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Modelos de rua

Modelos de rua

Modelos promovem uma marca numa das principais ruas do bairro Ginza de Tóquio.

Tóquio, Japão

À Moda de Tóquio

No ultra-populoso e hiper-codificado Japão, há sempre espaço para mais sofisticação e criatividade. Sejam nacionais ou importados, é na capital que começam por desfilar os novos visuais nipónicos.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Uma pequena bandeira ondula sobre a torre do relógio dos armazéns Wako que marca 14.05 e cronometra mais uma tarde solarenga na radiosa avenida Chuo-dori. Estamos no coração de Ginza, o bairro de Tóquio conhecido, entre outros prodígios, por ter o imobiliário mais dispendioso à face da Terra e que perde em prestígio apenas para a zona vizinha de Chiyoda, onde reside o Imperador. De 1612 a 1800, este bairro albergou a casa da moeda produtora de parte do numerário de prata que circulava no Japão. A fábrica, além de revigorante para a economia nipónica, acabou por emprestar o nome à zona e, hoje, mais que nunca, esse nome assenta-lhe na perfeição.

Um metro quadrado de terreno no centro de Ginza vale cerca de 100.000 euros (em redor de 10 milhões de ienes). Virtualmente todas as marcas líderes do mundo da moda e dos cosméticos marcam ali uma presença glamorosa e atraem famílias abastadas impulsionadas por esposas ansiosas, assim como grupos de jovens obcecados pelas cores e formas dos logótipos mais famosos. As autoridades da cidade sabem quanto pode render esta febre consumista. Aos fins de semana, fecham a avenida ao trânsito, do princípio da manhã até quase ao anoitecer. Entregam-na desta forma a uma multidão que a percorre e volta a percorrer de alto a baixo sob o olhar soberbo dos modelos ocidentais nos outdoors elevados.

Deixamos o Le Café Doutor, semi-recuperados do cansaço por uma bebida quente e fazemo-nos a nova aventura neste domínio incorrigível do capitalismo que um monge budista de capa amarela, chapéu cónico de bambu e botins brancos parece desafiar, pedindo esmola à almas atarefadas.

Do lado oposto da rua, um stand requintado da Nissan está sobrelotado. No interior, é exibido sobre uma plataforma cromada e giratória o seu novo modelo Z Fairlady e o espaço não chega para tantos interessados. Curiosos e fotógrafos de ocasião disputam cada pedaço do veículo e várias cabeças perdidas acompanham as apresentações do bólide através da montra. 

Continuamos a descer a Chuo-dori e, passadas inúmeras lojas de multinacionais idolatradas, damos com uma fila ordeira com mais de 100 metros que preenche parte do passeio da avenida e serve de pretexto para um polícia da cidade passar o tempo, a mandar avançar e recuar quem está desalinhado, mesmo que só 10 ou 20 centímetros.

A loja em que começa a fila oferece um curto período de descontos e mantêm-se à pinha desde que abriu as portas obrigando os últimos clientes a chegar a esperas intermináveis.

Outras estratégias servem a mesma atracção. Viramos as costas e deparamo-nos com uma formação de modelos nipónicas que desfilam pela via a passos longos e adaptados àquela passerelle de asfalto. Em mini-saias sugestivas e sobre sandálias de gladiador de salto alto, as adolescentes destacam-se dos transeuntes baixos e promovem o design irreverente de uma tal de nova colecção Esperanza.

A predominante dedicação feminina à aparência motiva cada vez mais o sexo oposto a cuidar de si. Ao ponto de, em Tóquio, e um pouco por todo o Japão, muitos homens passearem agora com malas, carteiras e pochettes tão genuínas quanto caras, maquilhados e de sobrancelhas arranjadas.

Noutras ocasiões, investigamos o fenómeno em zonas comerciais concorrentes da metrópole e a verdade é que, salvo uma ou outra variável, a tendência consumista generalizada mantém-se.

Nas zonas requintadas de Omotesando e Aoyama, alguns dos gurus da moda mundial – Prada, Louis Vuitton, Channel, Empório Armani, Dior etc. – contrataram gurus da arquitectura e ergueram filiais esplendorosas que acrescentam valor aos seus produtos e à metrópole.

Shibuya tornou-se ainda mais famosa desde que “Lost in Translation” voltou a revelar o seu cruzamento mais atravessado do mundo. Não precisava do estímulo adicional mas, na competitiva Tóquio, todas as acções de divulgação, planeadas ou espontâneas são bem vindas e, sabe-se que muitos milhares de estrangeiros visitam, todos os anos, a zona para admirarem o estranho fluxo e refluxo urbano das pessoas.

Os que o fazem, desvendam a frescura criativa da juventude nipónica e as modas e incontáveis sub-modas de rua: a lolita, a gyaru (mulheres hiper-maquilhadas e produzidas em geral), a kogal (que recorre a uniformes escolares), entre tantas outras. E descobrem manifestações paralelas da cultura japonesa como o culto da  purikura (lojas incríveis de fotografia e pós-processamento digital), o design dos salões barulhentos de pashinko (jogo de sorte baseado num movimento de esferas, a que muitos nativos se deixaram viciar) e a visão exótica dos rappers negros  que chamam clientes aos bares e às discotecas “americanizadas” para que trabalham.

Na proximidade, o bairro de Harajuku estica o conceito de criatividade ao máximo tolerado pela sociedade nipónica e, ultrapassa os limites sem grandes cerimónias. As lojas sem preconceitos da rua Takeshita fazem a delícia dos adolescentes que ali encontram as vestes e adereços que lhes permitem construir os seus estilos exclusivos, reciclados ou destituídos ao fim de apenas alguns dias. De tal maneira, que as marcas as usam como termómetros e centros de testes para os seus produtos mais arrojados.

Centenas de comboios param, por dia, na estação de caminho de ferro de Harajuku e passam por debaixo da ponte ampla que conduz do bairro ao parque florestal Yoyogi e ao seu Templo Meiji, uma dupla  que continua a salvaguardar a honra do xintoísmo japonês da cidade. Quando a atravessamos, a ponte está entregue aos clãs urbanos mais exóticos de Tóquio. Várias lolitas tímidas conversam nas imediações, mas são as personagens cosplay andróginas Visual key (maquilhagens, cabelos e vestes impactantes de um forma negra), Dolly Key (inspiradas na visão nipónica da Idade Média e nas fábulas) e Fairy Key (variante dos anos 80 das Lolitas que usa tons e padrões diferentes) que mais se destacam.

Estas são apenas uma ínfima parte das correntes da prolífica street fashion de Tóquio. Dos rockabillies e motoqueiros orgulhosos aos salarymen de fatos negros e aos geeks edokos (de Tóquio), as expressões nipónicas cruzam-se na vasta metrópole e compõem um espectro que não pára de se renovar.

Sem surpresa, os oportunistas homens de negócio da capital sabem como explorar esta riqueza. Marcas como A Bathing Ape, Comme des Garçons, Evisu, Head Porter, Original Fake, Uniqlo, Visvim, W, TAPs e XLarge empregam os melhores criadores e geram lucros astronómicos. Mas nem todos são consensuais. Issey Miyake, Yohji Yamamoto e Rei Kawakubo tornaram-se nos expoentes da moda japonesa e as suas peças são exibidas nos eventos de moda mais conceituados. No entanto, em diversos países e com demasiada frequência, as suas criações são consideradas impossíveis de vestir.