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Herança colonial

Herança colonial

O casario que foi substituindo, com recurso aos lucros dos diamantes, as tendas feitas de pano que inspiraram o nome "Lençóis da Bahia".

Lençois da Bahia, Brasil

Nem os Diamantes São Eternos

No século XIX, Lençóis tornou-se na maior fornecedora mundial de diamantes. Mas o comércio das gemas não durou o que se esperava. Hoje, a arquitectura colonial que herdou é o seu bem mais precioso.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Quando se contempla a cidade do topo da Serra do Sincorá dificilmente se consegue imaginar o estranho cenário provisório que esteve na origem do seu nome. Se nesses primeiros tempos Lençóis não era mais que um reduto garimpeiro caótico que tornava milionários os poderosos e esmagava os mais fracos, hoje, bastam uns dias para se constatar que, do seu passado, restam quase só os aspectos positivos.

Foi algo que o governo brasileiro, perante a pressão do MCC – o Movimento de Criatividade Comunitária criado por defensores da região – acabou por favorecer, proibindo a prospecção industrial e “promovendo”, em 1973, a cidade a Património Nacional, título apenas concedido às verdadeiras preciosidades históricas e naturais brasileiras.

Mas não é só isso que faz de Lençóis tão especial. Existem inúmeras cidades belas por esse mundo fora que não exercem o magnetismo desta que acabámos de conhecer. Há qualquer coisa mais. Qualquer coisa que ultrapassa os sentidos.

Ao fim de algum tempo torna-se óbvio que Lençóis e os seus 6400 habitantes vivem uma relação de amor incondicional e que, por sua vez, geram paixão nos visitantes brasileiros e estrangeiros. Estes, ligados a outras cidades e a outras pessoas, quando se vêem obrigados a partir, acabam por fazê-lo muito contrariados. Mas nem todos os forasteiros se conformam com a despedida. De tempos a tempos, lá surge mais um que não resiste à felicidade prometida e acaba por ficar. 

Dona Eulina, a proprietária da pousada em que nos hospedamos, foi uma das contempladas. Baiana de nascimento, mudou-se para São Paulo ainda criança e lá passou grande parte dos seus quase 60 anos. Nos últimos quinze, dava consigo a sonhar com um lugar diferente, envolto de uma atmosfera única de afectividade e bem-estar, um fenómeno que nos descreve com uma emoção renovada: “Numas curtas férias, resolvi voltar à Bahia com a minha filha e, por mero acaso, passámos por Lençóis. Passeando pelas calçadas, reconheci o refúgio dos meus sonhos. Depois de vencer os receios próprios da mudança, apressei a reforma, comprei uma casa e abri o negócio que giro agora, com o meu marido Roberto. Nunca mais quisemos sair daqui.”

Dos lençóis originais a domínio de coronéis

Apesar das condições precárias, a vida também não correu mal a muitos dos fundadores da povoação. As primeiras jazidas foram descobertas na Chapada Velha, em 1822, por bandeirantes que procuravam ouro e escravos mas não desdenhavam formas alternativas de enriquecer. Vinte e dois anos depois, um tal de “Sinhô” Casusa do Prado achou algumas pedras preciosas com maior valor e a região atraiu milhares de caça-fortunas, uns já abastados e opulentos a quem a riqueza não chegava, outros que só possuíam a roupa que vestiam. Perante a falta de habitações e outras infra-estruturas, os recém-chegados instalaram-se em tendas provisórias que, vistas das colinas em redor, pareciam lençóis estendidos ao vento. Foi esta visão descomunal que ditou o nome da futura vila.

Num ápice, circularam pelo Brasil lendas de tesouros incalculáveis saídos dos leitos dos rios e riachos da região e a migração intensificou-se. Anos mais tarde, os acampamentos de garimpeiros tinham já dado lugar a várias povoações como Vila Velha de Palmeiras, Andaraí, Piatã, Igatu e, a mais apetecida de todas, Lençóis da Bahia.

No auge do ciclo, Lençóis tornou-se na maior fornecedora mundial de todo o tipo de diamantes mas, a pouco e pouco, começaram a predominar as gemas toscas, úteis apenas para fins industriais e que, graças ao seu poder perfurativo, eram perfeitas para vários mega-projectos de construção civil então conduzidos pelos franceses, casos do canal do Panamá, do túnel de Saint Gothard e do metro de Londres. A compra sistemática e em grandes quantidades destas pedras menos preciosas foi motivo suficiente para o governo de Paris instalar um vice-consulado em Lençóis e, como era de esperar, da arquitectura à etiqueta, Lençóis e os seus negociantes afrancesaram-se. 

Tudo isto fez com que, no início do século XX, Lençóis e as cidades em redor tivessem visto desaparecer grande parte do seu potencial económico e os franceses partiram de vez. O principal testemunho da sua presença é, ainda hoje, o requintado edifício creme do vice-consulado, onde os diamantes eram negociados directamente com os representantes europeus. 

Depois da era francesa, com a liberdade cada vez mais real dos escravos e a perda das enormes verbas obtidas com a venda dos diamantes, Lençóis teve que se adaptar a um novo estilo de vida.

A partir de 1920, a cidade havia regredido de tal forma que depressa se tornaria num domínio decadente, disputado por vários coronéis e seus jagunços. O mais famoso de todos, o destemido Horácio de Mattos destacou-se dos demais recorrendo à força e à irreverência e levou mesmo o governo brasileiro de Epitácio Pessoa a assinar com ele um acordo de pacificação. Como vamos ver mais à frente, na região, assim como por todo o Sertão, um coronel “jagunceiro”, desde que vitorioso, podia ser um herói e este até a praça principal da cidade tem com o seu nome.

Apesar do declínio económico trazido pelo século XX e da perturbação social, na sua fase de decadência já Lençóis se havia consolidado como uma impressionante unidade arquitectónica, muito graças à necessidade de exibição da sua nova aristocracia milionária, mas também da população mais pobre que, mesmo sem grandes recursos, fez questão de seguir o exemplo.

A praça Horácio de Mattos é o ex-líbris do casario colonial herdado. A toda a volta do quase rectângulo que forma, os edifícios, maioritariamente de dois andares, são elegantes e coloridos, muitos deles com fachadas trabalhadas e janelas e portas ogivais. Distribuídos pelos prédios há candeeiros parisienses de tons cinza que conferem ainda mais requinte ao conjunto e, à noite, asseguram uma iluminação suave mas quente.

Depois do calor, a festa

À tarde, as praças e ruas de Lençóis, fustigadas pelo sol tropical, mantêm-se quase desertas mas, com o fim do dia, os turistas e os séquitos que os guiam e acompanham retornam das actividades na Chapada Diamantina. Por essa altura, os Lençoienses saem também das suas casas e a cidade anima-se. Dois dos lugares preferidos para a janta e convívio seguinte são o largo que surge a meio da rua das Pedras e a Avenida Senhor dos Passos. Ali, os pequenos restaurantes e as bancas improvisadas servem especialidades baianas como o pastel “acarajé” acompanhadas de “chopes” geladinhos, caipirinhas ou fabulosos sucos naturais. Com frequência, estes fins de tarde tornam-se ainda mais mágicos quando a banda local se reúne para ensaiar e inunda a cidade com os tons graves e agudos das mais genuínas composições brasileiras.

 Durante muito tempo a famosa rua das Pedras albergou o “brega” (a prostituição que sempre acompanhava os novos focos prospectores). É, agora, a par com as esplanadas da praça Horácio de Mattos, responsável por uma animação nocturna menos polémica.

Nela se situa o famoso Club 7, mais conhecido por Inferninho, um “disco-bar” à moda local que passa versões “tecno” de temas sertanenses e serve inúmeros tipos de cachaça. Esta combinação, em conjunto com a inquestionável boa-disposição dos clientes habituais transformou a “danceteria” num lugar de culto para os turistas maioritariamente jovens que visitam a cidade.

A partir das duas ou três da manhã, a única alternativa dançante ao Inferninho é o Veneno Café bar. A farra até pode ser boa, mas no que diz respeito aos nomes é mesmo assim: venha o diabo e escolha.

Mas nem tudo é assim tão profano por estas paragens. A religião continua a ter enorme importância e, como pudemos assistir, apesar das influências dos ritos e rituais africanos, (como o Jarê, a variação regional do Candomblé) os dias santos ainda se celebram à velha maneira portuguesa.

Deambulamos pela cidade quando somos surpreendidos pelo som de cânticos distantes acompanhados pelo rebentar de foguetes. Ao olharmos para trás, vislumbramos um enorme cortejo que sai da praça Horácio de Mattos e incorre na Avenida 7 de Setembro, em direcção ao coreto. Com a silhueta difusa do casario como fundo e a luz de centenas de archotes a rasgar o lusco-fusco, a cena prova-se digna de um filme passado na Idade Média e com excelente fotografia.

Após contornar o coreto, a procissão dirige-se à sua última paragem, a Igreja do Rosário. E ali, junta-se-lhe mais uma multidão de crentes que entoam temas litúrgicos. Somos autorizados a subir à varanda do coro. Dali, assistirmos à cerimónia em formato panorâmico. E este espectáculo de devoção reforça a impressão que já antes formávamos: passada a febre dos diamantes, Lençóis é, agora, acima de tudo, um retiro acolhedor, crente e espiritual.  

O Ribeirão do Meio e o Último Estertor do Garimpo

Entre os vários cursos de água com que a serra de Sincorá refresca Lençóis, os três principais, os Ribeirões do Meio, de Cima e de Baixo deliciam o povo e maravilham os turistas. O Ribeirão do Meio, então, é famosíssimo e muito frequentado. Principalmente aos fins-de-semana, logo pela manhã, é ver os “grupos excursionistas” partir com os seus farnéis para o meio da floresta. Da saída da cidade ao rio são cerca de 45 minutos de caminhada descontraída que, à pressa se podem transformar em meia hora. O trilho sinuoso, quase sempre sombrio, vai cortando a encosta da serra até que, quase no fim, revela um vale largo que tem início no topo escarpado da montanha.

É no vértice deste vale, descendo várias plataformas rochosas que o ribeirão se espraia. Uma dessas plataformas dá, então, lugar a uma rampa que a água -  repleta de óxido de ferro (mas limpa) e, por isso, avermelhada - continua a polir. Foi aqui que evoluiu o desporto radical mais sui géneris da região, o “escorreganço” artístico.

Mal chegam à pequena represa fluvial, os praticantes sobem cuidadosamente a rampa. Já lá em cima, combinam a coreografia a seguir. Depois, deixam-se escorregar a grande velocidade até entrarem na água. E se os turistas que experimentam pelas primeiras vezes já se contentam em sair incólumes de uma descida de rabo, já os locais atingiram níveis de desempenho surpreendentes e o seu único limite é, agora, a imaginação. Sentados ou de pé, de cabeça para baixo ou para cima, sozinhos ou em grupo, tudo vale para protagonizar a tarde e impressionar as garotas do Ribeirão.    

Enquanto isto, no vale acima, os derradeiros resistentes da febre do diamante continuam a tentar a sua sorte. Há algum tempo atrás, as técnicas que usavam incluíam ainda bombas de água destrutivas que, entre outros malefícios, aceleravam a erosão do leito dos rios. Há décadas atrás, os peritos chegaram à conclusão que a extracção dos diamantes que restam na Chapada é demasiado dispendiosa. Isto contribuiu para que, em 1995, o governo federal tivesse proibido a prospecção industrial, autorizando apenas o uso dos meios tradicionais. Por detrás da decisão esteve também o facto de Lençóis, muito mais que as vizinhas Andaraí, Palmeiras e Igatu, ser a cidade ideal para servir de base à exploração turística da Chapada Diamantina.

Depois de uma fase transitória em que a economia de Lençóis passou a assentar na produção de café e mandioca, actualmente, é o turismo garante a subsistência de grande parte da população.

Guias: Brasil+