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Pura Nova Zelândia

Pura Nova Zelândia

Ovelhas pastam sobre um prado inclinado da península de Banks, com o estuário de Akaroa em fundo.

Península de Banks, Nova Zelândia

Divinal Estilhaço de Terra

Vista do ar, a mais óbvia protuberância da costa leste da Ilha do Sul parece ter implodido vezes sem conta. Vulcânica mas verdejante e bucólica, a Península de Banks confina na sua geomorfologia de quase roda-dentada a essência da sempre invejável vida neozelandesa.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


As cidades neozelandesas são realmente especiais. Ainda mal deixámos o centro histórico de Christchurch e o verde campestre, seja ou não rural, predomina. Assalta-nos a noção de que em poucos territórios se terão os colonos britânicos sentido tão em casa como neste, descaído nos antípodas. O percurso já pouco ou nada tem de urbano quando vislumbramos, através de um velho gradeamento de jardim, um grupo de jogadores de cricket trajados de branco e polidos e requintados a rigor, à boa maneira aristocrática british. Por si só, o desporto não ia bem nem connosco nem com nenhum latino à face da terra. Mesmo assim, quisemos perceber e testemunhar o que fazia aqueles jovens jogadores levantarem-se tão cedo num sábado de manhã para se entregarem aos seus bats e aos wickets.

Instalámo-nos sobre o relvado quase-perfeito, o mais perto possível do limite da área de jogo em que alguns outros conviviam entre si e com amigas e namoradas, sentados ou deitados com as cabeças sobre os sacos de desporto, de cervejas na mão, à espera da sua vez de entrar em cena. A cada erro mais grosseiro, os de reserva desatam a rir à gargalhada e prendam-nos com uma série de piadas que caiam melhor entre as miúdas na assistência que junto dos compinchas no activo, competitivos e desesperados por concentração. Mal estes últimos saíam do rectângulo alongado em que jogavam, refrescavam-se, instalavam-se e assumiam o papel de chatos jocosos dos seus substitutos. Para nosso desgosto, por mais turnos que se sucedessem, a sua forte pronúncia kiwi e algum vocabulário técnico da modalidade ou da gíria neozelandesa impediam-nos de perceber boa parte das sátiras.

Acompanhamos esta alternância por quase uma hora mas, sabíamos o quanto podia durar uma partida de cricket. Mesmo tratando-se de um confronto amador, não quisemos arriscar.

Já tínhamos testemunhado o prazer genuíno que aqueles adolescentes aparentemente empertigados mas descontraídos e cool retiravam do desporto. Ainda estávamos longe de compreender como eles, os seus pais, tios e o grosso do universo masculino anglófono incluindo da Índia, do Bangladesh, do Paquistão e das Índias Ocidentais suportavam partidas na TV que se arrastavam por quatro ou cinco dias.

A Nova Zelândia era, ali em redor, mais deslumbrante que nunca. Com o tempo contado, regressamos ao carro e apontamos para uma tal de Península de Banks, lugar que tanto nos haviam elogiado nos últimos dias.

A caminho, detemo-nos no cimo de Port Hills. Depois, em Lyttelton que jaz à beira-mar, no fundo de uma encosta íngreme e longa que descemos aos “esses”. Foi naquele mesmo litoral num desequilíbrio aflitivo que desembarcaram, em 1850, os primeiros colonos europeus. Ali inauguraram uma caminhada histórica colinas acima. Viriam a aglomerar-se na que se tornou a maior das cidades da Ilha do Sul, baptizada de Christchurch, à imagem saudosista da modelo de Dorset que espreita o Canal da Mancha.

Contornamos o grande estuário de Lyttelton até outra via cimeira de seu nome Gebbles Pass Road e à encumeada suprema do Monte Herbert (920m). Encostamos o carro junto a um café de montanha pitoresco instalado no piso térreo de um chalé de madeira. Compramos bebidas quentes para disfarçar a frigidez do vento. Enquanto as bebericamos, admiramos o cenário surreal que se estende para diante e para baixo.

Do topo da encosta para sudoeste, a estrada livra-se das árvores que a envolvem. Desvenda-nos um cenário simultaneamente bucólico e selvagem de cortar a respiração. Prolonga-se por um declive gradual, forrado por uma manta relvada de retalhos de vários tons de verde e amarelo em que pastam milhares de ovelhas. A anunciar o Oceano Pacífico, surge, então, a baía de Akaroa, de tal forma escondida pelas colinas costeiras, que se disfarça de lago.

Por essa altura, não tínhamos ainda noção. Vista do ar, a Península de Banks parece ter sido vítima de um mega teste nuclear. A sua superfície irregular e fragmentada, repleta de pequenos cumes, baías e recortes geológicos invadidos pelo mar, resultou da longa erosão de dois estratovulcões, o Lyttelton e o Akaroa que chegaram a ter mil e quinhentos metros de altitude. Mas, se esta descrição suscita um imaginário rochoso e inóspito, a realidade revela-se bem distinta. Mesmo surreal como assim a descobríamos, a península era, ao mesmo tempo deslumbrante e aconchegante. Acolhia quase oito mil almas atraídas pela qualidade de vida daquela espécie de Éden ervado. Já por lá tinham passado nossos compatriotas. Deixaram uma herança que nos entrou pelos olhos adentro quando alcançamos Akaroa, a única povoação a sério da península.

“Exacto. Chamava-se António Rodrigues. Era português ...” assegura a empregada do outro lado do balcão do Bar Hotel Madeira. O mistério instala-se. Que fazia ali, naquele recanto antíctone do planeta, um estabelecimento de origem lusa? Para o apurar, recuámos no tempo, à era da colonização neozelandesa em que o povo maori ainda dominava a maior parte da Ilha do Sul.

Apuramos que Akaroa foi avistada pelo navegador James Cook em 1770. À sua passagem, Cook pensou tratar-se de uma ilha. Baptizou-a em nome do naturalista Sir Joseph Banks. Em 1831, a tribo maori residente Ngai Tahu foi atacada pela riva Ngati Toa. Este conflito causou uma diminuição drástica da população nativa. Facilitou a vida e as intenções de um capitão baleeiro francês denominado Jean Francois L’Anglois. Nove anos depois, L’Anglois comprou a península aos nativos que encontrou. Com o apoio do governo da metrópole ofereceu passagens de barco e conseguiu incentivar mais 63 colonos franceses a lá se instalarem. Apenas alguns dias antes de estes chegarem, oficiais britânicos enviaram um navio de guerra e hastearam uma Union Jack. Reclamaram a sua posse da península e território em redor sob o auspício do Tratado de Waitangi, segundo o qual os chefes maori reconheciam a soberania britânica sobre a Nova Zelândia em geral.  

A gente de Akaroa gosta de sublinhar aos visitantes que, caso os povoadores franceses tivessem desembarcado na península dois dias antes, toda a Ilha do Sul poderia ser hoje francesa.

Esses mesmos franceses acabaram por se instalar em Akaroa. Em 1849, venderam a sua reinvidicação de posse à New Zealand Company. No ano seguinte, um grupo avultado de colonos britânicos assentou arraiais e começou a desmatar a terra então densamente florestada para garantir a criação de gado.

As casas da vila e diversos nomes de ruas e lugares ajudam a confirmar a autenticidade e seriedade daquela que foi a única colónia da França na Nova Zelândia. Mas, como é costume nestas novelas das descobertas e colonizações, também os portugueses estiveram envolvidos.

Nos primeiros anos do século XIX, a caça à baleia era uma das actividades que mais atraía os europeus ao downunder. Durante esse período, os baleeiros americanos e franceses incluíam frequentemente, nas suas tripulações polinésios e portugueses das ilhas. Eventualmente ligado a esse influxo, António Rodrigues, chegou da Madeira. Instalou-se na povoação onde viria a construir e a adquirir alguns edifícios, entre os quais o Hotel Madeira que, agora, num estilo clássico de guest-house combinada com british pub, continua a funcionar destacado do casario mais baixo.

Akaroa (enseada comprida, no dialecto maori da zona) é, hoje, um vilarejo cosmopolita. Apreciado de uns quilómetros península acima, revela-se um postal imaculado, com o seu casario colorido na base de duas encostas opostas e a invadir o Akaroa Harbour, uma incrível baía escondida do oceano, de águas azul-bebé.

Ao longo da rua marginal repetem-se os bares e restaurantes, lojas de artesanato e recordações, pousadas e hotéis todos eles coloridos e pitorescos, que exploram a beleza singular do lugar e sua a atmosfera afrancesada. Chalés lilases e cor-de-rosa com nomes como “Chez La Mer”, “La Belle Villa” ou “C’est la Vie” aliciam mochileiros a alguns dias de estadia perfumada pela natureza, o que inclui distintos aromas da prolífica pecuária local.

Entre os filmes em exibição no cinema local conta-se uma reposição anglófila de “Bienvenue Chez Les Ch’tis” a comédia de Dany Boon que se diverte e divertiu mais de 20 milhões de espectadores franceses – um novo recorde da nação – a caricaturar as peculiaridades das gentes do extremo norte de França.  

Em redor de Akaroa, a Península de Banks descamba em cenários bem mais extremos. Enquanto percorremos o seu perímetro de roda-dentada, sucedem-se enseadas profundas e escarpadas que escondem riachos e praias desertas. A espaços, surpreendem-nos fazendas ovelheiras. Os seus rebanhos imensos contribuem para que a Nova Zelândia tenha onze vezes mais ovinos que humanos. Quando não permanecem nelas concentrados, as ovelhas salpicam vastos prados desnivelados e empoleiram-se em arestas finas disfarçadas pela erva, paredes meias com falésias abruptas que se precipitam no Pacífico do Sul.

Ao exploramos este fascinante domínio vulcânico-pecuário passamos sobre incontáveis grelhas de estrada que impedem que o gado abandone as propriedades e se tresmalhe. Noutras fazendas em que esta solução se provou falível, vemo-nos forçados a deixar o carro e a abrir e a fechar velhos portões de madeira maciça.

De quando em quando, damos com negócios familiares perdidos no nada e que parecem só se activar quando detectam a aproximação dos veículos dos forasteiros. Na insignificante povoação de Okains Bay, uma pequena mercearia-bar coexiste com uma oficina automóvel. São ambas epónimas. Mantêm ao dispor das gentes da terra e dos de fora uma cabine telefónica com o mesmo verde-vermelho e perfil arquitectónico das estações ovelheiras.

Interrompemos a descoberta na Okains Bay Store para saborearmos gelados e o derradeiro sol do dia. Talvez porque nos aproximámos devagar, ao fim de três ou quatro minutos, não aparece ninguém para nos atender. Quando, por fim, alguém escuta os nossos chamamentos surgem duas jovens irmãs, tímidas mas habituadas a safar os pais na sua ausência. Servem-nos gelados da caixa frigorífica e fazem as contas sem qualquer receio ou atrapalhação. Ainda nos ocorreu que estariam à altura de nos dar indicações para uma outra baía profunda. Juntou-se-nos, no entanto, um pequeno grupo de residentes que, malgrado a quase inteligível pronúncia kiwi, se prontificaram a ajudar.

Até escurecer, limitámo-nos a contornar a Península de Banks, deliciados com os seus incontáveis caprichos geológicos e com as vidas tão terra-a-terra que a eles se adaptaram.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As cidades neozelandesas são realmente especiais. Ainda mal deixámos o centro histórico de Christchurch e o verde campestre, seja ou não rural, predomina. Assalta-nos a noção de que em poucos territórios se terão os colonos britânicos sentido tão em casa como neste, descaído nos antípodas. O percurso já pouco ou nada tem de urbano quando vislumbramos, através de um velho gradeamento de jardim, um grupo de jogadores de cricket trajados de branco e polidos e requintados a rigor, à boa maneira aristocrática british. Por si só, o desporto não ia bem nem connosco nem com nenhum latino à face da terra. Mesmo assim, quisemos perceber e testemunhar o que fazia aqueles jovens jogadores levantarem-se tão cedo num sábado de manhã para se entregarem aos seus bats e aos wickets.

Instalámo-nos sobre o relvado quase-perfeito, o mais perto possível do limite da área de jogo em que alguns outros conviviam entre si e com amigas e namoradas, sentados ou deitados com as cabeças sobre os sacos de desporto, de cervejas na mão, à espera da sua vez de entrar em cena. A cada erro mais grosseiro, os de reserva desatam a rir à gargalhada e prendam-nos com uma série de piadas que caiam melhor entre as miúdas na assistência que junto dos compinchas no activo, competitivos e desesperados por concentração. Mal estes últimos saíam do rectângulo alongado em que jogavam, refrescavam-se, instalavam-se e assumiam o papel de chatos jocosos dos seus substitutos. Para nosso desgosto, por mais turnos que se sucedessem, a sua forte pronúncia kiwi e algum vocabulário técnico da modalidade ou da gíria neozelandesa impediam-nos de perceber boa parte das sátiras.

Acompanhamos esta alternância por quase uma hora mas, sabíamos o quanto podia durar uma partida de cricket. Mesmo tratando-se de um confronto amador, não quisemos arriscar.

Já tínhamos testemunhado o prazer genuíno que aqueles adolescentes aparentemente empertigados mas descontraídos e cool retiravam do desporto. Ainda estávamos longe de compreender como eles, os seus pais, tios e o grosso do universo masculino anglófono incluindo da Índia, do Bangladesh, do Paquistão e das Índias Ocidentais suportavam partidas na TV que se arrastavam por quatro ou cinco dias.

A Nova Zelândia era, ali em redor, mais deslumbrante que nunca. Com o tempo contado, regressamos ao carro e apontamos para uma tal de Península de Banks, lugar que tanto nos haviam elogiado nos últimos dias.

A caminho, detemo-nos no cimo de Port Hills. Depois, em Lyttelton que jaz à beira-mar, no fundo de uma encosta íngreme e longa que descemos aos “esses”. Foi naquele mesmo litoral num desequilíbrio aflitivo que desembarcaram, em 1850, os primeiros colonos europeus. Ali inauguraram uma caminhada histórica colinas acima. Viriam a aglomerar-se na que se tornou a maior das cidades da Ilha do Sul, baptizada de Christchurch, à imagem saudosista da modelo de Dorset que espreita o Canal da Mancha.

Contornamos o grande estuário de Lyttelton até outra via cimeira de seu nome Gebbles Pass Road e à encumeada suprema do Monte Herbert (920m). Encostamos o carro junto a um café de montanha pitoresco instalado no piso térreo de um chalé de madeira. Compramos bebidas quentes para disfarçar a frigidez do vento. Enquanto as bebericamos, admiramos o cenário surreal que se estende para diante e para baixo.

Do topo da encosta para sudoeste, a estrada livra-se das árvores que a envolvem. Desvenda-nos um cenário simultaneamente bucólico e selvagem de cortar a respiração. Prolonga-se por um declive gradual, forrado por uma manta relvada de retalhos de vários tons de verde e amarelo em que pastam milhares de ovelhas. A anunciar o Oceano Pacífico, surge, então, a baía de Akaroa, de tal forma escondida pelas colinas costeiras, que se disfarça de lago.

Por essa altura, não tínhamos ainda noção. Vista do ar, a Península de Banks parece ter sido vítima de um mega teste nuclear. A sua superfície irregular e fragmentada, repleta de pequenos cumes, baías e recortes geológicos invadidos pelo mar, resultou da longa erosão de dois estratovulcões, o Lyttelton e o Akaroa que chegaram a ter mil e quinhentos metros de altitude. Mas, se esta descrição suscita um imaginário rochoso e inóspito, a realidade revela-se bem distinta. Mesmo surreal como assim a descobríamos, a península era, ao mesmo tempo deslumbrante e aconchegante. Acolhia quase oito mil almas atraídas pela qualidade de vida daquela espécie de Éden ervado. Já por lá tinham passado nossos compatriotas. Deixaram uma herança que nos entrou pelos olhos adentro quando alcançamos Akaroa, a única povoação a sério da península.

“Exacto. Chamava-se António Rodrigues. Era português ...” assegura a empregada do outro lado do balcão do Bar Hotel Madeira. O mistério instala-se. Que fazia ali, naquele recanto antíctone do planeta, um estabelecimento de origem lusa? Para o apurar, recuámos no tempo, à era da colonização neozelandesa em que o povo maori ainda dominava a maior parte da Ilha do Sul.

Apuramos que Akaroa foi avistada pelo navegador James Cook em 1770. À sua passagem, Cook pensou tratar-se de uma ilha. Baptizou-a em nome do naturalista Sir Joseph Banks. Em 1831, a tribo maori residente Ngai Tahu foi atacada pela riva Ngati Toa. Este conflito causou uma diminuição drástica da população nativa. Facilitou a vida e as intenções de um capitão baleeiro francês denominado Jean Francois L’Anglois. Nove anos depois, L’Anglois comprou a península aos nativos que encontrou. Com o apoio do governo da metrópole ofereceu passagens de barco e conseguiu incentivar mais 63 colonos franceses a lá se instalarem. Apenas alguns dias antes de estes chegarem, oficiais britânicos enviaram um navio de guerra e hastearam uma Union Jack. Reclamaram a sua posse da península e território em redor sob o auspício do Tratado de Waitangi, segundo o qual os chefes maori reconheciam a soberania britânica sobre a Nova Zelândia em geral.

A gente de Akaroa gosta de sublinhar aos visitantes que, caso os povoadores franceses tivessem desembarcado na península dois dias antes, toda a Ilha do Sul poderia ser hoje francesa.

Esses mesmos franceses acabaram por se instalar em Akaroa. Em 1849, venderam a sua reinvidicação de posse à New Zealand Company. No ano seguinte, um grupo avultado de colonos britânicos assentou arraiais e começou a desmatar a terra então densamente florestada para garantir a criação de gado.

As casas da vila e diversos nomes de ruas e lugares ajudam a confirmar a autenticidade e seriedade daquela que foi a única colónia da França na Nova Zelândia. Mas, como é costume nestas novelas das descobertas e colonizações, também os portugueses estiveram envolvidos.

Nos primeiros anos do século XIX, a caça à baleia era uma das actividades que mais atraía os europeus ao downunder. Durante esse período, os baleeiros americanos e franceses incluíam frequentemente, nas suas tripulações polinésios e portugueses das ilhas. Eventualmente ligado a esse influxo, António Rodrigues, chegou da Madeira. Instalou-se na povoação onde viria a construir e a adquirir alguns edifícios, entre os quais o Hotel Madeira que, agora, num estilo clássico de guest-house combinada com british pub, continua a funcionar destacado do casario mais baixo.

Akaroa (enseada comprida, no dialecto maori da zona) é, hoje, um vilarejo cosmopolita. Apreciado de uns quilómetros península acima, revela-se um postal imaculado, com o seu casario colorido na base de duas encostas opostas e a invadir o Akaroa Harbour, uma incrível baía escondida do oceano, de águas azul-bebé.

Ao longo da rua marginal repetem-se os bares e restaurantes, lojas de artesanato e recordações, pousadas e hotéis todos eles coloridos e pitorescos, que exploram a beleza singular do lugar e sua a atmosfera afrancesada. Chalés lilases e cor-de-rosa com nomes como “Chez La Mer”, “La Belle Villa” ou “C’est La Vie” aliciam mochileiros a alguns dias de estadia perfumada pela natureza, o que inclui distintos aromas da prolífica pecuária local.

Entre os filmes em exibição no cinema local conta-se uma reposição anglófila de “Bienvenue Chez Les Ch’tis” a comédia de Dany Boon que se diverte e divertiu mais de 20 milhões de espectadores franceses – um novo recorde da nação – a caricaturar as peculiaridades das gentes do extremo norte de França.

 

Em redor de Akaroa, a Península de Banks descamba em cenários bem mais extremos. Enquanto percorremos o seu perímetro de roda-dentada, sucedem-se enseadas profundas e escarpadas que escondem riachos e praias desertas. A espaços, surpreendem-nos fazendas ovelheiras. Os seus rebanhos imensos contribuem para que a Nova Zelândia tenha onze vezes mais ovinos que humanos. Quando não permanecem nelas concentrados, as ovelhas salpicam vastos prados desnivelados e empoleiram-se em arestas finas disfarçadas pela erva, paredes meias com falésias abruptas que se precipitam no Pacífico do Sul.

Ao exploramos este fascinante domínio vulcânico-pecuário passamos sobre incontáveis grelhas de estrada que impedem que o gado abandone as propriedades e se tresmalhe. Noutras fazendas em que esta solução se provou falível, vemo-nos forçados a deixar o carro e a abrir e a fechar velhos portões de madeira maciça.

De quando em quando, damos com negócios familiares perdidos no nada e que parecem só se activar quando detectam a aproximação dos veículos dos forasteiros. Na insignificante povoação de Okains Bay, uma pequena mercearia-bar coexiste com uma oficina automóvel. São ambas epónimas. Mantêm ao dispor das gentes da terra e dos de fora uma cabine telefónica com o mesmo verde-vermelho e perfil arquitectónico das estações ovelheiras.

Interrompemos a descoberta na Okains Bay Store para saborearmos gelados e o derradeiro sol do dia. Talvez porque nos aproximámos devagar, ao fim de três ou quatro minutos, não aparece ninguém para nos atender. Quando, por fim, alguém escuta os nossos chamamentos surgem duas jovens irmãs, tímidas mas habituadas a safar os pais na sua ausência. Servem-nos gelados da caixa frigorífica e fazem as contas sem qualquer receio ou atrapalhação. Ainda nos ocorreu que estariam à altura de nos dar indicações para uma outra baía profunda. Juntou-se-nos, no entanto, um pequeno grupo de residentes que, malgrado a quase inteligível pronúncia kiwi, se prontificaram a ajudar.

Até escurecer, limitámo-nos a contornar a Península de Banks, deliciados com os seus incontáveis caprichos geológicos e com as vidas tão terra-a-terra que a eles se adaptaram.