Rota da Seda que ligava Roma à China, na linha de outros empórios de renome casos de Samarcanda e Bukhara.

No século XIV, o explorador e geógrafo árabe Ibn Batuta visitou-a e louvou o cuidado incansável com que o seu regente mantinha a lei e a ordem apesar de, como narrou: “a cidade estar tão cheia de gente que era praticamente impossível encontrar o caminho na multidão.”

À imagem do que aconteceria a grande parte da zona, Genghis Khan varreu-lhe o passado. No fim do século XVI, descendentes do imperador mongol formaram um khanato e escolheram Khiva para capital. Khiva transformou-se num mercado esclavagista que perdurou mais de três séculos na realidade e no imaginário atormentado dos povos da região. 

A maior parte dos escravos eram trazidos por guerreiros tribais turquemenos do deserto de Karakum ou por congéneres das estepes do actual Cazaquistão. Uns e outros sequestravam quem tivesse o azar de viver ou de viajar nas imediações.

Hoje, Khiva acolhe mais de 50 mil habitantes livres. Destes, só 3000 vivem dentro das muralhas. Alguns prosperam a cobrar aos forasteiros o privilégio de se fotografarem em trajes de guerra dessa época, com o negócio assente em poltronas de madeira, casacos de khan, sabres históricos e – o adereço mais espampanante – os gorros de grande volume feitos de lã de ovelha que protegiam os guerreiros do frio atroz da estepe. Em alternativa, alguns optavam por tigres de borracha ou de peluche, estes colocados em molduras vistosa de rosas de plástico com a função de captar o sector feminino dos transeuntes.

Já depois de aderirmos à modalidade tradicional, ascendemos pacientemente 118 degraus em caracol e chegamos aos 45 metros de altura da plataforma de observação do minarete mais elevado da cidade, que se projecta de uma das suas madraças mais diminutas, a de Islam Khodja. Partilhamos o cimo apertado com uma família tradicional usbeque.

No processo da formação da U.R.S.S., logo após a revolução de Outubro, a integração de Khiva na república socialista soviética usbeque representou uma aniquilação de toda e qualquer forma de expressão religiosa - principalmente do predominante islamismo – que seria impensável não percebermos enquanto percorríamos as ruas da fortaleza, quase despidas de qualquer forma corriqueira de vida.

Faltavam os magotes de jovens aprendizes da fé em Alá como os do Paquistão ou do vizinho Afeganistão. Das dezasseis madraças e muitas mesquitas, só uma ou outra funcionavam como tal. As restantes, os palácios, mausoléus e outros edifícios históricos formavam um museu ao ar livre a que os poucos habitantes e os visitantes e comerciantes usbeques e de outras partes da Ásia Central emprestam a genuinidade possível.

Ainda assim, ficámos alojados num tal de “Orient Star” que é nem mais nem menos que uma grande madraça  adaptada a hotel.

Cansados de calcorrear as ruas e ruelas sob o calor intenso do Verão precoce desta Ásia continental, recolhemos aos aposentos já com os astros no firmamento. Saímos para o pátio no centro da madraça e ficámos a contemplar o céu estrelado com a alienação espacial de um Al-Khwarizmi em pleno estudo. Até que nos fartamos da inacção e vamos investigar um feixe de luz azulada que se elevava sobre a estrutura do edifício. Na fachada principal, damos com uma semi-torre azul  que recebia a base da iluminação. Perguntamos a um empregado de serviço à entrada do hotel do que se tratava afinal aquela estranha obra. Ao que nos responde: ” É o minarete de Kalta. Era suposto ser o maior de Khiva com uns 80 metros mas o Khan morreu e o que se seguiu não o quis completar. Diz-se que percebeu que os muezins iriam poder ver as mulheres do seu harém do topo e que, por isso, não deu seguimento à construção. Acreditem se quiserem.”