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The Rock

The Rock

Panorâmica da ilha de Alcatraz a partir de São Francisco.

São Francisco, E.U.A.

De Volta ao Rochedo

40 anos passados sobre o fim da sua pena, o ex-presídio de Alcatraz recebe mais visitas que nunca.Alguns minutos da sua reclusão explicam porque o imaginário do The Rock arrepiava os piores criminosos


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Poucas prisões no mundo terão tantos pretendentes. Instantes depois de assegurarmos os nossos, os bilhetes permaneciam esgotados, no mínimo, até ao fim do mês seguinte e, quem os conseguia em época alta, era condenado a várias horas sob um sol escaldante na longa fila do Pier 33.

Nos dias que correm, são quase 1.5 milhões, por ano, os passageiros do ferry que parte do Fisherman Wharf de São Francisco em direcção à ilha. Os mesmos que a perscrutam de lés a lés no espaço e no tempo, apoiados por uma banda sonora fidedigna que recria ambientes passados e, cela após cela, narra os episódios dramáticos e curiosos que ali aconteceram.

Nem sempre o Rochedo foi um lugar fascinante. O primeiro europeu a descobri-lo, o espanhol Juan Manuel de Ayala explorava a baía envolvente quando deu com uma ilha inabitada repleta de pelicanos. Pouco entusiasmado, o navegador limitou-se a cartografá-la e, recorrendo ao seu castelhano arcaico, baptizou-a como “La Isla de Los Alcatraces”, do termo árabe al-qatras que definia águia-do-mar.

De 1775 em diante, com excepção para a construção de um farol e algumas trocas de proprietários, nada mudou na ilha. Em redor, pelo contrário, a Califórnia fluiu da coroa espanhola para o recém-declarado território independente mexicano e, logo em seguida, foi comprada pelos Estados Unidos ao México, ao abrigo do Tratado de Guadalupe-Hidalgo que, em 1848, pôs cobro ao conflito entre os dois países.

Coincidência ou talvez não, no ano seguinte desencadeou-se a corrida ao ouro californiano e o exército dos Estados Unidos decidiu fortificar e armar a ilha para defender a baía de São Francisco e as povoações que se delineavam de eventuais incursões.

Mas o inimigo conspirava no seio da nova nação e revelou-se poderoso quando o Sul se opôs ao Norte dando origem, em 1861, à Guerra Civil Americana. Os cento e cinco canhões instalados nunca chegaram a disparar mas foi durante este conflito que Alcatraz funcionou pela primeira vez como prisão quando reteve adeptos e soldados confederados.

A guerra terminou cinco anos depois. As fortificações e a artilharia instalada eram já obsoletas e, apesar dos esforços de modernização, o exército deliberou que a ilha deveria ser usada para detenção em vez de defesa costeira. Em 1907, devido aos estragos provocados noutros presídios pelo terramoto de São Francisco, Alcatraz acolheu os primeiros condenados civis.

O ferry avança contra a maré e, ao longo dos 2.4 km da viagem, deixa perceber o poder das correntes em que as autoridades confiavam como inibidoras de fugas, reforçadas pela temperatura da água e pelos tubarões.

À imagem dos primeiros tempos da história de Alcatraz, o céu é percorrido por bandos de pelicanos alinhados na perfeição. E, formado sobre as águas sub-árcticas do oceano Pacífico, o nevoeiro invade aos poucos a baía de São Francisco, encobrindo primeiro a ilha e, logo, os edifícios mais baixos da metrópole. Após o desembarque, deparamo-nos com uma torre de vigia e, sobre o coração elevado do Rochedo, com a sua enorme prisão de betão que começamos por contornar e em que, só mais tarde, entramos. 

Até 1963, quando foi desactivada, Alcatraz alojou prisioneiros e objectores de consciência de várias guerras e criminosos de todos os tipos incluindo Al Capone e outros sujeitos com má alma e nomes condenáveis. Foram os casos de Robert Franklin Stroud - The Birdman – a quem os seus pássaros fizeram falta - de Alvin “CreepyKarpis” Karpowicz, que se envolvia em constantes lutas e bateu o recorde de permanência na ilha (mais de 26 anos) e George “MachineGun” Kelly que irritava os companheiros por se gabar de crimes que não tinha cometido mas era considerado um prisioneiro modelo.

As autoridades contestam que, durante os 29 anos de operação da penitenciária, ninguém tinha conseguido escapar. Segundo os seus números, foram encetadas 14 tentativas envolvendo 36 homens. Dois deles repetiram o esforço. Vinte e três foram apanhados, seis abatidos e três perdidos no mar e nunca mais encontrados.

Um ano antes do encerramento do presídio, estes três últimos, Frank Morris, John Anglin e o irmão Clarence Anglin protagonizaram uma fuga elaborada com recurso a uma jangada insuflável feita de casacos impermeáveis. Artigos seus, incluindo parte da jangada, foram, mais tarde, detectados na vizinha Angel Island. O relatório oficial declarou que se tinham afogado mas várias teorias, incluindo a do popular programa de TV Mythbusters, defendem que a evasão pode ter sido consumada.

Percorremos os corredores sombrios e uma sequência interminável de celas diminutas e espartanas. Espreitamos também o refeitório, e a sala do vestuário onde foram mantidas peças de roupa e utensílios respeitando a arrumação original. Percebemos, em todas, a complexidade do funcionamento do presídio. E, de acordo, também as razões da sua desactivação.

Feita as contas, por volta de 1962, as pragmáticas autoridades norte-americanas chegaram a uma conclusão elementar. Em Alcatraz, cada prisioneiro custava ao estado dez dólares por dia. Esse valor, superava em muito o de outras prisões, como a de Atlanta, onde se ficava pelos três dólares.

Mas aos prejuízos financeiros juntavam-se os ambientais, cada vez mais contestados. Os esgotos libertavam diariamente na Baía de São Francisco a poluição produzida por 250 prisioneiros e pelas famílias de 60 funcionários residentes.

Nenhum destes problemas se previa em Marion, estado de Illinois, onde, em 1963, foi inaugurada a prisão continental e convencional que substituiu Alcatraz.

IndiansWelcome”. Apesar de gasta, a mensagem pintada a vermelho sobre o cimento intriga os visitantes menos conhecedores e introduz o capítulo seguinte na existência de Alcatraz. A partir do fim de 1969, um grupo de índios norte-americanos de diversas tribos ocupou a ilha reclamando que, antes da invasão dos colonos, era há muito usada como retiro espiritual pela etnia Ohlone. O grupo propôs construir ali um centro educacional, ecológico e cultural nativo e furou um bloqueio da Guarda Costeira para impor a sua vontade. Nos 19 meses seguintes, cerca de 5600 índios norte-americanos reforçaram a ilha ocupada que se provou, de novo, um importante símbolo.

A opinião pública pressionou Richard Nixon a restaurar parte significativa do território nativo dos EUA, bem como a sua auto-governação. Mas os indígenas não se contentaram com a conquista. Desde 1975, realizam em Alcatraz, todas as madrugadas do Dia de Acção de Graças, um contra Dia de Acção de Graças para demonstrar a sua determinação em inverter o curso da história colonial dos EUA. O governo acabou por recuperar o controlo da ilha que  transformou num parque nacional.

Hollywood já vinha a explorar a atmosfera de mistério e drama que a envolvia muito antes de toda esta comoção. Vários êxitos de bilheteira aumentaram a sua popularidade, casos de “Os Fugitivos de Alcatraz” protagonizado por Clint Eastwood e do hiper-produzido “O Rochedo”, com Nicolas Cage e Sean Connery. Assim se explica a atracção actual de milhões de inocentes por esta estranha ex-prisão.