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Doca gelada

Doca gelada

Embarcações no porto gelado de Marjaniemi.

Ilha Hailuoto, Finlândia

Um Refúgio no Golfo de Bótnia

Durante o Inverno, Hailuoto está ligada à restante Finlândia pela maior estrada de gelo do país. A maior parte dos seus 986 habitantes estima, acima de tudo, o distanciamento que a ilha lhes concede.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Não conseguimos evitar um ligeiro engolir em seco face ao último dos reparos de Iiris: “o homem já não me queria deixar passar à vinda mas lá se deixou convencer. Vamos outra vez agora mas duvido que amanhã ainda seja possível voltar por aqui. Vêem essas rachas e poças nas extremidades? Querem dizer que a superfície está a ficar demasiado frágil. Por isso estão prestes a fechá-la.”

Percorríamos a estrada de gelo oficial mais longa da Finlândia que, durante o longo Inverno, liga o continente à Ilha de Hailuoto sobre as águas pouco salgadas do Golfo de Bótnia que o frio intenso desta latitude solidifica com relativa facilidade.

Perguntamos à condutora se, com toda a tecnologia nórdica, não tinham inventado ainda um qualquer sistema para corrigir aquelas falhas e garantir o uso da estrada por mais tempo. A resposta leva-nos ao cerne da alma alternativa e contraditória de Hailuoto. “Não, não existe máquina nenhuma desse tipo. Depende tudo da meteorologia. Há, no entanto, uma discussão já com vários anos sobre a construção de uma ponte. Muitas pessoas da ilha estão contra. Querem mantê-la isolada e tranquila. Mas umas boas centenas trabalham em Oulu. Se forem de ferry, demoram 1h30. São 3 horas por dia em deslocação e isto quando não têm que esperar porque o ferry só leva 6 carros.

Questionamos porque essas pessoas não se mudam para Oulu. Iiris assegura que já não trabalha em Oulu mas que nem assim para lá voltaria e passa a explanar uma série de vantagens da sua nova vida insular com destaque para a segurança suplementar, para a tranquilidade e autonomia. Desde o pequeno-almoço no hotel de Oulu que estamos com ela. Sabemos que uma outra razão de coração teve influência no retiro.

“Fizeram a viagem do “Sampo”? Eu também tenho o meu próprio Sampo. Vão gostar de o conhecer”.

Segundo a mitologia finlandesa, sampo era um artefacto mágico difícil de qualificar mas que trazia boa sorte ao seu possuidor. Tinha sido construído por Seppo Ilmarinen, um espécie de deus rapaz, ferreiro, eterno martelador da mitologia finlandesa.

Mais a norte, em Kemi, “Sampo” foi também o nome dado a um quebra-gelo que deixou de ser útil para abrir caminho às embarcações cada vez mais largas a sulcar o Golfo de Bótnia e, por isso, adaptado por uma empresa para pequenos percursos turísticos demonstrativos do seu poder fragmentador e da beleza da paisagem marítima gelada.  

Entramos em Hailuoto. Entre florestas de coníferas polvilhadas pela neve e campos agrícolas enregelados, chegamos à pequena fazenda do casal. Iiris entra em casa. Pouco depois, regressa acompanhada do seu quebra-gelo cara metade. Sampo não faz jus à analogia. Começa por se mostrar intimidado pela presença destes forasteiros do sul e pouco fala enquanto reúne o que necessita para a manhã de pesca à rede que íamos acompanhar. O tempo na região manteve-se sempre sub-árctico. Em breve, à sua maneira, o anfitrião conceder-nos-ia um tratamento bem mais caloroso.

Metemo-nos os quatro na carrinha Volvo do casal, também carregada de instrumentos rurais e de pelos de animais. Um curto percurso conduz-nos de novo ao litoral congelado. Iiris prepara uma fogueira para nos despertar de uma certa inércia matinal com café e bolachas. Enquanto isso, Sampo regressa a casa para recuperar algo de que se havia esquecido e esperamos por Marko, um amigo da família e um dos verdadeiros pescadores profissionais da ilha.

Sampo demora-se. Marko, pelo contrário, aproxima-se a grande velocidade na sua mota de neve, sobre a superfície resistente mas nevada do golfo. Viramos-lhe as costas por momentos para responder a um qualquer repto de Iiris. Quando menos esperamos, ouvimos estalar os troncos e galhos de uma sebe natural. Entusiasmado com a sensação de liberdade sugerida pela ligeireza e pelo branco sem fim, o aventureiro tinha decidido meter-se terra adentro por uma abertura paralela ao trilho normal. Para seu infortúnio, a neve acumulada camuflava uma vala. Foi essa a última paragem do snowmobile, que ficou atascado entre árvores juvenis.

Marko entrou em choque. Como qualquer um faria, tentou emendar a mão antes que o incidente chamasse demasiada atenção mas, malgrado a sua enorme estatura, depressa percebeu que ia necessitar de ajuda.

Juntamo-nos aos seus esforços inglórios. Por largos minutos, escavamos enormes blocos de neve da vala para abrir uma trajectória de escape para a mota. Tudo em vão.

Sampo aparece finalmente com algumas pás. E um vizinho cinquentão, com força hercúlea, completa a equipa de salvamento. Enquanto manipula o volante o acelerador da mota, Marko auto-insulta-se e roga pragas à sua falta de discernimento. Mais cedo do que esperava, o grupo liberta-o daquela inusitada humilhação para uma foto comemorativa e para a já muito atrasada pescaria.

Agradecido, sobre a mota-de-neve também incólume, o finlandês organiza então um vai-e-vem que nos poupa a caminhadas extenuantes com neve pelos joelhos, até ao local em que Sampo mantinha as redes. Quando lá chegamos, o nativo instala um toldo rudimentar que o protege do vento cortante, cava um buraco redondo e descobre uma das pontas da longa malha estendida sob o gelo. Sampo veste uma camisola de pesca típica de Hailuoto que termina numas luvas do mesmo tom beije com os dedos cortados. Sem vestígio de pieguice, mete as mãos na água frígida e começa a puxar a rede, retirando os peixes nela emaranhados.

Marko conhece o ofício de cor. “Durante 15 anos, fui engenheiro da Nokia. Só que, em 2012, fartei-me de vez das viagens sem fim e de toda a instabilidade.” A ruptura foi tal que, mesmo consciente das suas habilitações e do salário generoso, optou por se retirar com a esposa tailandesa para a vida de Hailuoto que, como Sampo e Iiris considerava bem mais genuína e honesta que a subjugação corporativa predominante nas maiores cidades finlandesas. Também na ilha encontrou forma de subsistência.

Há muito que os restaurantes de Oulu e arredores pagavam bom dinheiro pelo peixe fresco. Marko não esteve para meias medidas. Comprou 1 km de redes e passou a vender as centenas de espécimes que recolhia todas as manhas, desde que a meteorologia o permitisse.

Começamos a tarde a degustar a iguaria numa mesa da Kievari, uma pousada-restaurante acolhedora de Hailuoto. Durante o repasto, surge um casal de vizinhos e amigos que viajavam com frequência para Goa. “Qual é mesmo o teu apelido?” perguntam. “Pereira?” Ah sim, já me lembro. É esse mesmo. Ainda o usam muito! Vamos voltar para lá em Abril.”

Depois do almoço, Sampo e Marko retornam aos seus afazeres. Iiris conduz-nos a Marjaniemi, uma península-doca da ilha que, malgrado o cenário frígido e inóspito, a anfitriã nos assegura ser uma praia divinal no Verão. O sol mergulha sobre o horizonte. Aquece ligeiramente os tons dos barcos de pesca em doca gelada e uma outra haste de vegetação que resiste ao Inverno implacável.

“Estas botas estão-me a falhar.” confessa-nos. “Tenho que ir a casa trocá-las. Estou com os pés encharcados.”

Pelo caminho, o lusco-fusco instala-se e tinge o céu de magenta. Passamos por alguns velhos moinhos de madeira e, por eles enfeitado, o cenário encanta-nos a dobrar. Pedimos à condutora para nos abandonar à beira da estrada e nos recuperar quando tivesse resolvido o problema do calçado. Nesse tempo, ainda sem raquetes de neve, resistimos a uma caminhada cruel com a neve quase pela cintura, só para chegarmos mais próximo das estruturas.

Quando Iiris nos resgata da berma, estamos de rastos. O regresso ao lar e o convívio descontraído no curral compartimentado em que ela, Sampo e a filha Elli criam porcos, ovelhas, cabras, galinhas e outras espécies menos usuais, surge como uma recompensa e faz-nos perder dois ferries de regresso. O casal convida-nos ainda para o conforto do seu lar e brinda-nos com chávenas de chá revigorantes. Faz-se tarde e o cansaço aperta mas conversamos sobre a ilha e os seus projectos de eco-turismo até ao limite.

Iiris reclama as últimas energias e leva-nos ao barco seguinte e a Oulu. Aproveita a viagem para contar outras peripécias da vida do casal em Hailuoto. A sua desinibição volta a parecer-nos bem mais latina que nórdica. Soa, no entanto, com o ritmo tranquilo e vagaroso com que os finlandeses aprendem a falar e hipnotiza-nos.

”Sabem que quando conheci o Sampo, estava sempre preocupada com a consanguinidade aqui da ilha. Como devem calcular, antes não existiam estas estradas nem os ferries. Isolados em Hailuoto, sempre foi inevitável que, de uma forma ou de outra, tudo ficasse mais ou menos em família. Envolvemo-nos depressa mas a última coisa que queria era ter filhos com problemas. Até que ele me disse que a mãe dele era do continente. Foi tudo o que precisava de ouvir. Agora temos a vida que queremos. Com todas as contas e mensalidades a acumularem-se, claro que não é fácil mas pelo menos lutamos à nossa maneira e, apesar de vivermos com um certo afastamento, gostamos muito de mostrar a ilha aos visitantes.”

Iiris conduz o carro para bordo do ferry. A embarcação zarpa para a imensidão álgida do Golfo de Bótnia. Três derradeiras horas e esta recém-convertida a Hailuoto estará de novo a salvo das luzes excessivas de Oulu e das agruras sociais da Finlândia cínica e competitiva.