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À boleia do mar

À boleia do mar

Dançarinos desembarcam prestes a inaugurarem um luau a ter lugar em Lahaina.

Maui, Havai

Divino Havai

Maui é um antigo chefe e herói do imaginário religioso e tradicional havaiano. Na mitologia deste arquipélago, o semi-deus laça o sol, levanta o céu e leva a cabo uma série de outras proezas em favor dos humanos. A ilha sua homónima, que os nativos creem ter criado no Pacífico do Norte, é ela própria prodigiosa.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Ao terceiro voo após a aterragem inicial na ilha-mãe O’ahu, aproximávamo-nos do limiar sudeste do Havai e da sua dramática Big Island. Maui, a segunda maior do arquipélago, era a alpondra oceânica que se seguia. O avião pousa na pista do aeroporto de Kahului. Recuperamos as malas e saímos disparados para o balcão do rent-a-car Al West. Estávamos munidos de uma reserva. Mesmo assim, o empregado de serviço comunica-nos que não pode honrar o contrato. Não queríamos desperdiçar tempo pelo que procurámos de imediato uma alternativa. Do outro lado da rua, anunciava-se uma tal de Maui Rent-a-Car. Quando explicamos a situação, o funcionário lamenta mas responde-nos que não tem carros disponíveis. “Ah, esperem lá!”, detêm-nos quando repara num dos nossos passaportes. Temos ali uns que vão ser vendidos. São melhores que os da categoria que vocês tinham alugado mas não faz mal.” Estranhamos a reviravolta. Quando olhamos com mais atenção para o “Oliveira” no crachá que o identificava, tudo faz sentido. Por uma gentil solidariedade de sangue, saímos do aeroporto com um bem mais espaçoso e dispendioso Chrysler 200.

Maui é oficialmente geminada com o Funchal. A intimidade histórica do arquipélago da Madeira com o havaiano justifica a nossa sorte, esse estatuto e muito mais. No final do século XVIII, precisamente quando o Havai precisava de aumentar o seu fornecimento de açúcar à Califórnia, demasiados trabalhadores nativos das plantações de cana-de-açúcar sucumbiam a doenças. Substituíram-nos milhares de chineses que, a determinada altura, perfaziam já 10% da população do arquipélago. Mesmo se produtivos, a sua reputação depressa ficou manchada pelos cada vez mais problemáticos vício no jogo, consumo de ópio e exploração de prostituição. O governo procurou uma alternativa. Jason Perry (na origem, Jacinto Pereira), o Cônsul Português para o Havai, sugeriu a proprietários de fazendas que deveriam recrutar trabalhadores da Madeira e dos Açores, onde a paisagem e o clima se assemelhavam aos do Havai e a cana-de-açúcar era, há muito, uma matéria-prima fulcral.

Os fazendeiros seguiram o conselho. Entre 1878 e 1887, diversas embarcações fizeram aportar no Havai para cima de 3.300 ilhéus portugueses. Contabilizando as mulheres, filhos e outros parentes que se lhes juntaram, o número aumentou. Em 1911, os portugueses no Havai eram mais de quinze mil. Quase todos desembarcaram na ilha de O’ahu. Muitos, mudaram-se para outras.

Foram descritos como baixos, esguios e com peles escuras, devido às muitas horas que trabalhavam sob o sol. Alguns pareciam tão escuros que, nos primeiros censos dos E.U.A., foram registados como negros.

Maui foi uma das ilhas que os acolheu e que, com o tempo, os aprendeu a respeitar e a valorizar. Assim se explica o orgulhoso Maui Portuguese Cultural Club, agora presidido por Sandy Furtado Guadagni, com sede na mesma povoação em que tínhamos aterrado e conhecido o benemérito Sr. Oliveira.

Na homepage do site, a presidente surge com Ramana Oliveira, identificada como uma fadista mundialmente famosa, que actuou em Maui com o seu “Guitarro” Brad Bivens e lá interpretou as canções cheias de alma de Portugal, chamadas de Fado. As adulterações do nome da fadista e da definição do músico provam a inevitável americanização dos portugueses do Havai, similar às de outras paragens dos E.U.A., e tão óbvia como o seu esforço em preservarem as raízes. O site promove ainda “Da Nossa Boa Casa a Sua Casa” um livro de receitas culinárias da Madeira e dos Açores. Há algum tempo, vários membros do clube viajaram em excursão à descoberta de quatro das nove ilhas açorianas. Nós, instalamo-nos numa pequena pousada de Pa’ia e de lá partimos nas manhãs seguintes entusiasmados pela exploração de Maui.

Pa’ia é uma pequena povoação com menos de três mil habitantes que se estabeleceu em 1896 em redor de um moinho de açúcar providencial e se desenvolveu em função do lucro das plantações de cana. O sucesso deste moinho atraiu um corropio de colonos chineses, filipinos, japoneses, coreanos, porto-riquenhos e portugueses. Os moradores actuais, por sua vez, são um sortido multiétnico e multicultural dos seus descendentes. Mas não só.

Em Abril de 1946, tinha a 2a Guerra Mundial terminado no seu palco do Pacífico apenas uns meses antes, a vila foi devastada por um tsunami gerado por um forte sismo nas ilhas Aleutas. Provou-se o maior tsunami alguma vez registado no Havai. Cento e cinquenta e nove pessoas perderam a vida em todo o arquipélago. Pa’ia só teve uma vítima mas sofreu uma destruição massiva de que demorou a recuperar, até porque boa parte dos seus habitantes se mudaram para Kahului, à época, conhecida como “Dream City”.

Hoje, a população de Pa’ia é ainda mais diversificada do que nesses tempos. Grande número das suas casas de madeira térreas ou pouco mais que isso, foram transformadas em pousadas, em bares, restaurantes e afins. Também numa prolífica sucessão de lojas de artigos de desporto, sobretudo de surf e de windsurf.

Já com os anos 70 a perderem algum poder do seu Flower Power, um grupo de amantes do mar visitava a ilha quando descobriu que as condições ao largo de Pa’ia eram perfeitas para o windsurf. A informação circulou. Nos anos 80 e 90, uma onda pujante de windsurfistas dos quatro cantos da Terra lá deu à costa. Pa’ia foi promovida a Meca mundial do windsurf.

Passamos algum tempo na povoação, em especial em redor de pequenos-almoços, jantares e curtas deambulações. Os desportos marítimos não eram, todavia, a nossa praia e tínhamos o conveniente Chrysler 200 ao serviço.

Atravessamos Kahului. Prosseguimos para a vertente do escudo vulcânico do noroeste da ilha. Lá se situava o vale profundo, chuvoso e verdejante de Iao que acolhia um parque com um templo budista japonês que contribui para o actual espírito de acolhimento do Havai. Mas nem sempre os alohas imperaram. O parque eterniza aquela que é considerada uma das batalhas mais sangrentas da história do arquipélago. Em 1790, um exército de Maui viu-se a braços com um ataque da ilha rival de Hawaii (Big Island). As duas forças contavam com número idêntico de homens. Ao fim de dois dias de confronto, nenhuma se havia rendido. Ao terceiro dia da Batalha de Kepaniwai (Batalha das Águas Malditas), o rio abaixo corria vermelho de tanto sangue mas Havaii só conseguiu o controlo de Maui, já quase no século XIX.

Quando por lá passamos, uma chuva intensa que fustigava o vale e toda a floresta de montanha em redor desaconselhava caminhadas pelos trilhos estreitos. Pouco interessados em acabarmos como os guerreiros, decidimos continuar.

Regressamos a Wailuki e à estrada 340 que contornava o litoral rugoso da metade superior do oito tosco da ilha. Passamos por povoações e lugares com nomes dificilmente mais havaianos: Kahakuloa, Nakalele, Kapalua. Mantemo-nos atentos à lagoa protegida por coral ao largo e que proporcionava aos nativos e a milhares de visitantes um magnífico recreio balnear. Uns, banhavam-se nas praias selvagens, outros, surfavam as ondas vigorosas do Pacífico do Norte. Outros ainda, divertiam-se a bordo de catamarãs e embarcações festivas do género.

No extremo norte de Maui, a estrada 340 transforma-se em 30. Dessa zona para baixo e por dezenas de quilómetros, o litoral ocidental fica a salvo do vento norte e torna-se mais solarengo. Sem surpresa, surge repleto de resorts e campos de golfe que drenam a beleza e genuinidade natural da ilha. Aceleramos, assim, para sul. Só nos detemos em Lahaina (sol cruel, em havaiano) a antiga capital real do Havai até que, em 1845, passou para a actual, Honolulu. Lahaina foi também um polo baleeiro da ilha, malgrado o permanente conflito com os missionários cristãos residentes que rejeitavam que as embarcações ali aportassem, que lá desembarcassem marinheiros e trabalhadores repletos de vícios e ansiosos por evasão. Hoje, a sua Front Street e o panorama da marginal contígua espelham a modernização e sofisticação da cidade, beneficiada pelo desafogo financeiro dos milionários dos Estados Unidos continentais que ali atracam iates luxuosos ao dispor dos seus caprichos veraneantes.

Lahaina também acolhe a maior figueira-de-Bengala dos E.U.A. que os registos indicam ter sido plantada em 1873 e que tem agora 18 metros de altura. A árvore ramifica-se em 16 troncos que se alongam por uma área de 0.30 hectares. Admiramo-la com o respeito vegetal que nos merece. Mas não só. Uma banda de rua porque tínhamos passado no centro aprumado e pitoresco da povoação fora corrida pelas autoridades. Os cinco elementos tocavam, então, o violino, o banjo, a guitarra e o violoncelo, à sombra dos ramos sem fim.

Entretanto, apuramos que, ao fim da tarde, um dos hotéis da marginal iria apresentar um luau polinésio. Interessados em assistir mas também em percorrer o trecho da estrada mais panorâmica da ilha, a Hana, apressamo-nos a regressar ao ponto de partida. De Pa’ia, continuamos para sudeste. Por alguma razão, as autoridades apelidaram a via em que nos metemos de Hana Highway. De estrada, pouco tinha. De autoestrada absolutamente nada.

A certo ponto da costa selvagem e apertada entre o oceano e as vertentes da Floresta Koolau, a Hana Hwy encolhe à largura de um só sentido mas continua a ser percorrida em ambos. Avançamos, com escalas estratégicas em recantos idílicos da ilha, caso das Hana Falls em que nos banhamos e refrescamos. Na volta ao asfalto, retém-nos um carrinho de golfe que conduzia cavalos a uma fazenda. A estranha quadrícula atrasa-nos durante uns bons cinco quilómetros. À laia de compensação, na iminência de Hana e do extremo leste da ilha, os grandes espaços de Maui voltam à cena.

Praias de areia negra alternam com outras de calhaus. Uma península ventosa e rochosa marca a passagem do leste para o sul. Por altura de Kaupo, a lava do vulcão supremo de Maui, o Haleakala, preenche vertentes gentis. Em certas áreas, mantém-se demasiado áspera para admitir vegetação. Noutras, acolhe prados viçosos que se estendem até à beira do Pacífico azulão.

Um vento inclemente castiga esta costa. Chicoteia as árvores douradas wiliwili (Erythrina Sandwicensis) e despe-as das poucas folhas que lhes restam. Ainda assim, os rancheiros locais entregam o seu gado resiliente a tais pastagens rudes, a ver pela dimensão e opulência das suas propriedades, com sucesso.

Arrepiamos caminho para a cratera de Haleakala, mas a nebulosidade mística que persistia nas alturas, oculta-nos o cimo olímpio da ilha. Daí a uma hora, jovens dançarinos exibiriam, em Lahaina, as danças graciosas que o oceano, os vulcões e as paisagens luxuriantes do Havai há muito inspiravam. Já que os deuses nos rejeitavam, que não desperdiçássemos o melhor profano que Maui nos podia oferecer.