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Água grande

Água grande

Grupo de pessoas admira a Garganta do Diabo a partir de uma plataforma do lado brasileiro das cataratas.

Cataratas Iguaçu, Brasil/Argentina

O Grande Splash

Após um longo percurso tropical, o rio Iguaçu dá o mergulho dos mergulhos. Ali, na fronteira entre o Brasil e a Argentina, formam-se as cataratas maiores e mais impressionantes à face da Terra.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


À chegada a Foz do Iguaçu, ajuizámos mal a situação que depressa rotulámos de nova catástrofe meteorológico-fotográfica. Estávamos no fim de Janeiro, o mês mais quente na região, conhecida por temperaturas máximas que passam facilmente os 40º. Em vez do sol “queima-coco” que era de esperar, a região encontrava-se, havia quatro dias, coberta por um manto de nuvens escuras e pesadas que despejavam bátegas contínuas, acompanhadas de ventos fortes e trovoadas ameaçadoras.

Até que algo mudasse, esses quatro dias chegaram a sete, tempo que aproveitámos para desbravar Foz (como lhe chamam os locais) uma cidade mais fascinante que elegante que não parou de se desenvolver nos 18 anos de construção da Hidroeléctrica Binacional de Itaipu (partilhada pelo Brasil e Paraguai) a maior barragem do mundo até à finalização da chinesa das Três Gargantas.

De 35.000 habitantes, em 1973, Foz passou a albergar 256.000, por volta do ano 2001. Este crescimento pouco sustentado foi também incentivado pelo aproveitamento turístico das Cataratas de Iguaçu. Nem só de brasileiros se fez.

Depois da 2a Guerra Mundial, chegou a acolher Nazis foragidos mas, foi a conjunção das comunidades italiana, alemã, libanesa, ucraniana, argentina e paraguaia, chinesa e japonesa, entre outras secundárias, que dela fizeram uma das cidades mais multiculturais do mundo. É algo reforçado por se localizar na tripla-fronteira Argentino-Brasileira-Paraguaia, numa zona carregada de misticismo e suposto magnetismo extraterrestre que continua a atrair cultos religiosos, seitas de todos os tipos e … OVNI’s, já para não falar de células Sul-Americanas da Al-Qaeda, pelo menos, a confiar nos alertas permanentes dos serviços secretos argentinos e israelitas. 

Como muitas das frentes frias que atingem o interior da América do Sul no Verão, também esta trouxe enxurradas sucessivas e trovoadas ameaçadoras. Deixou o rio Iguaçu quase a transbordar mas acabou por se desvanecer contra o calor e a pressão alta das latitudes inferiores por onde andávamos. O sexto dia amanheceu por fim com um céu polvilhado por novelos brancos e deu-nos o mote aguardado para partirmos de Foz de Iguaçu rumo à “Grande Água” como se habituaram a chamar-lhe os indígenas Tupi-Guarani que há muito habitam a região tri-fonteiriça das cataratas.

Da entrada do Parque Nacional do Iguaçu, seguimos directos à sua área de Naipi. Depois de uma viagem rápida de elevador até ao cimo da torre de observação local, saímos ansiosos para o exterior e damos com o caudal em queda, colossal, brutal, muito mais poderoso do que alguma vez podíamos esperar, a troar de tal maneira que só ele se fazia ouvir.

Quando se confrontou com esta paisagem única, Álvar Núñez Cabeza de Vaca, o explorador obstinado de Jerez de La Fontera terá  exclamado inadvertidamente: “Santa Maria, que belleza!”. Partilhamos do seu entusiasmo. Do topo daquele terraço supremo, apreciamos o leito inflacionado do Iguaçu a despenhar-se sobre enormes rochas cobertas por erva, perdidas na névoa densa provocada pelo impacto da água e os paredões verdejantes opostos em se precipitam inúmeras quedas secundárias, por comparação, insignificantes.

Sabe-se que o fascínio do também conquistador foi efémero. Álvar Núñez liderava um pequeno exército que partira da ilha de Santa Catarina, ao largo da costa brasileira, em socorro da povoação hoje paraguaia de Nuestra Señora de Asunción, então cercada por indígenas beligerantes. Cabeza de Vaca depressa percebeu que teria que transpor o desfiladeiro traiçoeiro que acolhe o Iguaçu com toda a parafernália militar que transportava. E é mais que provável que as palavras iniciais de apreço tenham dado a lugar aos piores palavrões de que se lembrou.

A facilidade de exploração é hoje, a partir da margem brasileira do rio, absoluta, até algo exagerada. De regresso ao solo, estruturas e plataformas complementares permitem-nos aproximações inesperadas à extremidade aberta da enorme Garganta do Diabo e à base dos penhascos verdejantes do lado argentino, com vista privilegiada para a vizinha Ilha San Martin. São acessos sempre concorridos a verdadeiros duches naturais e que, em dias especialmente ventosos, garantem retornos encharcados.

Do espaço Naipi avançamos para a Trilha das Cataratas, um caminho sombrio que sobe ao longo da encosta luxuriante e vai desvendando retalhos do leito profundo, por entre a vegetação ou a partir de miradouros que lhe são conquistados.

Uma vez esgotadas as hipóteses de exploração terrestre e fluvial das cataratas do lado brasileiro, sobrava-nos a variante aérea que não tardamos a experimentar a bordo de um helicóptero panorâmico.

O voo confirma-se curto mas intenso. Permite-nos desvendar imensidão da selva brasileira e argentina. Acompanha o serpentear do rio Iguaçu e o seu espraiar, na zona que envolve as quedas, facilmente identificadas como a única superfície clara numa área verdejante interminável em redor. Na sequência, sobrevoarmos ainda as cataratas a baixa altitude ao longo da falha geológica comprida e profunda que as origina e à precipitação da água lamacenta que passa de tons acastanhados, a um branco intenso de que ascendem enormes colunas de névoa. A jusante das cataratas, essa falha, até então algo indefinida, revela as dimensões e características impressionantes que justificam o nome Garganta do Diabo.

Na zona do Baixo Iguaçu, a Argentina dista apenas umas poucas dezenas de metros do Brasil mas, para deslocações convencionais, fora do parque, a passagem de um país para o outro, obriga a um percurso de 23km a partir de Foz do Iguaçu. Este trajecto atravessa a Ponte Presidente Tancredo  Neves - pintada com as cores das bandeiras argentina e brasileira – e, depois das complexas logísticas fronteiriças, entra na província de Misiones pela Ruta 12, por onde avança até ao km5.

As cataratas estão divididas desigualmente entre o Brasil e a Argentina. Os últimos detêm a maior parte do caudal do rio Iguaçu mas, em contrapartida, o Parque Nacional do Iguaçu é maior que o argentino. Ambos albergam uma vida selvagem riquíssima, incluindo a zona das cataratas onde os animais mais fáceis de avistar são os coatis. Em bandos, estes não têm qualquer problema em invadir as áreas de apoio e edifícios em busca de comida que se habituaram a exigir aos turistas. Os restantes animais, principalmente mamíferos, são, por norma, furtivos, como é suposto, num ambiente que como o de todas as selvas a sério, é denso e escuro. O Parque Nacional Iguaçu esconde espécies perigosas como pumas e jaguares. Sempre que duvidar da sua presença, lembre-se que, em 1997, uma onça (assim lhe chamam os brasileiros) matou o filho de um guarda-parque brasileiro.

Do Lado Argentino

Logo à entrada do Parque Nacional del Iguazú percebemos uma abordagem ecológica bem mais respeitadora que a brasileira. A estratégia (preferimos acreditar na intencionalidade) foi alterar o menos possível. Damos com edifícios de recepção de madeira insignificantes. Percorremos uma longa “avenida” ladeada por erva alta de que se ramificam, para o meio da selva, os três principais percursos existentes: os Paseos Inferiores (1.5 km), os Paseos Superiores (1.2 km) e a Garganta – agora na sua versão hispânica - del Diabo.

Avançamos nestes percursos por uma combinação de trilhos minimais aqui e ali reforçados por passarelas de ferro suspensas. Os Paseos Inferiores prendam-nos com uma vista privilegiada para as quedas Duas Irmãs, Pequeña, Ramirez, Bossetti, Bernabé Méndez, Mbiguá e Adao y Eva, a partir das suas bases. Já no circuito superior, passamos por detrás destas cataratas secundárias num ambiente severo de selva ainda mais cerrada sobrevoada por tucanos e que sugere a iminência dos grandes felinos sarapintados ou negros - conforme dite o seu melanismo - que patrulham estas paragens. Deixamos para o fim a incursão ao limiar mortal da Garganta del Diablo.

Para lá chegar, apanhamos um pequeno comboio pitoresco até Puerto Canoas. Dali, percorremos a passarela com 2200m que atravessa parte considerável do leito do rio Iguaçu, no lado exterior de uma das extremidades da ferradura. Percebemos como, graças à força centrífuga a que o caudal é submetido, esta secção vasta e marginal do leito escapa ao precipício mais amplo e alimenta as restantes quedas argentinas.

A caminhada faz-se acima da água, num cenário retirado de calma ilusória, enriquecido por pequenas ilhotas cobertas de vegetação que compartimentam ainda mais o rio.

Para diante, como se tudo o resto fosse um mero ritual de iniciação, a passarela desemboca numa nova plataforma de observação e o troar torna-se mais ensurdecedor que em qualquer outra zona das cataratas.

Alguns passos adicionais e confrontamo-nos com o vazio. Desvendamos então como o Iguaçu se despenha no abismo rei (cerca de 150 metros de altura e 700 de largura) com tal violência que o impacto provoca uma nuvem permanente com cerca de 30 m de altura em que esvoaçam incontáveis andorinhões destemidos, em viagens estonteantes de e para os seus ninhos escondidos nas profundezas das falésias.

Mais contidos na velocidade, alguns barcos sobem o desfiladeiro.  Também desaparecem temporariamente na bruma para mostrar a Garganta del Diablo aos passageiros da forma o mais arrojada possível, mesmo assim, bem aquém das empreitadas inconscientes levadas a cabo na primeira metade do século XX.

Nos primeiros tempos turísticos das cataratas de Iguaçu, à falta de passarelas e plataformas, era frequente os visitantes destemidos alugarem um barco a remos e um remador. Este, levava-os ao limite das quedas e, a remar como um louco contra a corrente, ali imobilizava a embarcação. Enquanto isso, os passageiros divertiam-se a passar de um lado para o outro do barco, a tirar fotos, trocar impressões e tudo o que aquele momento de absoluta descontracção os inspirasse a fazer.

Mas qualquer abuso da sorte tem os seus limites e o inevitável acabou por acontecer. Em 1938, a força do caudal venceu o remador de serviço. O barco que manobrava despenhou-se com sete alemães a bordo. Ninguém sobreviveu. Estes desafios dementes à morte foram, de imediato, proibidos e a exclusividade do salto devolvida à grande água do Iguaçu.