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Ijen-Inferno

Ijen-Inferno

Trabalhadores regam parte de uma fumarola da cratera do vulcão Ijen para controlarem os gases tóxicos e acelerarem a solidificação do enxofre.

Vulcão Ijen, Indonésia

Escravos do Enxofre

Centenas de javaneses entregam-se ao vulcão Ijen onde são consumidos por gases venenosos e cargas que lhes deformam os ombros. Cada turno rende-lhes menos de 30€ mas todos agradecem o martírio.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Os indonésios estão habituados aos seus vulcões. Em Java existem mais de quarenta e, destes, vários são tão reverenciados como temidos. Desde a erupção recordista do Krakatoa, às mais recentes agruras causadas pelo Merapi, a actividade imprevisível dos gunungs tem causado enormes danos mas as populações que habitam em redor, também conhecem o outro lado desta realidade. Os campos são férteis na proximidade das montanhas de fogo e os visitantes que procuram as mais místicas e impressionantes – em especial o Bromo - ajudam a desafogar as suas frágeis economias. Já o Ijen é um caso à parte. Há muito que não entra em erupção e sustenta muitos dos homens das povoações em redor mas, ao mesmo tempo, acaba com as suas vidas.

A caminhada mal tinha começado quando o primeiro carregador surge no topo de uma rampa lamacenta subsumida na floresta e, apesar de prevista, a visão não deixa de ser confrangedora.

Ao longe, sobressaem os cestos e os estranhos blocos amarelos, quase fluorescentes, que os preenchem. À medida que a distância diminui, reparamos nas meias rotas que desvendam os pés molhados e sujos sobre uns chinelos acabados; na roupa rasgada e velha e no esgar de dor do homem, em apuros para suster o embalo que o declive e o peso vão gerando.

Ao longo do trilho, cruzamo-nos com dezenas de outros carregadores. Mas, por estranho que pareça, em vez dos corpos e rostos violentados é um som que mais impressiona. Fica-nos para sempre gravado nas mentes, como o símbolo derradeiro da sua condenação. 

Cada homem carrega obrigatoriamente dois cestos de verga unidos por um eixo que assentam sobre as costas e os ombros. Em movimento, o peso extremo fá-los oscilar e produz um ranger repetitivo que o silêncio da montanha parece multiplicar e torna perfurante.

Um dos trabalhadores mais idosos rende-se ao cansaço e detém-se para recuperar energias. Acaba por nos mostrar os ombros deformados e em ferida sugerindo alguma caridade. Depois, segue encosta abaixo, entregue ao sofrimento que o destino lhe reservou e ao rangido que o irá massacrar pela vida fora.

Até o despertar destes escravos é deprimente e miserável. O Ijen produz grandes quantidades de enxofre, quase sem interrupções mas são poucos os homens dispostos a trabalhar as noites. Como tal, antes do nascer do sol, a substância abunda e pode ser retirada com relativa facilidade e - aquilo que conta para os que mais se sacrificam – permite ganhar algumas rupias extra. O normal é, assim, chegarem à base do vulcão por volta das 4h.30 da madrugada, na caixa do camião que os recolhe das suas casas. Espera-os uma caminhada de duas horas encosta acima a que se seguem mais 200 metros de descida íngreme e sinuosa até à margem do lago ácido (PH inferior a 0,5) do vulcão, ao longo de um trilho acidentado que, como o lago, já causou algumas baixas.

Ali, ao abrigo de uma cortina traiçoeira de fumo tóxico, o Ijen vai expelindo um enxofre avermelhado que, por reacção química, em contacto com o ar mais frio, solidifica e se torna amarelo.

Enquanto uma equipa de trabalhadores especializados tenta controlar a temperatura e a pressão das tubagens – quando possível, também a intensidade dos fumos - cabe a cada carregador partir e equilibrar nos cestos as pedras que pretende transportar. Os mais experientes sabem que a ambição excessiva não compensa. Para aqueles, o peso de referência fica algures entre os 70 e os 100kg, mas a carga pode depender de factores tão diversos como o porte físico, a idade, a saúde e a disposição das vítimas. Estas considerações são frequentemente inúteis por não existir uma balança junto à matéria-prima e o carregamento ser feito por estimativa, debaixo de gases que queimam os pulmões e os olhos – as máscaras, quando as usam, são meros panos molhados - e sob a pressão dos colegas de trabalho que disputam os melhores filões de enxofre para, também eles, partirem o quanto antes do inferno. Seja qual for a dor e o prejuízo, depois de enchidos os cestos, é raro algum dos homens deixar enxofre pelo caminho, particularmente árduo no regresso íngreme ao exterior da cratera. O motivo espera-os dois quilómetros abaixo, num depósito abarracado onde os aguarda um funcionário chinês austero, responsável pela pesagem, pela contabilidade e por apurar o pagamento, entregue logo ao lado, em rupias, num guichet de madeira fechado por grades.

O quilo vale cerca de cinco cêntimos. Em cada percurso, os homens descarregam uma média de 80kg equivalentes a menos de quatro euros. Mas são raros os que suportam mais de três percursos e, só em casos excepcionais, conseguem um rendimento diário superior a dez euros.

Como é normal nestes casos, a matéria-prima é vendida pela companhia que os explora por valores incomparáveis, para ser usada na produção de medicamentos e produtos de estética mas também no processamento de açúcar.

A ironia das ironias é que a poucos quilómetros do Ijen, estendem-se as vastas plantações de café arábica de Java, considerado um dos melhores do mundo. Para qualquer um destes homens, o trabalho exaustivo da recolha dos grãos seria uma brincadeira mas o café não os estimula. A maior parte tem famílias para sustentar e, nas plantações, não receberiam nem um terço do que ganham a carregar enxofre.

Assim, dia após dia, o Ijen continua a corroer-lhes o corpo e a alma e a encurtar as suas vidas. Sem alternativas, os escravos do enxofre agradecem o sacrifício.