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Pedaço de Maldivas

Pedaço de Maldivas

Um grande recife de coral visto de um dos muitos hidroaviões que sobrevoam o país. 

Maldivas

De Atol em Atol

Trazido de Fiji para navegar nas Maldivas, o Princess Yasawa adaptou-se bem aos novos mares. Por norma, bastam um ou dois dias de itinerário, para a genuinidade e o deleite da vida a bordo virem à tona.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


A visão do Yasawa Princess atracado nas imediações da ilha de Villingily não tarda. O dhoni encosta-se-lhe suavemente. Permite-nos passar à escadaria de acesso e, logo, ao convés, onde nos instalamos. Como era esperado, o jantar comunal ao pôr-do-sol serve de quebra-gelo e a conversa à mesa entra em piloto-automático.

Alguns dos passageiros já repetiam a dose do Yasawa. Pelo meio, esses e outros tinham experimentado barcos e cruzeiros alternativos. Depressa perceberam que nenhum lhes concedia o à vontade e o bem-estar do Yasawa Princess. Regressaram e serviam agora de conselheiros para as dúvidas que os estreantes manifestavam. Por volta das nove da noite, o jet lag e o cansaço começaram a apoderar-se de vários deles, provenientes da Grã-Bretanha, do norte de Itália ou de Chipre.

Nós, tínhamos chegado dali do lado, da capital cingalesa Colombo. Mesmo assim, o sobresforço em que havíamos vívido as semanas de exploração do Sri Lanka, faziam com que nos sentíssemos igual ou pior. De acordo, por volta, das dez da noite, a ondulação suave do atol de Kaafu já nos embalava a todos.

Despertamos bem depois do nascer do sol mas a tempo de um pequeno-almoço partilhado entre os passageiros ainda ensonados. Era suposto o Yasawa já navegar desde a alvorada. Um problema de motor atrasara a partida e obriga-nos a mudar a primeira escala. Em vez da ilha de Kuda Bandos, levam-nos a uma língua de areia perdida entre atóis que parece flutuar num mar azul-turquesa.

Os mergulhadores são os primeiros a explorarem uma área de recife mais longínqua. A nós, conduzem-nos de lancha ao limite do recife que envolvia o banco de areia, um maravilhoso mundo subaquático que desvendamos durante quase uma hora em modo de snorkeling aventureiro. De cada vez que encontrávamos formações de corais atractivas, cardumes de peixes garridos ou espécimes mais fascinantes, fazíamos uma outra incursão a maior profundidade até que a pressão nos fustigava os tímpanos e nos víamos forçados a emergir. Ali, entre grandes peixes-papagaio e trompeta, envoltos de cardumes de incontáveis exemplares garridos e ínfimos, olhados de soslaio por moreias, tartarugas e tubarões de recife, deliciámo-nos com a incrível exuberância do oceano Índico.  

Ao mesmo tempo que a exaustão se começava a instalar, também o paredão de coral se esgotava. Recolhemos, assim, à terra pouco firme do banco de areia, hidratámo-nos e reaquecemo-nos sob o sol escaldante daquela latitude equatorial.

Nos primeiros dias, o problema de motor manteve parte da tripulação atrapalhada e de olhos postos em Malé, de onde, a correr tudo bem, chegaria a solução. Mas o barco tinha outro motor. No mar liso dos atóis ou entre atóis maldivianos, era suficiente para continuarmos a navegar e a visitar outros bancos de areia tão ou mais aliciantes. Nessas ocasiões, guiava-nos o R.P.

Por essa altura, apesar das diferenças de idades e do predomínio britânico, já praticamente todos passageiros se davam entre si e começavam a conhecer a tripulação multinacional. Havia Issey (Ismail Faysal), o proprietário maldiviano do barco, dono de um riso infanto-juvenil que nos deliciava. Apoiava-o o seu braço direito, Faya, também ele maldiviano que connosco lidava em permanência, sempre de sorriso nos lábios quer portasse boas-notícias quer as tivesse más, estas, por norma, relacionadas com o encrencado motor.

Faya tinha uma grande teia de aranha tatuadas nas costas. Usava uma licra de mergulho inspirada no homem-aranha. “Faya, essa paixão por aranhas vem de onde?” perguntamos-lhe quando regressava de um mergulho no mar delicioso. Ao que o maldiviano responde e nos surpreende: “Já as admirava há muito tempo. Entretanto, fui ver o “Homem-Aranha”. Fiquei a gostar ainda mais.”

O sempre sereno comandante Ahmed Mohamed também não se esquivava às explicações. Era igualmente das Maldivas, como o era o barman e DJ Diggy Digs.

Já o prestável cozinheiro, tinha origem em Colombo, a capital do Sri Lanka. Refeição após refeição, socorreu-se de uma paciência de guru para suportar a pergunta com que todos convivas ocidentais o massacravam: “isto é picante chefe? E isto aqui?”.

Vários outros tripulantes tinham como origem o Sri Lanka, a Índia ou o Bangladesh. Os que haviam trabalhado antes nas Maldivas já falavam um bom maldiviano, língua que combina elementos cingaleses e árabes. Noutros casos, a tripulação recorria ao sempre conveniente inglês.

A navegação evoluiu. Passámos para o atol Maafushi e detivémo-nos para novos banhos na ilha privada do resort Rannalhi.

Donald Trump ganhou as eleições presidenciais dos E.U.A. e reclamou boa parte das conversas a bordo. Nesse e noutros dias, os passageiros participaram em pescarias nocturnas a bordo do Dolphin, um dos barcos de apoio, ou a partir da popa do Yasawa Princess. Além de suscitarem festejos exuberantes, os espécimes pescados foram oferecidos ao cozinheiro que assim pôde diversificar a oferta do buffet.

Avançámos do atol Maafushi para o Felidhoo, dois dos vinte e seis das Maldivas. Entre novas doses de mergulho e snorkeling, fomos prendados pela terra-firme de uma ilha-churrasco cercada por coqueiros e por um novo recife tão ou mais exuberante que os anteriores.

Habitavam essa pequena ilha alguns bangladeshis que nela permaneciam por longos períodos, com o único propósito de acolherem visitantes de resorts, pousadas ou passageiros de cruzeiros. Tinham inclusive a sua própria mini-mesquita identificada com um crescente rabiscado na parede. Durante o tempo que passámos nesta ilha, recorreram ao seu refúgio religioso por duas vezes em que entoaram cânticos muçulmanos e oraram.

Por essa altura, fazer nada de nada e ver as mãos encarquilharem aos poucos das horas que passávamos à conversa dentro do mar eram já as actividades oficiais do cruzeiro. Dedicámos-lhe boa parte de uma das tardes, na companhia de Georgio e Juliana, um casal italo-romeno que vivia em Londres. Os dois descobriram uma rocha submersa que não demorámos a classificar de extraterrestre. Com a água pouco acima dos joelhos, dedicámo-nos a estudar o estranho comportamento dos peixes que se tinham instalado em redor e a conjecturar explicações disparatadas. Só colocámos um fim na brincadeira, quando Juliana nos confessou que adorava ser fotografada e lhe dedicámos a ela e a Geórgio uma produção fotográfica improvisada. 

À tarde, após o almoço, juntámo-nos a uma longa conversa de Giorgio com o comandante, deitados no areal de giz, à sombra clemente dos coqueiros. Ahmed Mohamed descreveu-nos algumas das suas experiências de navegação e voltou a abordar a facilidade com que se compram ilhas e atóis nas Maldivas: “Georgio, é como já te tinha dito. Com 100 mil euros arranjo-te uma ilha fabulosa!”.  Também abordámos a vivência do tsunami de 2004 naquele arquipélago do Índico e o mistério do voo MH-370 que vários habitantes das suas ilhas afirmaram ter observado a baixa altitude.

Entretanto, Georgio deixou-nos. Suave e volátil, a conversa desviou para o Corão e a Bíblia e de como, pelo menos na sua génese histórica, ambas as obras tinham tanto em comum: Abrãao, Adão e Eva, Jesus Cristo e Maria, para mencionar apenas os protagonistas mais populares.

Voltámos à ilha para jantar. Os tripulantes tinham recreado um grande tubarão-baleia na areia que fez a delícia dos passageiros e introduziu as actividades dos dias seguintes. A noite foi de absoluto delírio. DJ Diggy Digs recorreu a uma playlist em que predominavam sucessos dos anos 70 a 90. Luzes instaladas com capricho, recrearam uma discoteca sobre a areia. A resistência durou pouco. Num instante, invadimos a pista. Dançámos tema atrás de tema até à exaustão, sem abrirmos sequer excepção para os êxitos bollywoodescos que nenhum de nós tinha alguma vez ouvido mas que DJ Diggs nos impingia.

A manhã seguinte regenerou a excitação a bordo. Durante a noite, tínhamos cruzado do atol Felidhoo para o Alifu Dhaluu. Estávamos ao largo de Maamigli, uma das maiores povoações das Maldivas, rodeada de resorts imponentes e arrojados e ao largo da qual se habituaram a vaguear pequenos cardumes de tubarões-baleia.

Saímos para o mar sob o repto de ajudarmos a tripulação a procurá-los e a verdade é que os avistámos várias vezes. No entanto, de cada vez que saltámos para a água para deles nos aproximarmos, os bichos sumiam-se. Só numa quarta oportunidade, quando já ninguém esperava, vislumbrámos, alguns metros abaixo de nós, um espécime esquivo que nunca se atreveu a vir à tona.

Na derradeira tarde a bordo do Yasawa, tivemos uma incursão recompensadora ao modo de vida maldiviano. Já sobre o pôr-do-sol, a tripulação levou-nos a Maamigli. Subimos do pequeno barco para o cimo do muro que fazia de fronteira entre a povoação e o mar e, na companhia de Georgio e Juliana internamo-nos pelas ruas de terra batida da cidade. Passamos por um grupo de jovens adolescentes que suspendem o seu convívio na penumbra criada por uma grande árvore para nos analisarem como forasteiros que éramos. Prosseguimos pela rua principal. Aos poucos, vencemos a relutância que nos gerava a fama das Maldivas de promover o turismo em inúmeros resorts espalhados pelo seu território insular mas de evitarem a intrusão dos estrangeiros no seu modo de vida muçulmano tradicionalista.

Metemos conversa com quatro ou cinco mulheres de abayas e hijabs que conferenciavam à entrada de uma loja. Em cinco minutos, inspirados por uma das senhoras mais desenvolta, evoluíram de um total desconforto e receio para uma pose de grupo e risada partilhada perante as nossas máquinas fotográficas. Caminhamos em direcção ao sol que se põe no fim da rua. Algumas raparigas divertem-se a jogar netball até que um muezzin inaugura o seu chamamento cantado e lhes anuncia a hora de afluir a casa ou às mesquitas.

Escurece a olhos vistos. Regressamos por ruas mais estreitas paralelas à principal formadas por paredes de casas e por muros compostos de pedra-coral.

Já quase a chegarmos à doca, Juliana detém-se numa loja explorada por dois costureiros bangladeshis. Escolhe tecidos que a atraem e encomenda um vestido que viria buscar na tarde seguinte.

Os rapazes do Yasawa já nos esperavam há bastante tempo e não quisemos abusar. Deixámos a descoberta da vida maldiviana genuína para uns dias depois, em Malé, a sua capital.