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Doces crocantes

Doces crocantes

Vendedor de nougats e outros doces mantém a sua banca móvel estacionada contra a velha muralha da fortaleza de Acre.

São João de Acre, Israel

A Fortaleza que Resistiu a Tudo

Foi alvo frequente das Cruzadas e tomada e retomada vezes sem conta. Hoje, israelita, Acre é partilhada por árabes e judeus. Vive tempos bem mais pacíficos e estáveis que aqueles por que passou.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Chegamos à frente ocidental da fortaleza e deparamo-nos com uma frota de pequenas embarcações em doca seca ou ancoradas e, para lá destas, com o Mar Mediterrâneo liso, batido apenas pelo vento que aliviava o forno estival em que, por aqueles dias, se havia tornado o Médio Oriente. Andamos algum tempo em busca do barco em que era suposto subirmos a bordo até que alguém pega num altifalante e começa a apregoar em árabe. Não é que percebêssemos a mensagem mas identificámos de imediato que dali partiam as voltas marítimas à Acre muralhada. Antes que a lotação esgotasse, fizemo-nos passageiros. Instalados sobre a popa mas em constante movimento, não tardámos a compreender que se verificava naquela barca de madeira uma extensão da discrepância política que vigorava dentro da fortaleza e no território em frente: o dono e capitão do barco era árabe, o seu auxiliar e a maioria dos passageiros eram árabes. Ainda assim, uma bandeira branca e azul com a estrela de David deixava bem claro quem dominava naquelas terras e mares. Esvoaçavam bandeiras iguais em todos os barcos e também em pontos proeminentes da fortaleza como a torre turca do relógio.

À medida que nos afastamos, temos uma visão cada vez mais ampla da velha cidade, disposta numa língua de terra estreita que dificultava a sua conquista. Em tempos, protegia-a uma muralha adicional que se erguia a partir do fundo do mar. Resta, dela, um retalho em ruínas. Já a fortaleza principal, em si, mantem-se preservada e genuína como poucos historiadores pensaram possível tendo em conta a sua existência atribulada.

Em 636 d.C., Acre foi tomada pelos Árabes ao império Bizantino. Os novos ocupantes usufruíram da cidade sem grandes problemas até à chegada dos exércitos Cristãos. O Papa Urbano apelou às Cruzadas no ano 1095. Cinco anos depois, Acre estava sob ataque e cercada. Este cerco durou até 1104, quando foi derrotada pelas forças de Balduíno I de Jerusalém. Os Cruzados fizeram dela o seu ponto de partida para a tomada do alvo primordial, Jerusalém. Transformaram-na num entreposto comercial que lhes permitiu prosperar com o comércio intenso do Levante, em especial das especiarias asiáticas.

Em 1170, nove anos antes do Papa Alexandre III ter reconhecido a independência de Portugal, Acre era o porto mais importante do Leste do Mediterrâneo e a riqueza do reino de Jerusalém que impressionava os reinos do Ocidente devia-se-lhe. No entanto, Acre e Jerusalém não tardaram a capitular perante as forças do poderoso sultão Saladino.

Na Terceira Cruzada, a investida inexorável de Ricardo Coração de Leão e do Rei Filipe de Espanha permitiu-lhes retomar a Terra Santa. Em Acre, em particular, Ricardo Coração de Leão castigou Saladino por não ter cumprido o que prometera quando se rendeu. Ficou para a história que Ricardo e o exército inglês massacraram quase três mil sarracenos.

Já em 1291, deu-se nova conquista infiel. Os Mamelucos (casta e sultanato poderoso com origem em escravos e militares há muito empregues pelos árabes) surgiram com um exército dez vezes superior ao dos Cristãos. Após um cerco de dez meses durante o qual a maior parte dos habitantes de Acre fugiram para Chipre, a cidade capitulou e foi significativamente danificada. Sob o domínio dos Mamelucos, Acre entrou num período de relativa marginalização, até 1517.

Algo que surpreende qualquer visitante é que, ao contrário de outros lugares de Israel, como por exemplo a mística Tsfat ou Jaffa, a Acre muralhada pouco mudou desde estes tempos das Cruzadas. As casas são ocupadas por famílias locais e não por artistas. O seu souq pertence aos pescadores e não a vendedores ambulantes ou artesãos. Para isto e, para a atribuição do estatuto de Património Mundial da UNESCO terá contribuído o facto bem mais recente de, após a captura da cidade pelas forças sionistas, em 1948, os Judeus terem optado por deixar a Velha Acre entre muralhas para os árabes e desenvolvido a sua própria nova cidade a leste.

Visitantes que, como nós, vagueiam descomprometidos com o tempo e a direcção pelas suas ruelas, becos e mercados rapidamente apreciam a sua pureza arquitectónica e histórica, herdada dos tempos em que acolhia embarcações de Amalfi, de Pisa, de Veneza e de todo o Levante.

Oded, o judeu quase septuagenário que nos guia não é, claro está, dessa era mas a sua família foi expulsa do Egipto ainda antes da Guerra da Independência de Israel, onde se refugiou. Oded, viu-se envolvido nos conflitos israelo-árabes que se seguiram, na Guerra dos Seis Dias e na de Yom Kippur, também noutras escaramuças. Nem por isso desenvolveu uma atitude sionista cega ou extrema.

“Bom, se calhar almoçávamos entretanto, não? Que vos parece?” questiona-nos “Conheço aqui uma família que, para mim, tem o melhor humus de Israel. Vamos lá?” Concordamos, agradecidos pela pausa e pela sugestão. Pouco depois, estamos sentados à mesa a partilhar especialidades gastronómicas da região. A conversa flui. Intriga-nos sobremaneira a concessão judaica da velha Acre aos Árabes. Oded não se furta a opinar. “Não foi o único lugar em que isso se passou. Há que ver que a fortaleza já era deles desde o século XVI. Logo depois de os vencermos, em 1948-49, eles fugiram mas, depois de os combates terem esmorecido, muitos refugiados Palestinianos chegaram de outras partes e instalaram-se. Desmobilizá-los só ia criar mais problemas. Em termos habitacionais, aquelas casas não são propriamente agradáveis. De qualquer maneira, na municipalidade toda de Acre, eles só perfazem uns 30%”

Pelo que compreendemos, a cedência habitacional da cidade muralhada fez parte de um status quo entre árabes e judeus com que, de ambos os lados, nem todos concordam. Não é suposto, por exemplo, serem erguidas mesquitas em bairros judeus. Nem sinagogas em bairros árabes. Seja como for, vários judeus queixam-se de que os minoritários árabes se tentam apoderar da cidade: “Antes, só existiam mesquitas na Velha Akko” queixa-se uma moradora judaica mais radical “agora estão em cima de nós. Os judeus estão cada vez mais a vender as casas e a sair de cá. Vamos à sinagoga ao Sábado e os árabes fazem churrascos mesmo à nossa frente. Nos últimos 10 anos, mais de 20 mil judeus abandonaram Akko e os árabes das aldeias mais próximas substituem-nos. Se isto continua assim, não tarda, Akko vai ter um mayor árabe!”.

Como continuámos a aprender ruela acima, ruela abaixo, num passado recente, algumas disputas já se provaram menos verbais mas não assumiram nem de perto a dimensão ou a violência do conflito medieval Cristão-Muçulmano.

Após a conquista dos Mamelucos, Acre perdeu grande parte da sua importância. Mas, no século XVIII, um mercenário otomano bósnio de nome Al-Jazzar devolveu a dignidade e a influência regional ao porto. Em 1799, Napoleão sentiu-se aliciado. Al-Jazzar, teve que requerer o auxílio da armada inglesa para repelir o imperador francês quando este se sentiu aliciado e o tentou capturar.

Das mesquitas que detectamos dentro das muralhas, a que mais se destaca é, de longe, a erguida, em 1781, em honra do otomano. Foi construída sobre uma antiga catedral dos Cruzados. Aliás, com o passar dos séculos, várias estruturas cristãs seriam cobertas por muçulmanas.

Não tardámos a refugiar-nos do calor vespertino opressivo e a verificar que o mesmo tinha acontecido, por exemplo com os Salões dos Cavaleiros. Estas estruturas surgem oito metros abaixo do nível das ruas. Em tempos, foram usadas como quartel-general pelos Cavaleiros-Hospitalários ou da Ordem de São João que combateram e prestaram auxílio aos peregrinos doentes, pobres ou feridos - lado a lado com os Cavaleiros Templários e os Teutónicos. Mas, quando os Mamelucos conquistaram Acre, cobriram aquelas salas abobadadas de entulho. Também um túnel usado pelos templários para se deslocarem secretamente entre o Palácio e o porto foi encontrado há alguns anos por um canalizador após uma moradora se ter queixado de uma conduta entupida.

De volta à superfície, vagueamos pelo souq frenético e apreciamos a diversidade de produtos – ainda com destaque para as especiarias - que em tempos fez a delícia de mercadores de todas as partes – identificados em árabe, em judaico e em inglês. Não vemos sinal de excursões ou grandes grupos de estrangeiros. Acre parece ter também resistido ao pior do turismo e preserva a sua integridade secular.

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