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Aposentos dourados

Aposentos dourados

O velho palácio do Khan, entre dois enormes plátanos, por altura do Outono, dourados.

Sheki, Azerbaijão

Outono no Cáucaso

Perdida entre as montanhas nevadas que separam a Europa da Ásia, Sheki é uma das povoações mais emblemáticas do Azerbaijão. A sua história em grande parte sedosa inclui períodos de grande aspereza. Quando a visitámos, tons pastéis de Outono davam mais cor a uma peculiar vida pós-soviética e muçulmana.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Detém-nos a fronteira da Geórgia com o Azerbaijão. A atmosfera da viagem madrugadora, até então fluída e agradável, degrada-se. Apressamo-nos a percorrer o longo corredor desnivelado e dotado de repetidos degraus que separa as duas aduanas. Entramos no edifício azeri atrás de um grupo de passageiros que seguiam numa marshukta um pouco mais rápida que a nossa. Enquanto esperamos que os militares processem a sua entrada, surgem dois homens em trajes rurais conspurcados. Vinham a bordo de um camião que transportava vacas e empestam o ambiente da sala sem apelo nem agravo. Os oficiais passam-nos à nossa frente. É, assim, prendados por aquele aroma da pecuária georgiana que nos submetemos ao seu aturado escrutínio.

“Uhmmm... portugueses. Já jogámos convosco várias vezes. Ganham-nos sempre mas uma vez quase que conseguíamos... Bom...vemos aqui que estiveram há poucos dias na Arménia. Porque é que foram à Arménia? Estiveram em Nagorno Karabakh?”, interroga-nos o único funcionário que falava inglês. “Se foram, é melhor dizerem-nos já!”

Não tínhamos ido. Explicamos da forma o mais paciente e inocente possível o que tínhamos feito na Arménia. Isso não impede que nos abram as mochilas e as vasculhem de forma aturada, concentrados em encontrarem documentos, programas e mapas de viagem que nos incriminassem. Fazem-no em vão mas para desespero dos restantes passageiros da nossa marshukta e de outras que se tinham entretanto acumulado. Por fim, lá nos concedem a entrada no Azerbaijão.

Regressamos à marshukta e prosseguimos viagem até Zaqatala. Nesta cidade, negociamos a derradeira viagem até Sheki. Uma hora e meia depois, já estamos à procura do lar de Ilgar Agayev, com o condutor a fazer-se a mais alguns manats (moeda azeri) por a casa ser meio afastada do centro e o empedrado irregular lhe danificar a suspensão.

Metêmo-nos por uma ruela apertada que termina num portão. Abrimo-lo e passamos para um quintal pitoresco, adornado por um diospireiro e outras árvores. Duas mulheres descem a escadaria da vivenda e dão-nos umas boas-vindas tímidas, sob os olhares curiosos de algumas familiares. Instalamo-nos no quarto que nos tinham reservado. Reparamos, de imediato, num enorme tapete azeri a cobrir boa parte da parede. Chega Ilgar. Partilhamos um chá e conversamos sobre as suas aspirações e os planos para o turismo em Sheki. Entretanto, Ilgar desculpa-se mas tem que ir.

A tarde já vai a meio. Pouco depois de o anfitrião sair, fazemo-nos à povoação. Começamos por espreitar o palácio de Verão do Khan. Foi erguido no término do século XVIII, numa altura em que a produção e processamento da seda em Sheki, e o respectivo rendimento atingiam números impressionantes, cerca de dez milhões de rublos em 1910.

Apesar da prosperidade, Sheki situava-se numa encruzilhada de poderes. Os seus sucessivos khans procuraram a segurança que só o império russo poderia garantir sob a forma de protectorado. Só que o feitiço virou-se contra o feiticeiro. O khanato foi abolido e a área anexada por uma província russa caucasiana, o Caspian Oblast. Por volta de 1922, já fazia parte da República Federativa Soviética Socialista do TransCáucaso que não tardou a integrar-se na U.R.S.S.

Hoje, o monumento histórico mais impressionante da povoação, o palácio é apenas a estrutura que subsiste de um complexo muito mais vasto protegido pelas muralhas da fortaleza de Sheki. Chegou a incluir um palácio de Inverno, residências da família do Khan e os aposentos dos servos.

Do que sobra, encanta-nos acima de tudo a curiosa posição do edifício com visual de “Mil e Uma Noites”, disposto entre dois enormes plátanos com copas douradas, tão imponentes que parecem elevar-se acima das montanhas por detrás.

Dedicamos-lhe algum tempo e ao seu passado glorioso. Depois, saímos para o exterior das muralhas por uma porta no cimo da encosta. Mal a cruzamos, esbarramos em Abdulah Axundov e em Elvia Xamedov, dois jovens amigos aparentemente vestidos segundo uma mesma inspiração azeri. Abdulah trajava uma camisa aos quadradinhos por debaixo de um blusão de cabedal negro e calças de ganga também pretas. Elvia trazia uma camisa vermelha sob um blazer de cetim azul-escuro e calças parecidas com as do compincha. O duo usufruía de uma folga dos seus estudos. Queria aproveitar essa benesse e registar a farra. De acordo, quando demos por nós, estávamos a fotografá-los junto a um Lada grená e contra as muralhas. Não tardámos a perceber que não eram os únicos nas redondezas com vagar para aquele entretém. Duzentos metros abaixo, três outros parceiros de tempo livre, também eles vestidos com predomínio de negro, apreciavam o evento. Quando deles nos aproximamos a caminho do centro, metem-se connosco e inauguram a sua própria sessão particular, liderados por Mahmud que a, coberto da sua boina achatada, ensaia sucessivas poses cómicas que levam os companheiros à lágrima.

Dali, ainda nos dispusemos a espreitar uma igreja albanesa do século XII ou XIII cercada de mais diospireiros. Apanhamos primeiro um autocarro, depois um Lada táxi conduzido por um jovem que nos deixa à porta. No regresso, já sobre o pôr-do-sol, caminhamos por ruelas apertadas daquela povoação até que um outro Lada se detém e nos oferece boleia. Já nele seguia Vassif Davudov, professor de matemática que tinha dois dos seus filhos numa das turmas que lecionava e falava um pouco de turco, de inglês, de francês e de russo. Ora, o facto de Vassif ser apaixonado por futebol e até pelo futebol português não nos surpreendeu. O que nos desarmou foi quando começou a desbobinar, orgulhoso, nomes de clubes menores dos nossos campeonatos. “Santa Clara, Leixões... ah, esperem como se chama o outro... Paços de Ferreira!”.

Ilgar tinha-nos recomendado jantarmos no restaurante de um amigo. Ficava meio escondido numa ruela afastada da estrada principal pelo que tivemos dificuldade em achá-lo. Quando, encontrámos, por fim o Café Bahar, demos com um estabelecimento lúgubre e fumarento, frequentado apenas por homens que fumavam e bebiam chá de pequenos pires mais fundos que o normal. Pouco habituados a forasteiros, espantam-se com a entrada de um casal que em termos, étnicos, tinham dificuldade em compreender. Ignorámos a sua estranheza e a total inaptidão dos jovens empregados para falar outra língua que não o azeri. Instalamo-nos, comemos duas sopas tradicionais consistentes (piti e bors) acompanhadas de kompot, um sumo de frutas mistas com cor de groselha. Por volta das dez e meia, rendemo-nos ao cansaço e regressamos ao quarto que Ilgar já algum tempo nos aquecia. Toda a sua família convivia na sala logo ao lado que comunicava com o quarto através de uma janela fechada. Mas, estávamos de tal forma exaustos pelo despertar madrugador e pela viagem de Tbilisi que nem a ruidosa confraternização nos importunou o sono.

Despertámos e demos com um pequeno-almoço já pronto na mesa da cozinha logo à frente do quarto. Devorámos o repasto matinal e voltámos a sair à descoberta. Tínhamos curiosidade em perceber como pareceria Sheki vista de uma das encostas acima. Demorámos algum tempo para acertar com uma via que nos permitisse deixar a cidade. Sem termos ideia de para onde prosseguíamos, conseguimo-lo primeiro por ruelas repletas de folhas amarelas, vítimas da queda outonal. Logo, através do vasto cemitério da cidade.

Continuamos a subir por entre as campas e jazigos aglomerados dentro de gradeamentos familiares. Até que, a determinada altura, se revela, lá em baixo, o casario abundante disposto em redor do edifício mais gráfico e emblemático de Sheki, o seu caravancerai (estalagem) secular. Dali, o conjunto formado pelos telhados em tons de terra e pela derradeira folhagem multicolor, ligeiramente retocados pelo fumo branco de algumas fogueiras e chaminés, formavam um deslumbrante cenário outonal. Sem vivalma por perto, apreciamo-lo na paz eterna dos falecidos e durante o tempo que nos apetece que passe.

Até que descemos ao vale e, entre os cada vez mais Ladas que percorrem as suas calçadas, não tardamos a dar com o grande caravancerai que em tempos alojava os mercadores que passavam pela cidade e os animais e a carga com que seguiam.

A porta principal está aberta. Entramos e investigamos o vasto edifício, com quase 250 quartos dispostos atrás de sucessivos arcos erguidos em redor de um pátio principal. Naquela ocasião, como em grande parte do ano, o caravancerai estava praticamente vazio mesmo se, em época mais que baixa, alguns viajantes visitavam a cidade.

À saída da estalagem, detemo-nos a fotografar uma longa fila de Ladas disposta ao lado de um grande outdoor com a fotografia do presidente do Azerbaijão. Sem o esperarmos, constatamos que não éramos os únicos forasteiros nas redondezas. Um ciclista surge derreado do fundo da calçada. Quando chega perto de nós, aproveita para descansar o corpo e a alma da viagem que já seria longa. Apercebemo-nos da bandeirinha que tinha instalada sobre o volante. Conversa puxa conversa, confirmamos que Askar Syzbayev era cazaque. Ainda algo ofegante, o cicloturista conta-nos o que andava a fazer. “Tive a minha sorte. Consegui um patrocínio e planeei uma viagem de 8000 km entre a França e o Cazaquistão. Tem sido cansativo mas, ao mesmo tempo, maravilhoso.” Continuamos a falar por mais algum tempo mas Askar estava derreado e farto de pernoitar na tenda que transportava. Tinha decidido que, em Sheki, dormiria mais confortável mas precisava de encontrar um lugar com preços compatíveis com o seu orçamento. Bastou-lhe examinar a fachada e a entrada do edifício histórico para concluir que não poderia contar com o caravancerai.

Despedimo-nos. Continuamos a explorar o centro da cidade. Deliciamo-nos em particular com os grandes estendais soviéticos de roupa dispostos entre andares opostos de blocos de prédio distantes e em que as mulheres estendiam ou apanhavam a roupa operando as enormes cordas rotativas.

Antes de deixarmos Sheki em direcção à capital Baku, ainda encontramos outros pontos com vistas distintas sobre o casario e os minaretes que dele se projectavam. Nas imediações de um desses lugares, damos de caras com um monumento que lembrava os filhos de Sheki, vítimas da guerra entre o Azerbaijão e a Arménia, um conflito sempre latente e que, devido à nossa visita da Arménia, quase nos impedira de entrar no Azerbaijão.