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À beira do meandro

À beira do meandro

Um dos muitos rios e riachos que percorrem a Islândia.

Islândia

Ilha de Fogo, Gelo e Quedas d'água

A catarata suprema da Europa precipita-se na Islândia. Mas não é a única. Nesta ilha boreal, com chuva ou neve constantes e em plena batalha entre vulcões e glaciares, despenham-se torrentes sem fim.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Há muito que deixámos de vislumbrar o casario baixo de Akureyri e só ínfimos retalhos do riacho que acompanha o trecho setentrional da Ring Road por que seguimos se mantêm libertos do sufoco invernal.

A alvura não abafa um bruar crescente nem a névoa que vislumbramos a esvoaçar ao longe. Ao fim de muitos quilómetros de vertigem, o rio Skjálfandafljót sofre, ali, o mais dramático dos tropeções geológicos a que o submete o seu percurso do domínio supremo de Bárdarbunga à baía de Skjálfandi.

Cruzamos a ponte que o atravessa e estacionamos. Caminhamos sem tacto nem fé sobre neve com 40 cm de altura e, apesar da sensação de eminente colapso, atingimos a margem elevada. Daquela posição algo traiçoeira, desvendamos o esplendor semi-congelado e estalactítico de Godafoss, a cascata dos deuses.

O anfiteatro desta catadupa tem cerca de 30 metros. Ligeiramente amortecida antes da queda de 12 metros, a água do Skjálfandafljót parece solidificar a olhos vistos e retoca uma escultura que o frio molda desde os primeiros dias de Novembro.

Faça que temperatura fizer, Godafoss será sempre um monumento natural incontornável da Islândia. O seu nome mitológico tem justificação num dos livros mais antigos e reputados da história da ilha. Narra o Íslendingabók que, por volta do virar do primeiro milénio, a sua população teve que decidir se preservava o paganismo norueguês ou abraçava a cristandade. Depois de um dia e uma noite de meditação silenciosa debaixo de uma manta de peles, um legislador e chefe de nome Thorgeir Ljósvetningagodi - ele próprio até então pagão - escolheu converter-se à cristandade. No regresso à sua quinta em Ljósavatn, lançou nas águas revoltas da queda d´água os ídolos divinos que descartara. 

O itinerário prossegue por Sprengisandur e conduz-nos ao reduto vulcânico de Myvatn. Exploramos a sua superfície lunar ora encharcada ora gelada e continuamos para leste.

A determinada altura, detectamos um conjunto de indicações rodoviárias. Apesar de enormes, só o seu topo permanece a descoberto da neve acumulada. Percebemos que Detifoss, a catarata mais volumosa da Europa está apenas a 24 km para norte e mantemos o alento de a alcançarmos. Mas, uma placa vermelha à entrada do desvio informa que não existe serviço invernal de limpeza de neve e que a via secundária pode estar intransitável. Bastam uns minutos para nos debatermos com camadas de neve invencíveis. Rendemo-nos às evidências e voltamos à Ring Road.

Contornamos vários dos fiordes profundos que recortam a costa leste. Naquelas paragens, mais a chuva do que a neve irriga inúmeros véus de noiva que escorrem do topo de falésias verdejantes. Esta profusão intensifica-se com a proximidade do extremo oriental do glaciar Vatnaj­­ökkull, eterna fonte de vida da ilha do fogo e do gelo. 

Exploramo-lo a partir da lagoa Jokullsarlon, de onde os seus icebergs mais aventureiros zarpam para o Atlântico. Depois, viajamos até Skaftafell.

Chove a cântaros mas um aviso no parque de estacionamento improvisado dá conta que a continuação da estrada é restrita a empregados do parque nacional. Entregamo-nos, assim, ao trilho escorregadio e ao aguaceiro durante quase 2 km. Quando chegamos à confluência com o fim real da via asfaltada, percebemos que éramos os únicos visitantes semi-encharcados e a respeitar a indicação.

Para compensar, o alvo fluvial que se segue está iminente. Acercamo-nos e percebemos, numa escala mais digna, a sua excentricidade poligonal. Ao contrário das quedas d’água antecedentes, o fluxo de Svartifoss prova-se insignificante. Mas, como aconteceu noutras partes raras do mundo, a solidificação da lava deu-se ali em condições improváveis. Gerou paredões em arco, compostos de estranhas colunas hexagonais e em permanente risco de derrocada. 

Volta a chover. Primeiro só a cântaros, depois a cântaros e também sob a forma de um granizo sensorialmente pontiagudo. Batemos em retirada.

Passamos incontáveis granjas agrícolas em alternância com as vastidões aluviais deixadas por sucessivos degelos dos glaciares a norte. Faz sol, neva, chove, volta a nevar e a fazer sol. Também se sucedem os cenários deslumbrantes porque passamos. Mesmo assim, temos dificuldade em respeitar o limite de 90 km/h da interminável Ring Road. 

Estamos a caminho de Skogafoss quando, escondido numa berma baixa, o primeiro carro da polícia que víamos fora de Reiquevaique nos manda encostar. “Boa tarde. São de onde?” pergunta-nos o agente alourado enquanto examina os documentos. “Portugal? As coisas por lá não andam propriamente bem, pois não? “ continua com um sarcasmo elegante. “Por cá, já passou o pior mas sabem que as multas nem com a nossa crise baixaram. São horrivelmente caras! Vão-se lá embora mas olhem que é só desta vez. Já devem ter reparado que a Islândia tem coisas em que vale muito mais a pena gastar dinheiro”.

Afastamo-nos da autoridade a uma velocidade teatral e, por algum tempo, conseguimos manter-nos na linha.

Pouco depois, entrevimos Skogafoss encaixada entre falésias recuadas. Seguimos à margem do curso pedregoso a que dá origem e, acompanhados do lado de lá de uma vedação por um cavalo tresloucado, atingimos a sua base sombria. Sentamo-nos e admiramos o salto de 60 metros sobrevoados por andorinhões-pretos. Quando aquela talassoterapia nos parece suficiente, fazemo-nos a um trilho de cabras íngreme e conquistamos um miradouro erguido sobre o último estertor do rio Skógá, numa clara fronteira de plano entre a franja da costa sul e as terras altas do interior.

Seljalandfoss não fica longe. Encontramos a sua queda serpenteante também de 60 m numa arriba perpendicular à estrada. Começamos por a contemplar de uma plataforma lateral. Mas não tarda a instalar-se nova intempérie. O vento, a água da catarata e a mistura de neve e de chuva aliam-se e criam um turbilhão que nos fustiga sem piedade. Deixamos o posto de observação e abrigamo-nos no único lugar a coberto, atrás do seu caudal vertical, dentro da base côncava da falésia.

Tão depressa como se foram, o sol e o céu limpo retornam. Voltamos ao carro desejosos de recuperar o calor corporal, o que fazemos de frente para Seljalandfoss que a luz boreal em permanente oscilação tingia de diferentes tonalidades. Até que, somos surpreendidos por uma inesperada interferência visual. A meio caminho entre o carro e a falésia, uma criatura verde de aparência extraterrestre faz acrobacias, fotografado por um colega terráqueo.

A certo ponto, metade dos visitantes presta-lhe mais atenção que à queda d’água mas o ser verde mostra-se pouco preocupado. Ficamos intrigados. E como o carro a que regressa após o fim da sessão está mesmo ao lado do nosso, não resistimos a questioná-lo. “E.T. eu? Não!!” responde-nos com boa disposição. “Sou dos de cá. Islandês e tudo.” Esta macacada toda deve-se a um projecto da minha universidade em que tive a má ideia de me meter. Chama-se Green Chanel. Depois vamos processar as imagens com software de TV. Mas tenho que fazer estas figuras em mais lugares símbolo da Islândia. Já viram bem a minha sorte?”

Antes do retorno a Reiquejavique, ainda passaríamos por outras quedas d’água. A mais emblemática destas finais, Gullfoss, impressionou-nos pela sua configuração em camadas não tanto pelo volume do caudal do rio Hvitá.

O Inverno chegava, no entanto, ao fim. Dentro em pouco, o intensificar do degelo alimentaria com fartura de água as infindáveis torrentes islandesas.

Guias: Islândia+