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Sphynx

Sphynx

Visitantes do gatil Cats Livin' de Odaiba admiram um estranho gato Sphynx, também chamado Canadiano sem pelo.

Tóquio, Japão

Ronronares Descartáveis

Tóquio é a maior das metrópoles mas, nos seus apartamentos exíguos, não há lugar para mascotes. Empresários nipónicos detectaram a lacuna e lançaram "gatis" em que os afectos felinos se pagam à hora.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


O comum habitante de Tóquio acorda por volta das seis da manhã. Anda ou pedala até o metro e lê, ouve música ou dormita quase uma hora até à estação mais próxima do local de trabalho. Entra ao serviço cerca das oito e cumpre as suas funções o mais escrupulosamente possível até às sete, por vezes oito da noite ou mesmo mais tarde, dependendo da hora a que os superiores hierárquicos os incitam a ficar. Pelo meio, há uma mera hora de descompressão, dedicada a uma refeição rápida seguida de algum convívio ou de um passeio.

O ritmo desumano que é imprimido pela capital deixa pouco tempo de sobra para tomar conta de animais de estimação e, se essa restrição já desencoraja a maior parte dos interessados em tê-los, outras ainda mais impeditivas se impõem.

Tóquio tem das habitações mais dispendiosas à face da Terra. Por esse motivo, a maior parte dos locais opta por alugueres de pequenos apartamentos, frequentemente espartanos no que diz respeito ao conforto e também às regras de condomínio que quase sempre proíbem animais. A última das reservas tem uma resolução mais simples numa nação que até há bem pouco era a segunda potência económica do mundo mas nem assim pode ser desdenhada. Os gatos vadios são praticamente inexistentes em Tóquio e cada exemplar recém-nascido custa, nas lojas de mascotes da cidade, uns módicos 120.000 ienes, leiam-se mais de mil euros.  

Mas no país das soluções imaginativas, práticas e lucrativas, este foi visto como apenas mais um problema social entre tantos outros e não tardou até surgirem empresas dispostas a explorá-lo.

Ikebukuro é um dos grandes bairros de Tóquio e o Tokyu Hands um dos seus vários armazéns comerciais onde encontramos, no oitavo andar, a famosa loja Nekobukuro baptizada com uma combinação de neku (o termo nipónico para gato) com o nome da zona em que se situa. Muito graças à localização central, o Nekobukuro tornou-se no mais popular mas vários outros estabelecimentos semelhantes existem, como o Cats Livin que se instalou na sofisticada zona de Odaiba, onde a mais avançada tecnologia de construção civil permitiu a Tóquio invadir a sua baía e estender-se em direcção ao oceano Pacífico.

As estruturas e decorações de ambas assemelham-se e, por muito que os menos apaixonados por animais achem ridículo, são pensadas em função do bem-estar dos gatos e da felicidade dos visitantes. Contam com diversas divisões funcionais ou temáticas partilhadas ou defendidas por vinte a trinta felídeos irrequietos ou letárgicos de todas as raças e aparências, do extra-terrestre Sphynx ao mais banal tareco.

Há a sala de estar com televisão que passa vídeos para gatos, biblioteca com computador a fingir e software de marca “gatal”, cozinha, casa de banho, entre outras. Em todas, as paredes estão equipadas com prateleiras, caixas, pequenas escadarias e passadeiras elevadas em que os gatos passeiam e exercitam os seus dotes acrobáticos. Mas também abundam alcofas e cestos em que outros dormitam horas a fio, mesmo sendo - como pudemos reparar - constantemente importunados por novos aspirantes a seus donos.

Estes últimos, entram equipados para conseguirem recordações, além das emoções. Entre as festas e as brincadeiras com novelos de lã e ratinhos de borracha, vão guardando vídeos e fotografias dos seus preferidos que revêem, depois, em casa, até que acabam por regressar para matar saudades, indiferentes ao cheiro ligeiramente ácido de urina das instalações. 

Por forma a facilitar a identificação e o conhecimento mútuo, todos os gatos estão exaustivamente catalogados num painel colocado à entrada, repleto de fichas com as suas imagens mais ternurentas, os nomes, raças e dados fisiológicos.

Apesar dos fortes instintos e da poderosa memória selectiva, para os gatos a tarefa pode revelar-se bem mais complicada que para os humanos. Num qualquer dia de fim de semana ou feriado, o Nekobukuro e afins estão à pinha. Os visitantes que os disputam são várias dezenas por hora e, com demasiada frequência, tresandam a perfumes da moda que impedem os felinos de usar convenientemente o seu olfacto. Ainda assim, os clientes retiram do contacto com os animais aquilo que podem e Segoy (o cool japonês) é a palavra da ordem, repetida vezes sem conta por adolescentes fascinados e mães comovidas com a alegria das suas crias. 

A maioria paga cerca de 600 ienes (4.40 euros) para acariciar as mascotes que gostaria de possuir durante horas a fio mas nem sempre é esse o caso. Alguns dos visitantes têm os seus próprios gatos mas cometem a “infelinidade” de se afeiçoarem a outros para satisfazer toda a sua paixão. Aproveitam igualmente para descobrir novas soluções de conforto, higiene e tratamento para os animais atraiçoados que deixam em casa.

E é esta a segunda fonte de lucro dos cats-cafes de Tokyo. Terminadas as brincadeiras, é comum os donos passarem pelas lojas e ali fazerem compras para as suas mascotes. Muitos ienes são então gastos em comida, areia para as necessidades e outros bens essenciais. Mas, todos os anos, o Nekobukuro e concorrentes vendem também incontáveis roupinhas de marca. São meias, coletes, gorros, às vezes Louis Vuitton e Dior, para condizer com as suas requintadas bolsas e malas. Mas levam também carrinhos de bebé e almofadas, guizos, coleiras, molduras para fotografias e uma miríade de outros produtos difíceis de descrever e que, como os próprios “gatis” japoneses só a fértil imaginação electro-nipónica se lembraria de gerar.

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