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Pico Rosa

Nuvem cogumelo rosada pelo ocaso envolve o cume do Pico, 

Pico, Açores

Com o Atlântico aos Pés

Por um mero capricho vulcânico, o mais jovem retalho açoriano projecta-se no apogeu de rocha e lava do território português. O Pico é a sua montanha aguçada mas não só. É um testemunho da resiliência e do engenho dos açorianos que domaram esta deslumbrante ilha e o oceano em redor. 

Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)

Pouco passa das três da manhã quando Mónica Mota, da Épico nos dá o sinal de partida. Daí em diante, durante mais de três horas, guiados pela experiência da guia e à luz dos frontais, serpenteámos encosta acima. Subimos ora firmes ora a escorregarmos na gravilha de lava que, aqui e ali, cobria o trilho. De mochilas mais pesadas do que desejávamos às costas, os passos depressa se começaram a tornar dolorosos. Disfarçámos o desconforto e o muito esforço que faltava a falarmos de tudo o que nos lembrávamos. Só conhecíamos a Mónica desde há uns passos pelo que, temas de conversa, como, felizmente, fôlego e forças, nunca nos faltaram.

O trilho ideal é assinalado por marcadores numerados. São 45 até ao topo. De início, temos a sensação que se sucedem num ápice. Aos poucos, a sua contagem parece quantificar de igual modo o grau de inquietação pelo que subsiste até pormos os olhos no derradeiro. “Os primeiros estão mais separados.” afiança-nos Mónica no seu tom dócil e tranquilizante.

Sem queremos parecer tradicionalistas, devemos confessar que não esperávamos nem uma guia, nem uma guia assim. Já tínhamos ascendido a outras montanhas mais altas mas, subir ao Pico de noite, dolorosamente acima dos 2300 metros, por onde passam tempestades inclementes parecia-nos missão de um homem, de preferência militar. Apesar da sua face branca abonecada e rosada, da aparência frágil, Mónica revelou-se disciplinada e resistente como os mais inquebráveis comandos.

Chegamos à entrada da grande cratera com névoa densa trazida por um vento desvairado que nos atirava com uma chuva gélida e cortante. Foi sob este massacre meteorológico que vencemos os derradeiros metros ao cume supremo do Piquinho e lá nos instalámos à espera da alvorada.

O sol nasceu. Mas brotou por detrás de um manto denso de nuvens que pouco ou nada se coloriram. Mantivemo-nos o mais abrigados possível das rajadas atrás de umas rochas e sobre uma fumarola que nos aliviava de um crescente torpor.

Esperámos. Sem condições para fotografar, desesperámos e decidimos descer de volta à grande cratera. Abrigámo-nos da intempérie numa cova de lava a que os guias chamaram de hotel. Trocámos alguma roupa, bebemos bebidas quentes e recuperámos energias para o regresso. Quando saíamos da toca, as nuvens davam lugar a um sol radioso. Tínhamos sido os únicos a subir de noite e demorámo-nos no cume. Por aquela hora, com o sol já bem acima do horizonte, chegavam as primeiras pessoas que tinham partido ao amanhecer. Renato, um guia que está prestes a cumprir as suas duas mil subidas ao Piquinho, confraternizou por momentos com Mónica e incitou-nos a lá regressarmos.

De novo naquele topo excêntrico de Portugal, o grande astro aquecia-nos e às vistas. Concedeu-nos, por fim, o deslumbre que tínhamos feito por merecer: a toda a volta, os retalhos verdes das terras mais baixas do Pico e o azul-escuro do Atlântico a nossos pés; do lado de lá do canal, a silhueta familiar do Faial, os cenários sobrevoados e ensombrados por umas poucas nuvens velozes que, ainda assim, se tinham deixado tresmalhar.

Como é habitual nestas lides montanheiras, o retorno ao sopé da encosta provou-se tão castigador como a ascensão. Só que o breu dera lugar a paisagens comoventes. Outras nuvens, estas rasteiras, também jogavam às sombras com a lava negra-prata envolvente e com os prados ondulantes a que ansiávamos voltar.

Entretidos com aquele festim dos sentidos e com as incontáveis paragens para contemplarmos e fotografarmos, perdemo-nos no tempo. Estávamos prestes a entrar na Casa da Montanha que marcava o término da aventura quando Mónica nos chamou à realidade.  “Sabem que horas são?” perguntou-nos. “São outra vez três; três... da tarde. Vocês bateram todos os recordes, nunca me tinha demorado tanto lá em cima”. Não fazíamos a mínima ideia. O que sabíamos era que a jornada que ali completávamos se confirmava inolvidável. Sentiríamos para sempre orgulho em a termos terminado e em podermos testemunhar a beleza e a imponência da montanha do Pico.

Ao pé das restantes ilhas dos Açores, a ilha do Pico é recém-nascida. A “data” da sua formação suscitou um aceso debate assente numa amplitude temporal que vai desde há 250.000 anos até ao milhão e meio ou dois milhões de anos.

O tema apaixona de igual maneira alguns jovens do Núcleo Picoense da associação “Os Montanheiros” que estudam a Gruta das Torres, o maior tubo lávico até agora descoberto nos Açores, com mais de 5 km de extensão. Já tínhamos conquistado o tecto de todo o Portugal. Pareceu-nos justo descermos às suas profundezas. Embrenhámo-nos na gruta e seguimos os passos do guia Luís Freitas e de colegas que, de lanternas em riste, nos mostraram as distintas formações deixadas pelo arrefecimento da lava corrente, com nomes provindos de onde o fenómeno ainda abunda, o Havai. Admirámos as marcas da lava ‘a ‘a e pahoehoe e uma série de outros caprichos geológicos milenares.

De volta à superfície, dedicámo-nos ao mais improvável produto do vulcanismo da ilha: as vinhas que os prodigiosos picoenses lá fizeram proliferar.

Os primeiros colonos instalaram-se no Pico na segunda metade do século XV, crê-se que depois de terem deixado manadas de gado ainda na primeira metade. Provinham, em grande parte, do norte de Portugal e chegaram via Terceira e Graciosa, ilhas em que se tinham antes fixado. Numa primeira fase, proliferar no Pico pareceu-lhes uma missão complicada. Com o tempo, o cultivo de trigo provou-se viável e o reforço da produção de pastel-dos-tintureiros e de outras plantas usadas na produção de tintas e corantes então exportadas para a Flandres facilitou o assentamento primeiro nas Lajes, logo em São Roque. À altura, muitos dos terratenentes açorianos residentes na Horta que já produziam vinhos no Faial e noutras ilhas, tornaram-se proprietários de parcelas consideráveis do Pico.

Crê-se que foi um franciscano conhecido por Frei Pedro Gigante quem lá cravou as primeiras vinhas da casta Verdelho, com origem mediterrânica mas, naquele caso, quase de certeza trazidas da Madeira. No fim do século XVI, o Pico produzia vinho em quantidade e considerado melhor do que o das restantes ilhas. De tal maneira que, uns anos depois, vários proprietários alastraram a sua produção na zona ocidental, em redor da maior cidade da ilha, Madalena, a povoação mais próxima do Faial em que aportámos oriundos da Horta.

As vinhas do ocidente do Pico tomaram quase toda a área do Lajido de Santa Luzia e da Criação Velha, esta, uma área próxima de Madalena antes dedicada à pecuária. Enquanto descemos da Gruta das Torres, situada a 235 metros acima do mar, pouco tardam a aparecer. Os seus microfúndios (2 por 6 metros) delimitados e protegidos do vento e da névoa marinha por incontáveis muros de pedras basálticas repetem-se encosta abaixo até quase à beira do Atlântico.

No interior destas pequenas estufas vulcânicas a que os produtores chamaram “currais” despontam há séculos os bacelos e as cepas da felicidade.

O cultivo do verdelho maturou dois séculos a fio e a produção atingiu as 30.000 pipas anuais. Como o Madeira, o vinho licoroso branco seco local tornou-se a maior fonte de rendimento do Pico e do Faial. Garantiu a prosperidade de várias famílias que ergueram grandes solares e neles se instalaram para supervisionar a produção e a exportação. O vinho do Pico chegou ao Norte da Europa, ao Brasil, às Índias Ocidentais, à Terra Nova e aos Estados Unidos. Entre os seus mais poderosos apreciadores contavam-se os Papas e os Czares da Rússia.

Subimos a um dos moinhos que os ilhéus ergueram para mecanizar a moagem do milho e do trigo. Do seu alpendre vermelho, admiramos a vastidão da Criação Velha, então bem mais cinzenta que verde. Percorrem-na canadas (caminhos) paralelas. E, à longa canada de chão ocre que vinha da beira-mar e passava pela base do moinho, uma senhora só a empurrar um carrinho de bebé, ínfima na vastidão retalhada em redor.

Também espreitamos a pequena loja instalada aquém do velho engenho do moinho e ficamos à fala com Paula – que tomava conta do negócio – e do filho Diniz. De tudo o que tinha à venda, atraíram-nos de imediato os sacos de uvas. A vindima terminara fazia um mês. Seriam das poucas uvas do Pico que teríamos a sorte de provar. Mas, bastaram dois ou três bagos para percebermos que não eram propriamente verdelho. Sabiam-nos a morangueiro. O mesmo morangueiro abundante na região que nos é familiar de Lafões.

“São mesmo as últimas. As últimas deste ano e, deste tipo, que alguma vez teremos. O meu pai está prestes a trocar as nossas vinhas. O governo regional paga para mudarmos para castas de qualidade. Vamos aproveitar.”

Nos tempos idos de glória e proveito vinícola, os produtores do Pico passaram por momentos problemáticos e não tiveram quem os amparasse. Corria 1852. Uma praga de oídio devastou as vinhas e a produção. Para evitar morrer à fome, o povo cultivou milho, batata e inhame. Terras férteis e ervadas nunca faltaram. Testemunhámo-lo quando subimos das Lajes do Pico para as terras altas que explorámos até ao Miradouro do Cabeço do Geraldo e para leste, entre pastos sem fim, à boa maneira açoriana, salpicados por distintos tipos de vacas.

Decorridos 20 anos, Isabel, uma outra variedade mais resistente às pragas substituiu a verdelha mas a filoxera que grassava por toda a Europa destruiu as novas videiras. Milhares de produtores emigraram para o Brasil e para a América do Norte. Os que ficaram, conseguiram controlar a filoxera. Apostaram em manter as videiras Isabel e, em certas bolsas ideais para a vinicultura, a verdelha que gerava o melhor vinho. Mesmo assim, a produção tardava em recuperar do rombo das pragas.

Neste contexto, no fim do século XVIII, baleeiros americanos marcaram presença nas águas ao largo e introduziram a caça à baleia. Essa nova actividade económica manteve-se a indústria primordial do Pico até 1970. Por essa altura, entrou em acção o Plano de Reconversão Vitivinícola dos Açores. Foram introduzidas novas castas ideais para vinhos de mesa e recuperadas as vinhas com castas mais nobres: Verdelho dos Açores, Arinto e o Terrantez do Pico. Pouco tempo depois, os vinhos do Pico voltaram ao estrelato. Em 2004, a UNESCO classificou a Paisagem Protegida dos Vinhos do Pico como Património Mundial. Esta distinção contribuiu para realçar o exotismo geológico e cultural da ilha. Hoje, o Pico destaca-se bem alto sobre o Atlântico do Norte. À imagem do que tem acontecido aos Açores em geral, a sua fama tem-se propagado pelo mundo.

 

Artigo criado com o apoio das seguintes entidades:

 

VisitAzores

visitazores.com

Épico

epico.pt

Azores Airlines

www.azoresairlines.pt/pt-pt

SATA

sata.pt

Aldeia da Fonte

aldeiadafonte.com