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O Semáforo de Mao

O Semáforo de Mao

A imagem supervisora de Mao Tsé-Tung no centro do Portal de Tianamen e de frente para a praça homónima.

Pequim, China

O Coração do Grande Dragão

É o centro histórico incoerente da ideologia maoista-comunista e quase todos os chineses aspiram a visitá-la mas a Praça Tianamen será sempre recordada como um epitáfio macabro das aspirações da nação


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Estamos no pino do Verão. Pequim permanece abafada e envolta numa névoa que o seu trânsito intenso e cada vez menos velocípede adensa. Ainda assim, é bem visível a multidão de transeuntes que percorre o passeio disposto ao longo do muro sul da Cidade Proibida. Em pleno período de férias - até para milhões dos sempre atarefados servos e novos empresários chineses - chegam à capital cidadãos curiosos e entusiasmados de quase todas as províncias. Juntam-se-lhes expatriados e forasteiros que, como nós, andam mais intrigados que nunca com o sucesso e poderio global recém-conquistado pela etnia Han.

O destino comum desta romagem é a frente do Portal da Paz Celestial em que, há já várias décadas, a imagem paternalista do ex-Presidente Mao Tsé-Tung, parece supervisionar os acontecimentos em redor e os destinos da nação, protegido por um pequeno exército organizado de forma geométrica em seu redor. Foi Mao quem teve a visão de construir a praça maior e mais espectacular do mundo, com capacidade para acolher, no mínimo, 500.000 súbditos. Para tal, em 1950, o Portal da China foi demolido, tal como muitos outros edifícios em grande parte residenciais e os trabalhos tiveram início. Ficaram concluídos apenas 11 meses depois e concederam ao povo um vasto espaço de pedra e betão no cerne simbólico do sino-universo.

O fundador da República Popular da China também havia expresso o desejo de ser cremado após a sua morte. Mas os dirigentes sucessores consideraram o capricho comprometedor da grandiosidade do líder. No fim de 1976, desrespeitaram-no. O corpo de Zedong – a versão não transliterada do seu nome - foi mumificado e colocado para descanso eterno num mausoléu erguido de propósito no meio da praça, no lugar do antigo Portal da China. Em jeito de compensação, as autoridades aproveitaram para  alargar um pouco mais a praça. Passou a medir 880 por 550 metros e a poder receber 600.000 pessoas.

À imagem do que acontece, durante o Verão, para entrar na Cidade Proibida e em tantas outras atracções do centro da capital, formam-se filas intermináveis de pretendentes a contemplá-lo. E, mesmo se a história se encarregou de provar as atrocidades inspiradas pelo Grande Líder em função da ideologia vermelha e do seu Grande Salto em Frente, nem todos os chineses estão a par da realidade ou estão dispostos a aceitá-la. Muitos, gastam uns poucos yuans numa flor que hão de oferecer à sua memória controversa.

Após a longa espera, alguns visitantes mais desconfiados sentem-se enganados. Apesar dos procedimentos de segurança exaustivos e da obrigatoriedade de se retirar o chapéu, são comuns as acusações de que o que está em exposição não passa de um boneco de cera. O corpo surge numa espécie de cápsula de cristal, coberto por uma bandeira comunista antiga. Protegem-nos vários guardas do exército nacional que acossam os contempladores a prosseguirem o quanto antes para a sala seguinte.

Continuamos a explorar os recantos da praça e atravessamos as passagens subterrâneas sob a estrada que a separa da muralha da Cidade Proibida e do Portal da Paz Celestial.  

Instalaram-se ali por baixo, dezenas de vendedores de recordações e bebidas ambulantes e clandestinos, protagonistas de um jogo  de gato e rato a que a polícia parece já se ter habituado.

O fim da tarde é marcado por um pôr-do-sol difuso que alaranja a vertente oeste. E pelo aglomerar de mais uma multidão multinacional paciente, agora em redor de uma área delimitada em redor do mastro em que esvoaça, altiva, a bandeira chinesa.

A determinada hora certa, militares posicionados em frente ao Portal da Paz Celestial invadem a estrada e interrompem o trânsito. Um pequeno batalhão de soldados de espadas e espingardas ao alto surge do lado de lá dos muros, atravessa uma das pontes e a via ampla que a separa da praça homónima. Em seguida, entram na área restrita e distribuem-se de forma organizada, parte deles a encarar o público ruidoso que lhes aponta centenas de telemóveis para, assim, filmar e fotografar a cerimónia. Outros que sobem ao pedestal coberto a tapete vermelho e fazem continência em direcção ao portal e à figura de Mao já iluminada de forma artificial. Dois destes soldados elevados junto à base do poste arriam a bandeira e enrolam-na com recurso a trejeitos e puxões bruscos, quisemos crer que previstos pelo protocolo.

Quando terminam, o batalhão reagrupa-se e torna a cruzar a estrada de regresso ao lado de lá do portal, lugar de repouso da bandeira que volta a ser erguida após cerimónia semelhante na madrugada seguinte.

Entretanto, tinha anoitecido e a multidão dispersou-se pela praça mas teimava em não debandar, entretida em conversas e a fotografar e a filmar os panoramas iluminados em redor.

Esta permanência ia contra os preceitos das autoridades. De acordo, vários veículos conduzidos por agentes entram em acção vindos da estrada e, apoiados por uma mensagem ensurdecedora em mandarim, forçam as pessoas, como gado, a mover-se em direcção às escadas laterais de saída.

Alguns minutos depois, os últimos resistentes que continuar a ignorar ou a tourear a autoridade rendem-se ao poder da autoridade e às evidências. A Praça da Paz Celestial, construída para o povo, é mais uma vez esvaziada de gente, à força.

Desta vez, o confronto não faz vítimas. Mas de 15 de Abril a 4 de Junho de 1989, Tianamen foi palco de protestos políticos sucessivos que envolveram a sua ocupação principalmente por estudantes e greves de fome. No último dia da contestação, o presidente do Partido Comunista Chinês Deng Xiaoping e o primeiro-ministro Li Peng responderam com a declaração da Lei Marcial e, quando não conseguiram expulsar os manifestantes a bem, ordenaram uma chacina que se crê ter causado entre 300 e 800 mortos e muitos milhares de feridos. Em vez de tanques, a multidão descontente com a falta de abertura política e com a corrupção galopante no seio do PCC viu-se confrontada com forças militares reforçadas por tanques. A maior parte dos protestantes vitimados foram abatidos a tiro mas alguns foram esmagados pelas lagartas dos tanques.

Quem assistiu às imagens que chegaram ao resto do Mundo, dificilmente se esquece do momento mais emblemático dos acontecimentos: um protestante casual, em particular, mostrou enorme coragem e manteve-se na frente de uma coluna de blindados WZ-120 com dois sacos de compras, um em cada mão ao ponto de obrigar o que seguia na dianteira - pouco depois, também os outros - a mudar de direcção para o evitar. O homem desconhecido chegou a subir ao tanque e gritou para dentro da torreta. Pouco depois, pessoas também por identificar vestidas em trajes azuis apareceram e levaram-no para longe do tanque. Até hoje, pouco se sabe de forma inquestionada sobre a identidade destes intervenientes e o seu destino. Sabe-se e sente-se, no entanto, que Tianamen é tudo menos uma Praça de Paz.

Guias: China+