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Fajazinha (Ocaso)

Fajazinha (Ocaso)

Sol põe-se abaixo de uma camada de nuvens carregadas que escurece a Fajãzinha.

Flores, Açores

Os Confins Inverosímeis de Portugal (e da Europa)

Onde, para oeste, até no mapa as Américas surgem remotas, a Ilha das Flores abriga o derradeiro domínio idílico-dramático açoriano e quase quatro mil florenses rendidos ao fim-do-mundo deslumbrante que os acolheu.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


É íntima a relação do aeroporto das Flores com Santa Cruz, a sua capital. A cidade aproveitou-se de uma laje destacada da costa oriental­­. Arruma-se como pode, entre o mar e a pista de asfalto que a separa da encosta inaugural da ilha. A algumas milhas para norte, a Vila do Corvo espreita-a em permanência, numa vigia mútua e solidária que atenua a solidão e a pequenez imposta pelo Atlântico sem fim.

O avião revela-as às duas, uma de cada correnteza de janelas. O casario de Santa Cruz, mais e mais definido à medida que a aterragem se aproxima. O do Corvo, aninhado na base da ilha-montanha, apenas e só um vislumbre.

Pousamos contra um vento castigador. Desembarcamos e, num ápice, saímos prontos a verificar a promessa do nativo ao balcão do rent-a-car: “pois, mas mesmo que esta seja a última, vai ser a ilha de que vão gostar mais.” afiança-nos convicto da beleza da sua terra. Apressamo-nos a instalar-nos e a explorá-la decididos a deixar, para o fim, a cidade que nos recebera.

Contornamos o aeroporto e seguimos vertente acima, apontados à Ribeira dos Barqueiros. Um desvio da estrada conduz-nos ao Miradouro do Monte das Cruzes e, este, à perspectiva elevada e contrária da pista do aeroporto e da capital, agora do lado de lá, sobranceira ao oceano.

Mudamos da principal via costeira para a ER2-2 que atravessa a ilha a meio. Avançamos pelo reduto mais elevado das Flores, um domínio de quase só verde multiplicado entre cumes e prados ondulantes e velhas crateras afundadas por lagoas. São de tal forma abundantes estas crateras e lagoas que o segundo miradouro em que nos detemos não só foi baptizado em sua honra como as revela aos pares: a Caldeira Negra (ou Funda) e a Caldeira Comprida, lado a lado, vizinhas, mas díspares também no tom da água. A primeira é escura como breu, a outra, verde, como que tingida pela vegetação envolvente. A norte destas, a Caldeira Branca e a Lagoa Seca fazem um par rival que enriquece a Reserva Florestal Natural do Morro Alto, no sopé da elevação homónima e, com os seus 914 metros de altitude, suprema da ilha.

Aproveitamos a proximidade. Metemo-nos por uma estrada de terra e conquistamo-la aos solavancos, a pontos, ladeados por incríveis muros naturais amarelos e verdes de musgo e de líquenes ou por extensões surreais de bolas atufadas de vegetação. Pequenas manadas de vacas e novilhos cor-de-avelã estranham a nossa incursão e trepam ao cimo dos tufos arredondados de onde nos observam com suspeição.

O cume do Morro Alto não tarda. Desvenda-nos as várias lagoas porque tínhamos passado e um mar franzido de mato quase raso que se prolongava até ao oceânico em redor.

Descemos das alturas apontados à costa poente. Pouco depois de regressarmos ao alcatrão, atravessamos a Ribeira Grande. Apercebemo-nos mais tarde, no mapa, que nasce nas terras altas, se divide, flui em direcções opostas e cruza a ilha de lado a lado.

Em qualquer ilha dos Açores, abundam os miradouros. Nas Flores, não é diferente. É com grande proveito panorâmico que neles continuamos a deter-nos. Em seguida, o de Craveiro Lopes, cravado sobre as falésias viradas a ocidente, de onde vislumbramos o casario da Fajazinha, a salpicar o vale profundo e retalhado de minifúndios murados que acolheu a povoação.

A Fajazinha surge na costa oposta àquela em que, em 1480, se inaugurou o povoamento da ilha. Foi seu responsável um flamengo. Willem van der Haegen negociou com Dª Maria Vilhena os direitos de capitão donatário originais de Diogo de Teive e que, entretanto, passaram dos Teives para Fernão Teles de Meneses. Este – são coisas do destino - morreu em 1477, vítima de uma pedrada, durante uma briga numa rua de Alcáçar do Sal.

O assentamento do flamengo durou dez anos. Vencido pelo isolamento, Der Haegen mudou-se para São Jorge. O povoamento só foi retomado em 1504, por iniciativa do rei Manuel I, através do novo capitão-donatário João da Fonseca que promoveu a chegada de colonos da Terceira e da Madeira. Seis anos depois, vários outros se instalaram, provindos de distintas regiões do norte de Portugal. Fixaram-se em distintas zonas da costa da ilha, de acordo com o determinado pela sesmaria que lhes fora atribuída e assim incumbidos de cultivar trigo, cevada, milho, legumes, urzela e pastel. Lajes das Flores e Santa Cruz das Flores receberam, dessa forma, as suas Cartas de Foral. Mesmo dividida por bolsas semi-isoladas entre si, a povoação da ilha pegou finalmente de estaca, também devido ao estímulo do comércio com mercadores vindos do Faial e da Terceira.

Descemos ao âmago da Fajazinha, uma das aldeias que prosperou até meio do século XIX quando quase chegou aos 900 habitantes e que, em 2011, já só tinha 76. No entretanto, uma boa parte da população - sobretudo os homens mais jovens - embarcaram em navios baleeiros rumo às terras da América do Norte: Boston, New Bedford, Provincetown, Natucket.

Nas Flores, malgrado os sermões dos padres que tentavam impingir mil e uma agruras da vida no destino final e a preocupação das autoridades em conter esta sangria populacional com patrulhas marítimas regulares de canhoneiras, entre 1864 e 1920, partiram da ilha quase 10.000 pessoas. Foram tanto florenses como açorianos de outras paragens que se mudavam para as Flores em busca da sua oportunidade. O tilintar das águias americanas (“moedas de ouro de 20 dólares) exibidas pelos retornados e a possibilidade de evitarem o serviço militar nas colónias africanas que nada lhes diziam, provaram-se sempre argumentos mais convincentes.

Procurávamos onde estacionar quando vemos um cesto carregado de espigas de milho mover-se abaixo, seguro por uma única mão do vulto que o carregava. Metemos conversa com o rapaz. Mesmo sabendo de que, a seu ver, a cena não passava de um de tantos esforços agrícolas, gabamos-lhe a elegância rural. O moço reage com bem mais sensibilidade e acolhimento do que esperávamos. “Acham? Então cheguem ali acima. Já vão ver diferente. Está lá a minha família a colher o resto.” Seguimos a sugestão. Damos com um milheiral já desfolhado e com António de Freitas, Maria de Fátima e Rui Filipe, três gerações de florenses sorridentes, pachorrentos e bem consigo próprios, a partilharem a mesma tarefa que interrompem com prazer para nos aturar. Conversamos sobre a beleza da Fajazinha e as peculiaridades da sua agricultura. Até que nos começa a custar atrasar-lhes mais a vida e nos despedimos.

Atravessa a Fajazinha a tal Ribeira Grande fenomenal que antes tínhamos cruzado. Pois reza a história que, alimentada pelas chuvas que tantas vezes encharcam a ilha, esta mesma ribeira passa com frequência de Grande a torrencial, de benesse a ameaça e faz sérios estragos. José António Camões, um padre que pregou a Cristandade na freguesia, narrou um seu capricho de 1794 com realismo: “Houve tal inundação e enchente que não só derrubou a dita ponte , mâs nem sequer ao menos della ficou o menor vestígio, sem rasto, saindo de seo leito natural a dicta ribeira que no desembocar no mar deixou um areal largo em maior distância de 300 braças com uma perda inextimavel dos pobres lavradores que possuiam terras a ella contíguas, que todas ao mar foram derregadas.”

Como descreveu também o padre Camões, a determinada altura, a Ribeira Grande mergulha numa das mais impressionantes quedas d’água da ilha, com cerca de 200 metros. Logo ao lago, o caudal anexo da Ribeira do Ferreiro espraia-se pelo prolongamento da mesma falésia e gera aquela que se tornou a imagem de marca das Flores: as quedas d’água do Poço Ribeira do Ferreiro, mais conhecida como Alagoínha. É a nossa próxima paragem.

Demoramos a achar o caminho curvo feito de grandes calhaus encaixados à sombra de uma floresta viçosa. Quando o terminamos de percorrer, depressa damos com o paredão quase vertical forrado do verde da vegetação que se estende desde o alto à superfície da lagoa. Vários véus de noiva deslizam, lado a lado, por esse verde abaixo até se integrarem no caudal do seu destino. Quando o vento amaina, a Alagoínha faz de espelho. Duplica a cena acima e a beleza tão peculiar daquele lugar. Custa-nos deixá-lo.

Da Fajazinha, movemo-nos costa ocidental acima, rumo à Fajã Grande. Também ali se destaca uma enorme queda d’água, que erodiu o seu caminho pela majestosa Rocha da Fajã até se estatelar, nesse ponto, noventa metros abaixo, no Poço do Bacalhau, apesar do nome, repleto de enguias.

Também não é o nome que o faz mas a Fajã Grande tem bem mais habitantes que a Fajazinha, para cima de duzentos em 2011. O grosso da sua fama vem, no entanto, de outro atributo. É a última das povoações ocidentais da Europa.

A oeste, sobra apenas o Ilhéu de Monchique, um rochedo vulcânico com trinta metros de altura. Ermo, inóspito e sombrio, é este o derradeiro solo europeu. Durante séculos, foi usado pelas embarcações para acertarem as suas rotas e verificarem os instrumentos de navegação. Hoje, serve, acima de tudo, como referência do tal extremo geográfico.

Na noite que se seguiu choveu a sério. Chuva com que, por estranho que pareça, nenhuma outra ilha dos Açores nos havia ainda prendado. Continuou, até, pela manhã adentro mas, assim que o sol se empinou, afugentou as nuvens choradeiras e abriu passagem à bonança. Aproveitamos e aventuramo-nos pela estrada que ziguezagueava para sul, com passagem por Caveira, por Lomba, Fazenda das Lajes e Lajes das Flores, o assento do Governo Municipal e local de um porto de mar recém-alterado que veio alterar a ordem comercial das coisas, na ilha.

Encanta-nos a fachada insinuante da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e, logo à frente, o miradouro do velho forte sobre o porto, com que a povoação se tentou defender dos ataques de corsários ingleses como aquele que, logo em 1587, a deixou saqueada e parcialmente destruída.

No dia anterior, tínhamos passado da Fajazinha para a Fajã Grande. Tocava-nos agora uma curta viagem entre as Lajes e o Lajedo, com extensão ao pitoresco Mosteiro, a paróquia mais pequena da ilha com apenas 43 habitantes registados, em 2011. A caminho, passamos pela Rocha dos Bordões, um fenómeno geológico curioso em que toda uma fachada de um penhasco solidificou com enormes estrias verticais na base.

Dali, invertemos caminho apontados a Santa Cruz. Na capital, entretemo-nos a apreciar as várias igrejas, com atenção redobrada à Matriz da Conceição, uma das mais imponentes do arquipélago. Também procuramos os fortes que a cidade foi erguendo com os anos, vítima da urgência de repelir os frequentes ataques. No tanto que caminhamos, não nos fascina nenhuma vista aproximada tanto como a que tínhamos revelado no primeiro dia, a partir do monte das Cruzes. Lá nos apressámos a regressar. Reapreciamos o cenário harmonioso e aguardámos que algum avião chegasse para aterrar. O nosso partia dentro em pouco pelo que nos vimos obrigados a pôr cobro à descoberta das Flores e a regressar à Terceira.