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Praia portuária

Praia portuária

Jovem expatriada em Singapura numa das praias artificiais de Sentosa.

Sentosa, Singapura

O Recreio de Singapura

Foi uma fortaleza em que os japoneses assassinaram prisioneiros aliados e acolheu tropas que perseguiram sabotadores indonésios. Hoje, a ilha de Sentosa combate a monotonia que se apoderava do país.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


A espera é tão curta quanto o contador decrescente digital marcava. Pontual ao segundo, a pequena composição azul-celeste Expresso Sentosa surge de uma curva fechada do monocarril e, desprovida de qualquer agente humano, desliza lentamente até à estação. Uma pequena multidão multiétnica entra nas carruagens futuristas de forma ordeira e aguarda o início da viagem enquanto a áudio-anfitriã transmite instruções e informações em várias línguas.

As portas fecham-se, então, com um som espacial. O comboio avança sobre o mar da Harbour Bay até que passa diante dos contentores sem fim do porto de Singapura, até há bem pouco o mais movimentado do mundo, ultrapassado apenas recentemente pelo de Xangai. Alguns passageiros são apanhados de surpresa pela imensidão do estranho cenário colorido e expressam a sua admiração. Outros - os nativos já conhecedores e os que se mantêm de olho nos filhos irrequietos - limitam-se a ansiar pela chegada à que se habituaram a ver como a ilha da salvação.

O governo singapurense luta há muito para evitar a estagnação da economia nacional e tenta optimizar o número de habitantes através da captação de talentos dos quatro cantos do mundo oferecendo aos candidatos salários, protecção social e restantes benesses acima da média.

Mais que necessários, estes iscos são imprescindíveis. Quem chega, apercebe-se que o espaço e as novidades a explorar depressa se esgotam e o mundo muçulmano socialmente semi-rígido em redor – Malásia e Indonésia – levanta uma barreira de que os próprios singapurenses mais ocidentalizados se queixam. Sentosa surgiu como uma resposta das autoridades a este sentimento de aborrecimento e clausura. Em três décadas, o governo converteu-a de bastião militar hiperactivo no principal recreio da região.

Durante a 2a Guerra Mundial, a ilha foi fortificada pelos britânicos que aguardavam uma tentativa de invasão nipónica, por mar. Mas os japoneses trocaram-lhes as voltas e capturaram primeiro a Malásia vindos do norte. Apesar de os colonos se gabarem de que era inexpugnável, Singapura não tardou a cair. Com a inversão do poder, Sentosa foi transformada num campo de concentração para prisioneiros de guerra britânicos e australianos. Também lá seriam assassinados chineses suspeitos de actividades anti-nipónicas.  

Confirmada a reviravolta e a vitória dos aliados, o 1º Regimento de Artilharia Real fez dela a sua base. Dez anos mais tarde, seria substituído por unidades de infantaria Gurkha encarregues de defender a ilha contra a ameaça da Konfrontasi, uma acção de retaliação e sabotagem indonésia contra a criação da Federação da Malásia (que agrupou, por alguns anos, os territórios de Singapura e da actual Malásia). Já nos anos 70, o governo do território independente considerou que estava conseguida a estabilidade desejada e transformou a ilha num refúgio de diversão e férias com o propósito de animar os residentes e atrair visitantes. Aproveitou ainda para a rebaptizar de Sentosa, um termo que significa paz e tranquilidade, em Malaio. Desde então, investiu 319 milhões de euros, a que se juntaram 268 milhões de capitais privados. O lugar sofreu uma longa metamorfose e, como acontece com frequência na pragmática Singapura, os objectivos foram suplantados. Hoje, são cerca de 5 milhões as almas que se entretêm em Sentosa todos os anos. 

Deixamos o monocarril na estação de Waterfront e damos de imediato com as bancadas erguidas em redor de um campo de vólei de praia montado para acolher uma prova internacional do desporto. Contornamos a estrutura e damos com uma das várias enseadas artificiais da ilha, construídas com areia trazida de outras partes do sudeste asiático. Molhes elevados, erguidos com pedras empilhadas, cobertos de terra batida e uma linha de coqueiros tombados protegem a pseudo-baía do mar do Estreito de Singapura e isolam-na de uma vista nada idílica que a nação não se pode dar ao luxo de sacrificar.

Banhistas esbracejam dentro da água quase imóvel, outros absorvem os raios solares deitados sobre o areal elevado. A atmosfera é o mais balnear possível, tendo em conta as circunstâncias. Para lá do molhe, estão atracados ou navegam dezenas de petroleiros e cargueiros de calado impressionante que, não fosse a barreira, provocariam pequenos tsunamis.

A passagem marítima ao largo liga o oceano Pacífico ao Índico que, de outra forma, obrigaria a um slalom entre as ilhas indonésias. É a mais movimentada à face da Terra. E para bem da economia singapurense, a presença das embarcações costuma revelar-se ainda mais intensa.

Subimos à linha de costa falsa para melhor contemplarmos o cenário surreal e acabamos por o partilhar com uma família de chineses intrigados. Em seguida, mudamo-nos para o famoso Underwater World de Sentosa.

Ali, uma passadeira rolante move os visitantes em redor dos tanques gigantescos, num fundo de mar oxigenado que exploramos sob as silhuetas deslizantes de raias e tubarões.

Somam-se às cores dos peixes e dos corais as do saris das mulheres indianas e dos baju melayus das senhoras malaias. A mistura forma um ecossistema improvável que nos entretemos a estudar enquanto as famílias se fotografam e filmam junto dos seus espécimes preferidos.

De volta à superfície, temos outros mundos para desvendar. O parque das borboletas, o jardim dos insectos e a Terra dos Vulcões, decorada com motivos e temas maias. De quando em quando, alguns desgastam-se ou sofrem percalços e são substituídos por outros como aconteceu com a Ilha da Fantasia que, dois acidentes mortais depois, fechou as portas.

Optamos ainda por espreitar a Tiger Sky Tower que nos espanta com um panorama a 360º sobre Singapura, a Malásia e o estremo norte retalhado do arquipélago de Sumatra. Tínhamos chegado havia apenas alguns dias destas últimas paragens e ainda recuperávamos energias de uma longa aventura indonésia que, em termos de cansaço, o calor e a humidade singapurense só haviam prolongado. Aproveitamos, assim, diversas experiências inovadoras de um SPA excêntrico e cedemos a juntarmo-nos a um grupo de amigas que trocam gritos histéricos com os pés imersos num tanque repleto de peixes Garra Rufa. Apenas para lhes estragarmos a festa.

Só temos lugar do canto oposto do tanque. É lá que nos sentamos e começamos a dialogar com as nativas até que causamos uma inesperada injustiça: “Oh, assim não pode ser!! Vocês é que ficam com todos??“ Entretidos com a conversa, não estávamos alerta para o que se passava dentro de água mas, por andarmos há meses de sandálias de caminhada, tínhamos os pés  queimados pelo sol. Os peixes preferiam-nos aos brancos e imaculados das adolescentes e mudaram-se num ápice para o nosso lado.

O dia termina cedo sobre o Equador que passa só um pouco abaixo de Singapura. Deixamos o edifício requintado e partimos à descoberta de outros recantos da ilha, casos do Forte Siloso, da praia homónima e da Palawan que tomou de empréstimo o nome de um sub-arquipélago do sul das Filipinas e, quem sabe, também alguma da sua areia.

Ali, a final de um concurso de boogie anima dezenas de crianças que dançam, em fato de banho, ao som de música estridente. É mais ruído e movimento do que estamos dispostos a assimilar e do que o nome Sentosa prometia. Afastamo-nos da competição e ficamos a observar os petroleiros e os cargueiros contra o pôr-do-sol que pintava o vasto Estreito de Singapura.