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Parking de Kalesas

Parking de Kalesas

Avô e neta passam junto a uma longa sequência de Kalesas (carruagens de influência hispânica) que servem Vigan.

Vigan, Filipinas

A Mais Hispânica das Ásias

Os colonos espanhóis partiram mas as suas mansões estão intactas e as kalesas circulam. Quando Oliver Stone buscava cenários mexicanos para "Nascido a 4 de Julho" encontrou-os nesta ciudad fernandina


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Assim que se aproximam as dez da manhã, o calor da época seca apodera-se da cidade e deixa-a numa espécie de letargia tropical. Os cocheros dormitam nas suas kalesas (espécie de charretes herdadas dos espanhóis) estacionadas em fila ao longo da fachada lateral da catedral de São Paulo. Estamos em Luzon, um bastião católico das Filipinas e é Domingo. A missa começou faz mais de uma hora mas prolonga-se e atrasa ad eternum a saída dos melhores clientes, os que deixam esmolas em nome de Deus e a quem não custa prendar as almas desfavorecidas que os conduzem de volta a casa. Afinal, em conjunto, os pesos da viagem e da gorjeta, revelam-se desafogos financeiros que justificam a longa espera.

Alguns casamentos são integrados na homília. Entramos na nave da igreja a meio de uma das cerimónias que é acompanhada por centenas de crentes comovidos e por forasteiros curiosos. Uma placa escrita a vermelho pede aos frequentadores do templo que se vistam de forma apropriada para as celebrações mas, inconsciente do desaforo, um estrangeiro mesmo a seu lado, confronta-a, metido nuns calções desportivos e numa camisa azul forte com peixes coloridos desenhados a traço infantil.

Os fiéis queimam velas e mais velas e dizem as preces correspondentes até que o último matrimónio se consuma. À boa maneira clássica, o casal é atacado por arroz, pétalas e pelos flashes de um batalhão de fotógrafos semi-profissionais e de ocasião. Dizem-nos que ali estão representadas algumas das famílias mais abastadas de Vigan, algo em que nos inclinamos a acreditar tendo em conta a sumptuosidade dos fatos e vestidos, por certo regulamentares perante o senhor.

O casal refugia-se numa limusine branca e, atrás deles, o povo abandona a protecção do templo a pé ou de kalesa pondo cobro à ansiedade dos cocheros mais afortunados. Juntamo-nos à debandada geral e seguimos em direcção à Syquia Mansion, uma das residências históricas emblemáticas da cidade.

O criado abre o portão e anuncia-nos a Tomas Quirino que nos recebe ligeiramente suado apesar dos trajes frescos de trazer por casa.

Estamos perante um dos filhos do sexto presidente filipino Elpídio Quirino, com dois mandatos de 1948 ao fim de 1953 e a quem se reconheceu o mérito de uma reconstrução logística e económica pós-guerra notável, conseguida com substancial apoio dos Estados Unidos mas se apontaram as lacunas dos problemas sociais básicos nunca resolvidos e de uma corrupção generalizada da administração que insistia também em irar a população com os seus gastos principescos no estrangeiro.

Tomas foi o único descendente masculino de Elpídio a sobreviver às agruras da 2a Guerra Mundial. A sua mãe Alicia Syquia e três dos irmãos foram mortos, em 1945, quando fugiam de casa durante a terrível batalha de Manila. O anfitrião não esconde nem o ressentimento nem a sua orientação sexual. Durante um périplo pela mansão, mostra-nos fotografias e pertences do pai e, entre expressões e trejeitos efeminados, fala-nos das origens sino-hispânicas da família. Elogia ambos os povos e recrimina o nipónico: “os Quirinos foram destroçados por causa deles. A minha avó sucumbiu a uma autêntica chacina mas, numa altura em que fizemos milhares de prisioneiros japoneses, o meu pai e outros líderes souberam perdoar e mandaram-nos de volta para o Japão. A compaixão é uma característica muito própria dos cristãos mas nem todos os povos a conhecem. Os espanhóis ensinaram-na aos filipinos”.

Deixamos a mansão Syquia mas continuamos a explorar o distrito mestiço a que os filipinos chamaram de Kasanglayan (onde vivem os chineses). As bombas da 2a Guerra Mundial pouparam, ali uma concentração impressionante de casas ancestrais e coloniais, por as tropas japonesas terem fugido da cidade, o que fez que os bombardeiros norte-americanos abortassem a sua missão à última da hora. 

Algumas foram erguidas por comerciantes originários da província de Fujian que se estabeleceram em Vigan, casaram com nativos e, por volta do século XIX, se tornaram na elite da cidade. E apesar de ser, de uma forma genérica, considerada espanhola, a sua arquitectura consiste, na realidade, numa combinação de estilos mexicanos e chineses a que foram adicionados desenvolvimentos filipinos como as janelas de correr feitas de conchas.

Ao fim da tarde, percorremos aquela que é considerada a rua principal do Kasanglayan, a Mena Crisólogo Street, como o fazem dezenas de kalesas em busca de novos passageiros. Abundam, ali, antiquários, alfarrabistas e outros negócios caseiros geridos por pequenos clãs locais com feições orientais mas nomes e apelidos castelhanos e até bascos como os dos falecidos recém-inscritos a giz no quadro de serviços que descobrimos na funerária Enrique Baquiran: Guzman, Pascual, Zamora, Urbano, Jimenez.

São todos eles herança da longa colonização hispânica das Filipinas, de Luzon – a ilha maior desta nação insular - e de Vigan, em particular. A última foi inaugurada quando, em 1572, o conquistador Juan de Salcedo se apoderou da cidade, à data, um entreposto comercial conveniente da Rota da Seda que ligava a Ásia, o Médio Oriente e a Europa. E terminou a 12 de Julho 1898, data da proclamação da independência do país mas também a altura em que os Estados Unidos começaram a substituir os espanhóis como sua potência colonial. Os norte-americanos ficaram até 1935 e voltaram dez anos depois para expulsar os invasores japoneses. Nesse período, foram inúmeras as influências culturais que passaram aos filipinos casos do à vontade com que falam inglês e da paixão pelo basquetebol. A ligação entre as duas nações e o baixo custo de vida, são as principais razões porque tantos realizadores de Hollywood escolheram e escolhem as Filipinas para filmar as suas obras, de “Apocalypse Now” a “Nascido a 4 de Julho”.

De uma forma inesperada, este último sucesso ficou ligado a Vigan para sempre. À época da rodagem, as relações entre os E.U.A. e o Vietname mantinham-se problemáticas. Por essa razão, Oliver Stone filmou as cenas da guerra do Vietname em zonas de selva das Filipinas. Mas o filme também incluía trechos passados no México e uma deslocação para aquele país ou para a Europa seria demasiado custosa. Por forma a evitá-la, Stone mudou-se para Vigan onde a herança arquitectónica partilhava os traços que os espanhóis adaptaram às suas povoações mexicanas.

Villa Angela é outro desses patrimónios. Foi construída, em 1870, por Agapito B. Florendo um gobernadorcillo colonial que concentrava poderes administrativos totais e judiciais e seria mais tarde comprada pela família proeminente Verzosa que a baptizou em homenagem à matriarca Angela.

Quando a visitamos, deparamo-nos com características semelhantes às da Syquia Mansion: divisões grandiosas assentes em tábuas corridas massivas e decoradas com mobília e adornos do século XIX que lhe conferem uma forte sensação de vivência.

A governanta mostra-nos o seu lugar de trabalho com orgulho e, quando chegamos ao quarto del señor, chama-nos a atenção para uma fotografia em particular. “Como podem ver, Tom Cruise ficou a morar connosco...”. A foto mostra o protagonista de “Nascido a 4 de Julho” nos seus tempos iniciais de carreira, junto ao proprietário actual da mansão. Segundo nos dizem, Willem Dafoe também teve o privilégio de a habitar e ali foi filmado parte de “Jose Rizal”, a homenagem cinematográfica ao principal patriota e independentista filipino, executado pelos espanhóis 26 anos depois de a Villa Angela ter ficado pronta.

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