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Frígida pequenez

Frígida pequenez

Passageiros abordam o enorme quebra-gelo "Sampo" sobre a superfícies gelada do Golfo de Bótnia.

Kemi, Finlândia

Não é Nenhum "Barco do Amor" mas Quebra Gelo desde 1961

Construído para manter vias navegáveis sob o Inverno árctico mais extremo, o “Sampo” cumpriu a sua missão entre a Finlândia e a Suécia durante 30 anos. Em 1988, reformou-se e dedicou-se a viagens mais curtas que permitem aos passageiros flutuar num canal recém-aberto do Golfo de Bótnia, dentro de fatos que, mais que especiais, parecem espaciais.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Andamos já bem fora do território tradicional que o povo Sami ocupa na Finlândia mas, por razões que a razão desconhece, é Sami o nome dos dois guias que nos vêm buscar ao Merihovi. Desde o fim do curto dia anterior que estamos instalados neste hotel revivalista dos anos 50, no centro de Kemi.

Em termos cénicos, Kemi não corta a respiração a ninguém. Também não é uma cidade finlandesa qualquer. Fica no píncaro do Golfo de Bótnia, junto ao único lugar onde a Suécia e a nação suomi se encontram à beira-mar, umas meras centenas de quilómetros a sul do Círculo Polar Árctico.

Kemi é industrial de uma forma subtil, com o valor acrescido do seu porto de águas profundas, precioso nestas latitudes tanto tempo geladas. O porto de pouco serviria se os metros superiores do mar ao largo se mantivessem sólidos durante o longo Inverno. Foi aí e por isso que uma das duas principais atracções de Kemi, o quebra-gelo “Sampo”, entrou nas histórias, na da Finlândia e na nossa.

“Estão prontos? Trouxeram tudo?” inquirem-nos os Samis? Achávamos que sim. “Já alguma vez andaram de mota de neve?” Era a terceira vez que explorávamos partes distintas desta região setentrional da Finlândia. Em todas elas tínhamos tido essa oportunidade. “Óptimo! Assim poupam-nos algum tempo de briefing e instruções até porque, não é nada de grave, mas já vamos com um pouco de atraso.”

Vinte minutos depois, chegamos à doca semi-gelada de Kemi, e às imediações da sua outra grande curiosidade, o grande castelo de gelo de Lumilinna. Ali, uma trupe de forasteiros orientais divertia-se a fazer palhaçadas sobre a neve, e a filmá-las com o monumento em fundo. À boa maneira austera e pragmática finlandesa, um dos Samis interrompe a diversão. Havia que pôr em marcha o programa da manhã e as motas. E a sua prioridade não tinha recurso.

De um momento para o outro, de admiradores espantados daquela imensidão glacial do Golfo de Bótnia, passamos a percorrê-la em caravana e a grande velocidade.

Avançamos uns bons quinze quilómetros sobre o mar gelado. E, regressados à terra pouco ou nada distinguível, por um caminho de litoral sinuoso, entre arbustos e espruces, alguns deles, transformados em elegantes candelabros naturais pela algidez compactadora da noite.

Os motoqueiros boreais à nossa frente detêm-se. Estacionam as motas à entrada de uma propriedade com três grandes tendas cónicas cobertas de neve e um curral aberto que, por essa altura, encerrava apenas três ou quatro renas. Dois criadores de gado lapões surgem do meio das tendas para nos acolher. Vestem trajes a condizer com a condição. Reino Niemela e Jani Lammi, assim se chamam, convidam-nos a entrar para a tenda mais alta e que mais se assemelhava a um tipi dos indígenas norte-americanos. Mais feliz a lidar com as famílias e com as renas que com forasteiros que pouco lhes diziam, a dupla cumpre o seu papel com uma frieza condizente com a do clima. Para compensar, recuperam o vigor da fogueira no centro da tenda e servem-nos café a todos.

Os taiwaneses falam entre si. Nós já nos tínhamos acostumado a puxar pelos mais introvertidos finlandeses. Voltámos a tomar a iniciativa. “Mas vocês são sami?” perguntamos-lhes genuinamente confusos pela aparente semelhança do traje. Reino, o ancião, toma a palavra da forma bem inspirada (de meter ar nos pulmões), pausada, poupada e lenta que caracteriza a fala dos suómi: “Não somos sami, somos Lapões. Cá na Finlândia, Lapões são todos os que, na Lapónia e há várias gerações, têm e criam renas. Não precisam de ser sami. Estamos junto à aldeia de Meri-Lapin. Os samis ficam lá mais para cima.”

O aconchego do calor a lenha, o estímulo do café forte e a conversa com os anfitriões - entretanto, já menos contrariados por estarem contrariados no seu papel - mantiveram-nos embrenhados naquele abafado refúgio sub-árctico.

Não tarda, os Samis de baptismo, voltam a arrebatar o grupo do consolo da tenda para a frieza desumana do exterior. “Vamos rapazes, não há nada de novo em relação à vinda. Só quando nos aproximarmos do “Sampo”, é que eu vou diminuir bastante a velocidade. Façam o mesmo. O barco pode ter deixado algumas falhas. Não queremos cair nelas.”

E aí fomos nós, de novo em caravana. De novo aos esses pelo litoral e, entretanto, em linha recta pela vasta auto-estrada gelada de Bótnia.

O céu mantinha-se de um branco arroxeado. Emulava a superfície terreste e tornava a comitiva ainda mais insignificante naquele insondável tudo ou nada.

Vencidos vinte minutos e umas dezenas quilómetros, detectamos um vulto negro no horizonte. Quando nos aproximamos, confirmamos o esperado “Sampo”. Detemos as motas a uns cem metros, e cumpridas as apresentações. subimos para o convés pelo portaló de serviço.

Por essa altura, o barco já tinha a bordo dezenas de passageiros embarcados no ponto de partida original, nas imediações de Kemi. Atrás de si, bem demarcado, o canal que abrira para ali chegar, estava repleto de pequenos blocos de gelo que aumentavam e se reforçavam à medida que o tempo passava.

Não tarda, o “Sampo” retoma a sua navegação Golfo de Bótnia adentro, sempre a abrir o gelo bem compacto, e a prolongar o canal que até então formara.

Rafaello, um italiano que trabalhava no navio havia muitos anos apresenta-se da forma calorosa e sedutora que forra a alma de quase todos os latinos. Conduz-nos num périplo pelos recantos mais curiosos do barco e regala-nos com informações a condizer. “Sabem que o “Sampo” tem 76 metros de comprimento mas pesa três vezes mais que um navio de passageiros do mesmo tamanho. Porquê? Porque para quebrar o gelo tem que ser bem mais pesado. Logo por altura da construção, à parte de receber um casco híper-reforçado, foram-lhe adicionadas 100 toneladas de água para permitir que fizesse o seu trabalho. Engraçado não é?”

Quase tudo era engraçado ali a bordo. A começar por ser um italiano a guiar, em inglês, passageiros portugueses de um quebra-gelo finlandês. Depois, tínhamos vindo de uns dias na ilha de Hailuoto, próxima de uma cidade mais para sul, Oulu. Pois, em Hailuoto, um dos nossos cicerones de uma quinta local também se chamava Sampo. Quando estranhamos a abundância do nome e investigamos, damos connosco numa viagem vertiginosa nos domínios da mitologia finlandesa.

Segundo esta, Sampo era um artefacto mágico de tipo indeterminado que beneficiava quem o possuía com boa-sorte e riqueza. Fora construído por Ilmarinem, um deus ferreiro e marteleiro, eterno artífice e inventor por excelência na “Kalevala”. Ora, a “Kalevala”, por sua vez, é o respeitado poema épico nacional que compila o folclore e a mitologia oral finlandesa e da região da Karelia, que a Finlândia viu, em boa parte, perdida para a U.R.S.S., após a Guerra de Inverno entre os dois estados.

Não terá sido coincidência que o nome desse tal artefacto mitológico tenha sido atribuído à embarcação poderosa em que seguíamos. Para começar, ao longo dos tempos, o Sampo mitológico foi interpretado de todas as maneiras e feitios, de pilar ou árvore do mundo, compasso, astrolábio, arca com tesouro, moeda Bizantina, escudo do período sueco Vendel (prévio à Era Viquingue), relíquia cristã, entre outros. Com tal abundância de hipóteses, porque não um quebra-gelo. Na época em que operava na sua plenitude, aquela peculiar geringonça marinha provou-se milagrosa para inúmeras companhias de navegação, empresas exportadoras e importadoras e, claro está, para os habitantes dos dois lados do Golfo de Bótnia.

E como nos deliciamos, a partir da proa, a vê-la quebrar o gelo por diante, se bem que respeitosa para com os resultados das medições da sua espessura feitas e comunicadas ao comandante de tempos a tempos por um tripulante. O barco vivia já a sua velhice. Tratava-se apenas de bom-senso evitar que se metesse em áreas demasiado desafiantes.

Este mesmo “Sampo” agora também cruzeiro de Inverno foi construído entre 1960 e 1961, em Helsínquia para suceder a um outro quebra-gelo homónimo que operou entre 1898 e 1960, o primeiro na Europa com propulsores tanto na proa como na popa.

O “Sampo” substituto que nos transportava manteve faixas navegáveis no extremo norte do Golfo de Bótnia durante quase trinta anos. Desgastado pelo tempo de uso e ultrapassado pela evolução tecnológica, foi comprado pela cidade de Kemi por cerca de 167 mil euros.

Nesse mesmo ano, sem ter sequer começado a operar, o Finnish Tourism Board considerou-o o Melhor Producto Turístico da Finlândia. Em 1988, começou a sua carreira de shuttles turísticos, no mesmo itinerário e “programa de festas” que desfrutávamos. Como quebra-gelo inveterado que se assumia, imobilizava-se durante o Verão árctico, quando em dias de bonança, até barcos insufláveis navegam o Golfo de Bótnia.

Várias milhas náuticas depois, já a maior parte dos passageiros tinham vasculhado o barco e, muitos deles, almoçado a bordo. O “Sampo” voltou a deter-se. Há muito que o navio triturava e abria o gelo sob o seu casco. Estava na hora de os passageiros se banharem na “piscina” assim criada.

Um outro tripulante aborda-nos. Prenda-nos com fatos de mergulho vermelhos integrais e luvas a condizer com os nossos tamanhos. “Apertem tudo bem, não deixem folgas. Se por alguma aselhice deixam alguma desta água entrar, acreditem que é bem pior que o esquentador lá de casa parar de funcionar.” Nas outras tais viagens pela Lapónia Finlandesa, tínhamos mergulhado sem fatos nos quase sagrados avantos suómi, as aberturas que os finlandeses criam em rios ou lagos gelados e em que mergulham após algum tempo de molho nas saunas. Estávamos, assim, algo intrigados quanto ao porquê da obrigatoriedade do seu uso. Não demoraríamos a agradece-la.

Já equipados em estilo de astronautas de calota polar marciana, descemos o portaló e abeirámo-nos do curso aberto pelo navio. Rafaello, dá-nos um OK, e descemos não com um simples mergulho estimulante, como acontecia nos avantos mas devagar devagarinho e com cuidado a condizer.

Os fragmentos de gelo abundavam também naquela secção do canal. Aos 23º negativos que se faziam sentir, renovavam-se e aumentavam de tamanho em contínuo. A tripulação não tinha como os conter ou afastar. Os fatos espessos que nos transformavam em desenhos animados, serviam não só como protecção térmica como de acolchoamento contra as arestas cortantes de tais mini-icebergs.

Assim sendo, divertimo-nos a fazer aquilo que os trajes nos permitiam fazer: flutuar - de preferência de barriga para cima - praticar curtas natações geriátricas e pedirmos para nos registarem o momento que, a cada segundo que passava, para lá de singular, se provava mais idiótico.

Por sorte, a equipa de TV de Taiwan, não esperou que saíssemos para entrar em cena. A produzir conteúdos de um teor assumidamente burlesco, tratou de dar seguimento ao nosso ensaio com personagens especializadas no género.

Com todos os passageiros de novo a bordo, o navio inverteu marcha rumo a Kemi. À chegada, já desembarcados, ainda ficámos uma boa meia-hora sobre o Golfo de Bótnia gelado a circundar e a fotografar aquele quebra-gelo terreno, mesmo real, com o seu quê de mítico, na Finlândia.