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Vale de Kalalau

Vale de Kalalau

Um dos cenários emblemáticos da Napali Coast.

Napali Coast, Havai

As Rugas Deslumbrantes do Havai

Kauai é a ilha mais verde e chuvosa do arquipélago havaiano. Também é a mais antiga. Enquanto a exploramos por terra, mar e ar, espantamo-nos ao vermos como a passagem dos milénios só a favoreceu.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Não existe em Kauai, um fenómeno urbano que se assemelhe, nem de leve, ao da capital havaiana Honolulu. A atmosfera desta ilha anciã é bucólica e os habitantes distribuem-se invariavelmente por povoações pacatas com menos de 10.000 habitantes. São todos moradores de domicílios antigos ou com aspecto histórico, por lei, sempre mais baixos que um coqueiro.

Escolhemos Lihue - a principal e maior das povoações - como base e damos entrada num motel-restaurante simpático, explorado por uma família nipónico-havaiana extensa que durante a hora de almoço serve comida tradicional polinésia e muda radicalmente de decoração para os jantares, refeição em que o restaurante se transforma num verdadeiro japonês.

Do lado oposto da rua, várias casas ostentam cartazes políticos que aconselham Carvalho para Mayor. Os 13.000 emigrantes portugueses depressa se multiplicaram e formaram uma comunidade actual com mais de 60.000 luso-descendentes. Entre tantos e há tanto tempo radicados, vários entraram na esfera política havaiana com grande aceitação.  Em Kauai, o segredo do sucesso é, aliás, simples. Por norma, basta conceder aos forasteiros as melhores condições para se encantarem com os panoramas da ilha e gastar com honestidade e eficiência os dinheiros que estes ali deixam, como aqueles os que o governo federal concede. Ao contrário do que se passa em Oahu, a ilha havaiana do encontro e a mais cosmopolita do Havai, as grandes atracções de Kauai são 100% naturais.

Atravessamos a ilha de leste a oeste para chegarmos à primeira, o canyon furtivo de Waimea, um cenário dramático comparável ao Grand Canyon norte-americano em termos de formas, texturas e tons.

Waimea esconde-se nas profundezas da ilha mas é alcançável pelas estradas Koke’e e Waimea Canyon Drive que o cruzam até atingir o seu limite ocidental. Foi escavado ao longo das eras pela lenta passagem do rio homónimo e seus afluentes. Mas também pela actividade sísmica e vulcânica, da mesma maneira que o congénere gigantesco do Arizona.

Se é verdade que a dimensão do canyon de Waimea fica muito aquém da do modelo continental, já a configuração impressionante dos desfiladeiros e da sua palete de cores quase se confundem.

Espantamo-nos com as subtis variações de tons de cada vez que o caminho nos leva a novo ponto de observação e revela diferentes perspectivas e, à medida que as nuvens e a chuva se dissipam, distintas luminosidades.

Por fim, a Koke’e Road chega ao seu término e às imediações da entrada do Parque Estadual Napali Coast. Deixa-nos abismados de frente para Kalalau, um vale recortado e exuberante só acessível pelo seu sopé contíguo ao oceano Pacífico ou por um trilho exigente de tal forma concorrido que as autoridades têm que controlar, dia após dia, a quantidade de caminhantes que o percorrem.

Até ao século XX, muitos havaianos nativos viveram neste cenário luxuriante e colorido em que plantavam taro em socalcos conquistados à vegetação. Nos dias que correm, o estatuto do parque proíbe toda e qualquer edificação.

Vista no mapa, a Napali Coast surge apenas uns quilómetros para norte do canyon de Waimea. A ausência de estrada a ligar as duas seria, por si só, um bom motivo para a explorarmos apenas no dia seguinte. Tínhamos, no entanto, outra razão incontornável. Íamos fazê-lo a partir do ar.

Regressamos a Lihue, a meio da tarde, apenas com tempo para nos metermos num helicóptero panorâmico. Somos conduzidos entre o escritório da empresa e o aeroporto da cidade por Kurt, um funcionário meio desvairado que faz questão de nos tratar e aos restantes clientes por “kids”.

Michael, o piloto assegura aos passageiros que vão embarcar numa das experiências mais solenes das suas vidas. Depois, tira os sapatos para o lado dos pedais e faz o helicóptero elevar-se para o céu. Num ápice, deixamos para trás Lihue e a civilização. Regressamos ao canyon de Waimea que, visto do ar, se prova duplamente fascinante.

Entretanto, Michael aumenta o volume da 5ª Sinfonia de Beethoven que escolhera como banda sonora para o voo e faz a aeronave penetrar num manto de nuvens retidas contra a montanha. À saída da névoa, o piloto acentua a pompa da locução e anuncia o ponto alto do percurso, a Napali Coast.  

Desvenda-se perante nós o oceano Pacífico e toda a costa noroeste de Kauai, esculpida pela chuva intensa e pelo vento que desde sempre castigam as montanhas vulcânicas.

Mais que se aproximar, o piloto prenda e assusta os passageiros com incursões fílmicas em desfiladeiros e vales profundos. Acompanha longas quedas de água e penhascos cobertos de musgos e vegetação verdejante que contrastam com os vermelhos e castanhos das paredes rochosas a que se agarram. Acima de nós, impera o cume fulcral do monte Wai’ale’ale (1570 m) que retêm a humidade proveniente do Pacífico do Norte e, de acordo, é um dos pontos mais encharcados do planeta com uma média anual de pluviosidade superior aos 1160mm.

Nada se ouve a bordo além da música clássica e o seguimento da locução do piloto que disserta acerca da antiguidade geológica do lugar e aproveita para enumerar alguns dos seus mais recentes prodígios na 7ª arte.

Sublime como poucas, Kauai e, em particular, a Napali Coast abismam quem quer que as descubram incluindo incontáveis realizadores e produtores de Hollywood. Como consequência, os seus cenários foram usados em mega-sucessos como “Parque Jurássico”, “King Kong” o musical “Ao Sul do Pacífico”, “Salteadores da Arca Perdida”, a série televisiva “Ilha da Fantasia” e “Feitiço Havaiano” que lançou Elvis Presley para um prolífico estrelato, entre outros.

Esta presença regular nos ecrãs constitui há muito a prova mais mediática de como o tempo só favoreceu Kauai.