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Emma, Juliet e Jimmy

Emma, Juliet e Jimmy

Três amigos e colegas de Taiwan junto a uma das residências universitárias de Melbourne.

Melbourne, Austrália

Austrália "Asienada"

Capital cultural aussie, Melbourne também é frequentemente eleita a cidade com melhor qualidade de vida do Mundo. Quase um milhão de emigrantes orientais aproveitaram este acolhimento imaculado.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


A Austrália, e Melbourne, em particular, tornaram-se destinos eleitos para a aprendizagem da cada vez mais indispensável língua inglesa. Conscientes da urgência dessa e de outras oportunidades, muitas vezes dotados de bolsas e subsídios dos seus estados, jovens chineses, taiwaneses, filipinos, vietnamitas, japoneses e coreanos afluem ao sul do país, adaptam-se entre compatriotas e vivem em pleno as suas novas vidas ozzies.

Visitantes ocidentais como nós começam por estranhar mas, com o tempo, habituam-se ao inesperado desvio étnico. Alguns, inspiram-se inclusive nele.

Quando entramos na futurista Federation Square, Scott, um saltimbanco americano em digressão pela Oceânia, inicia o seu número de malabarismo cómico com um sarcástico: “Olá pessoal, é maravilhoso estar de volta à Australásia. Por falar em Ásia, estou a ver que vocês chineses também se estão a multiplicar bem por aqui!”.

Não são só os chineses. Bem contabilizados, os asiáticos já perfazem mais de 800.000, 20% da população de Melbourne.

Num qualquer dia de semana, esta praça emblemática exibe uma espécie de erupção de aço, vidro e geometria abstracta. Funciona como um ponto de encontro privilegiado e promove a grande diversidade étnica da cidade.

É logo ali ao lado que encontramos a sua veia fluvial, o rio Yarra que estabelece outro marco simbólico da colonização da Austrália. O Yarra foi importante para os aborígenes Wurundjeri, Boonwurrung e Wathaurong que o conheciam como o rio que “corre para sempre”. Hoje, à medida que os candeeiros de beira-rio aquecem o lusco-fusco, as esplanadas da sua promenade enchem-se das gentes recém-libertadas dos empregos. Tal como apreciamos quase uma hora a fio, o Yarra é percorrido por equipas de remo determinadas, à boa maneira de Oxford ou Cambridge. Também divide Melbourne em termos geográficos e sociais.

“Atravessar o rio” é uma expressão a que os moradores recorrem com frequência e que traduz a cisão que existe entre as zonas da classe trabalhadora da margem norte – Fitz Roy, Collingwood, Carlton e Brunswick e as aristocratas da sul – Saint Kilda e Prahan.  Real como as de outras metrópoles, a rivalidade tem repercussões dramáticas e alguns habitantes destes bairros passam meses sem visitar o outro lado.

Os que chegaram com origem asiática, esses, na sua maioria tentam proliferar nos subúrbios mais distantes.  Lutam pelo êxito, com maior concentração no sudeste da cidade e, alguns deles, negócios da China na Chinatown, formada a partir de 1850, no dealbar da emigração para a grande ilha suscitada pela febre do ouro de Victoria. 

Por essa altura, em simultâneo com os mineiros de olhos amendoados, chegaram investidores em bordeis, salões de ópio, pensões e ervanárias. Hoje, como em tantos outros por esse mundo fora, o bairro é dominado por incontáveis restaurantes com patos tostados pendurados no exterior. Retém uma atmosfera semi-salobre para os padrões de esterilidade do centro sofisticado de Melbourne.

Durante o dia, os espaços verdes anexos de Birrarung Marr e dos Alexandra e Queen Victoria Gardens são autênticos recreios em que Melbourne faz a sua fotossíntese. Depois, com o anoitecer, é a SouthBank Promenade que se anima em estilo. Quando os remadores se afastam e nenhum barco sulca as águas do Yarra, o espelho de água  recompõe-se e oferece-nos o reflexo colorido da Flinders Station e do seu influente business district. Impõem-se no coração financeiro da Austrália a Eureka Tower, quatro outros dos seis edifícios mais altos da nação, e também cinco das suas maiores companhias em termos de capitalização bolsista: o banco ANZ, a BHP Billiton (a companhia mineira número um do mundo) e a concorrente Rio Tinto, o National Bank of Australia e a empresa de comunicações Telstra.

Nem todos os Melbornianos conquistaram as fortunas dos proprietários e gestores de topo destas empresas mas, ainda assim, a maior parte viu e vê uma espécie de Australian Dream tornar-se realidade. Vivendas com quintais criteriosamente ajardinados ou cultivados e, aqui e ali, próximos do acre “prometido” (cerca de mil metros quadrados) ocupam grandes extensões dos arredores e definem uma outra deliciosa paisagem urbana. A qualidade de vida que proporcionam, feita de sucessivos momentos ao ar livre – leitura, churrascos, desporto etc - é invejável e contribui para que Melbourne seja frequentemente classificada entre as cinco cidades mais acolhedoras do mundo.

Os emigrantes asiáticos aproveitam a hospitalidade o mais que podem. E os acabados de se instalar com ambições desmedidas de sucesso académico e empresarial tendem a apaixonar-se pelo ambiente ecléctico da cidade.

Passeamos pela Swanston Street e passamos em frente à Biblioteca Estatal imponente de Victoria. Não fosse a arquitectura vitoriana e seríamos iludidos a pensar que estávamos numa qualquer praça nova de Hong Kong ou Taipé, tal é a quantidade de adolescentes orientais a usufruir da meteorologia favorável no jardim em frente. No interior, o cenário repete-se nas salas de leitura majestosas de La Trobe e Dome. Mais tarde, quando tentamos fotografar alguém com visual inequivocamente aussie numa outra zona da cidade, desesperamos e acabamos a abordar também jovens asiáticos, a maior parte deles tímidos mas voluntariosos.

Mia e Tony formam um casal esguio e elegante, orgulhoso das suas imagens modernas. Vindos de Xangai, já viviam na capital de Victoria havia algum tempo mas o seu inglês continuava algo limitado. Emma, Juliet e Jimmy, três amigos de Taiwan regressavam da universidade e expressavam-se na língua também aussie com bastante mais à vontade. Tinham planos partilhados de se fixarem e ali formar famílias. “A Austrália é a Austrália, confessa-nos Juliet. E Melbourne é uma Austrália muito especial. Já devem ter reparado!”.

A “asianação” da grande ilha e de Melbourne, em específico colhe reacções díspares, raramente a indiferença. É frequente ouvir-se de habitantes com mais idade o discurso da “Velha Pátria Aussie” em que toda a população era solidária e não padecia do individualismo e compartimentação étnica que muitos consideram minar, hoje, a alma da nação.

Mas também se tornaram famosas opiniões como as do jornalista George Megalogenis: “a contemplação do umbigo australiano sobre se o boom mineiro terminou ou simplesmente decaiu, faz-nos ignorar o aspecto mais importante: o nosso futuro na Ásia é o da melhor nação de imigração...Mas, para o provar, precisamos de mais chineses e indianos que queiram radicar-se de um lado ao outro do país. Não menos.”

Até a nível desportivo, a Austrália tem precisado dos asiáticos para ultrapassar a sua solidão geográfica e desolação geológica, Desde 1950 que requeria repetidamente à FIFA que fosse incluída na Confederação Asiática de Futebol. O pedido foi concedido em 2005.