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Baie d'Oro

Baie d'Oro

Banhistas nipónicos fazem snorkeling no aquário natural da Baie d'Oro.

Île-des-Pins, Nova Caledónia

A Ilha que se Encostou ao Paraíso

Em 1964, Katsura Morimura deliciou o Japão com um romance-turquesa passado em Ouvéa. Mas a vizinha Île-des-Pins apoderou-se do título "A Ilha mais próxima do Paraíso" e extasia os seus visitantes.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Por volta dos seus vinte anos, a jovem escritora embarcou numa viagem, vista, à época, como mais que alternativa. O Japão recuperava a olhos vistos da destruição e da má fama de que a nação se viu a braços após a tentativa frustrada de conquistar o Pacífico. Morimura desistiu de uma curta experiência como editora de uma revista feminina. Pouco depois,  visitou um arquipélago que os japoneses nunca conseguiram tomar apesar da apetência pelas reservas de níquel da principal ilha da Nova Caledónia. Interessava-lhe, sobretudo, a evasão e o exotismo tropical daquele lugar perdido no maior dos oceanos.

De regresso, Morimura embarcou num romance. Pouco depois, publicou-o e partilhou com os leitores a aventura que vivera. Os japoneses continuavam comprometidos com a regeneração da pátria mas ansiavam por imaginários prazerosos de retiro. A “Ilha Mais Próxima do Paraíso” tornou-se, em pouco tempo, num best-seller e revelou-lhes o éden melanésio de Ouvéa.

Não tínhamos lido a obra quando por lá passámos mas reparámos na presença de casais nipónicos, instalados em espreguiçadeiras dos poucos resorts, ou a passear de mão dada nos areais de giz contíguos.

Entretanto, percebemos que Ouvéa tinha beneficiado de um estímulo também cinematográfico. Nos anos 70, Nobuhiko Ôbayashi era um realizador em ascensão a quem, durante a rodagem de certos anúncios, Charles Bronson e Kirk Douglas impingiram a alcunha de OB, por acharem demasiado difícil pronunciar o seu nome.

Já na década de 80, Ôbayashi pegou na novela de Morimura e mudou-se de armas e bagagens para a Nova Caledónia. Destacava-se do elenco que escolhera, uma cândida e versátil Tomoyo Harada em início de carreira. O Japão rendeu-se aos encantos da protagonista e da sua personagem Mari Katsuragi. Mas, principalmente, aos das paisagens sedutoras do atol em que as cenas haviam sido rodadas.

Muitos japoneses fixaram também, nas suas mentes, a imagem do figurante indígena Zacaharie Daoumé que, surpreendido pela súbita notoriedade, viria a declarar à imprensa: “eu tinha a minha fotografia afixada em posters por todo o Japão mas nunca deixei a minha ilha para lá ir.”

Em 1988, Ouvéa foi palco de acontecimentos violentos, de grande significado político mas pouco condizentes com o fascínio nipónico. Destes, destacou-se a fase de Prise d’outages, em que os independentistas nativos do FLNKS mataram quatro agentes da esquadra de polícia de uma povoação, e tomaram como reféns 27 outros, a metade deles, aprisionados numa gruta da ilha. Forçaram, assim, a intervenção do exército da metrópole que acabou com 19 dos raptores e 3 militares mortos e gerou um ressentimento mútuo que continua por sanar.

As partes sentaram-se à mesa e assinaram os acordos de Matignon. Asseguraram a amnistia dos responsáveis pelos raptos e uma paz temporária que resultou no estatuto de autonomia especial e provisória em que vive, ainda hoje, o território. 

O conflito teria já acalmado quando, depois de ler o livro de Morimura e ver o filme de Ôbayashi, um empresário nipónico oportunista desembarcou na ilha determinado em construir um hotel luxuoso para atrair uma vasta clientela japonesa.

Passou-se uma década de negociação e burocracia. Em 2000, o Paradis d’Ouvéa abriu finalmente as portas, após um acordo entre o clã proprietário do terreno, as autoridades provinciais das Ilhas Lealdade e os investidores japoneses.

No entanto, passados mais de 10 anos, mesmo se a UNESCO declarou, em 2008, a lagoa azul de Ouvéa como Património Mundial, os seus principais visitantes são ainda os franceses da metrópole que vivem em Nouméa ou os familiares.

Os japoneses chegam à ordem de 18.000 ao ano. Por norma, voam da capital do arquipélago para passar um ou dois dias na ilha. Popularizaram-se os casamentos ou re-casamentos românticos, sem validade oficial. Grande parte tem lugar em Nouméa. Dos 300 a 400 ali realizados, alguns “unem” casais mais abastados e têm um complemento nupcial exaustivo nas Lealdade.

O número final acaba por se provar residual, também por culpa da concorrência das ilhas mais renomeadas da Polinésia Francesa e, da rivalidade recente da vizinha Île-des-Pins que, a determinada altura do seu processo promocional, não resistiu à tentação e se passou a publicitar também como “A Ilha Mais Próxima do Paraíso”.

O número de passageiros nipónicos a bordo do voo em que chegamos comprova-o.  Depressa percebemos porque esta última se afirmou como uma competidora de Ouvéa, no mínimo, à altura.

O mais que provável James Cook foi o primeiro ocidental a avistar a Île-des-Pins. Durante a sua segunda viagem à Nova Zelândia, apesar da dimensão exígua da ilha (apenas 14 km por 18), o navegador detectou fumo que atribuiu à presença humana. Também constatou a estranha abundância de pinheiros araucaria columnaris que se destacavam do horizonte longínquo. Mesmo sendo um frequentador recorrente dos arquipélagos tropicais do Pacífico, Cook não ficou indiferente à beleza excêntrica da Île-des-Pins. Como não ficamos nós, nem os veraneantes nipónicos que se deparam com o litoral verde-azul turquesa imaculado da Baie de Kuto ou com a peculiar Baie d’Oro que a maré invade e enche tal como um aquário natural, delimitado por uma sebe altiva de pinheiros-de-Cook, como foram entretanto chamados.

Vemo-los entrar e sair da água com o seu equipamento de snorkeling, em êxtase pelo contacto tão fácil e íntimo com o ecossistema subaquático da ilha. Ou a partilhar, em casal, o júbilo absoluto mas efémero concedido por aquele lugar surreal.

À imagem de Ouvéa, os promotores turísticos de Île-des-Pins não demoraram a fomentar a celebração das bodas nas instalações dos seus hotéis e nas praias da ilha. Um site, em particular, destaca com orgulho uma recente emenda à lei francesa que deixa requerer que os estrangeiros residam em território francês pelo menos um mês. “Basta agora que os visitantes sejam adultos, apresentem prova do estado civil ou de que não são já casados, bem como prova de residência.” E, como nada pode falhar numa cerimónia nupcial de conto de fadas, “é oferecido um tradutor certificado para que os votos sejam trocados na língua-mãe.”

O casamento nipónico online, tem ainda direito a um vídeo de apresentação especial que inclui imagens da cerimónia numa pequena capela de vidro quase sobre o areal e de uma sessão fotográfica com o casal à beira do mar idílico do Pacífico do Sul.

Katsura Morimura casou por duas vezes, mas nunca na Nova Caledónia. Após o segundo casamento, entrou em depressão crónica. Morreu, em 2004, num hospital de Nagano. As causas oficiais apontaram para suicídio.

Hoje, a maior parte dos japoneses de visita ao arquipélago não passa pelo cenário do seu romance. Em vez, delicia-se com a outra Ilha Mais Próxima do Paraíso.