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Rua de Pedra

Rua de Pedra

Uma rua típica, assente numa calçada irregular feita de grandes pedras e dotada de candeeiros amarelos.

Colónia del Sacramento, Uruguai

Um Vaivém Colonial

A fundação de Colónia del Sacramento pelos portugueses gerou conflitos recorrentes com os rivais hispânicos. Até 1828, esta praça fortificada, hoje sedativa, mudou de lado vezes sem conta.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


À medida que a tarde se aproxima do fim, fica cada vez mais óbvia a razão porque o caudal que contemplamos foi há muito baptizado de Rio da Prata. Sentados sobre uma das muralhas baixas da grande fortificação apreciamos o fenómeno tomar conta do estuário e da alma dos uruguaios que povoam as suas margens.

O céu está limpo há já alguns dias. Exibe o mesmo azul que inspirou a  bandeira uruguaia e também a da vizinha nação argentina, a uns poucos quilómetros do outro lado da bacia.

Grupos de amigos ocupam saliências rochosas e convivem de canas de pesca em riste. Outros, aventuraram-se na imensidão da água salobra.

Vemos um pequeno barco com três pescadores a bordo que ancoram a embarcação sobre o feixe amplo de luz solar. Nesse preciso momento, as suas figuras barram o reflexo da superfície e produzem uma curiosa silhueta móvel.

Colónia del Sacramento e os seus vinte e cinco mil habitantes permanecem sedados pela vida retirada e hedonista. Como numa espécie de compensação pelo passado bélico da povoação.

A Nova Colónia do Santíssimo Sacramento – o seu nome original – foi a primeira colónia europeia em todo o território actual uruguaio. Chegava o século XVII ao fim e os comerciantes do Rio de Janeiro mostravam-se mais ansiosos que nunca em concretizar negócios com as colónias rivais da província de Rio de la Plata, principalmente Buenos Aires.

Determinado em apoiar os seus intentos, o Mestre de Campo Manuel de Lobo organizou uma expedição e navegou até ao Rio da Prata. Em Janeiro de 1680, deu início à presença portuguesa nesta região que a Coroa lusa considerava situar-se a leste da linha formada pelo Tratado de Tordesilhas, ainda e sempre envolto numa irresolúvel controvérsia.

Inteirados da presença dos oponentes, os espanhóis mobilizaram tropas do Peru, da Argentina actual, do Paraguai. As Missões Jesuítas do rio Uruguai, por si só, enviaram cerca de três mil indígenas a pé e a cavalo.

No campo oposto, Manuel Lobo também pediu tropas de reforço mas as embarcações que as transportavam naufragaram à entrada do Rio da Prata. O desequilíbrio de forças tornou-se óbvio. Sete meses depois do seu estabelecimento, Colónia del Sacramento foi capturada. Os espanhóis mudaram-lhe o nome para Fuerte del Rosario. Manuel Lobo foi feito prisioneiro em Buenos Aires onde morreria três anos depois. E começou, então, uma longa alternância de posse que conferiu à praça a sua arquitectura peculiar. 

Assim que passamos o fosso sobre a enorme ponte de madeira, Colónia del Sacramento prova-se um lugar feito, na origem, com poucas ou nenhumas preocupações de conforto. Rua atrás de rua, beco atrás de beco retemos a sensação da eminência de um pé torcido, tão irregulares são as pedras que formam o seu calçadão negro, entre paredes reforçadas e bastiões imponentes.

Mas os séculos passaram. Apesar de alternantes, as presenças de líderes políticos, militares e religiosos das nações em contenda tornaram-se mais longas e justificaram edificações com outros cuidados. Em tempos recentes, o Uruguai deu bom uso a esta herança e arrecadou para a fortificação o estatuto de Património Mundial da UNESCO.

Quando percorremos o traçado geométrico, cercados de sicómoros, constatamos que muitos dos edifícios foram convertidos em museus, restaurantes, bares e lojas invariavelmente com decorações coloridas e elegantes, iluminados de noite por candeeiros de estilo parisiense como os que ainda equipam várias zonas históricas de Lisboa.

A identidade urbanística mantinha-se e a corte da capital não tardou a reclamar a titularidade da sua mais recente colónia. Um ano depois da conquista hispânica, acolheu a assinatura do tratado provisional que estabeleceu a sua devolução a Portugal. Também oficializou a desaprovação do ataque espanhol e a sanção do governador e capitão general da província do Rio da Prata, José de Garro. Em 1701, as duas partes assinaram, ainda em Lisboa, o tratado que estabelecia a primeira de várias cessões definitivas mas efémeras a Portugal.

Deixamos os almacenes, bodegas e pulperias em que entramos sempre  maravilhados com a sua beleza e originalidade. Conjecturamos que a apetência dos colonienses para os negócios poderia ter raízes no espírito empreendedor dos seus antecessores. A história parece sustentar a teoria.

O acordo luso-hispânico proibiu o comércio da praça com as colónias espanholas circundantes mas, a meio do século XVIII, Colónia del Sacramento havia-se já convertido num entreposto de contrabando português e britânico apostado em lucrar com o fornecimento das povoações hispânicas. O prejuízo para a Coroa espanhola revelou-se de tal monta que Felipe V encarregou o governador de Buenos Aires de construir uma fortificação em Montevideo, só para controlar o comércio ilegal.

Essa fortificação veio a dar origem à capital do Uruguai, o ponto de partida da maior parte dos visitantes nacionais de Colónia, por norma em evasões de descanso e lazer. Saímos de uma rua embelezada por dois calhambeques garridos. Algumas dezenas de metros para diante, passamos por um casal de namorados que, instalado de forma quase acrobática sobre um muro estreito partilha uma bombilla de chá mate, precavidos com o inevitável suplemento de água quente num termo complementar. Metemos conversa e não tardamos a confirmar o seu notório bem-estar: “pois sabem como é” dizem-nos com forte conversão dos ipsilons e duplos "eles" em "jotas", como é convencional do sotaque castelhano da zona: “um uruguaio sem mate não é um verdadeiro uruguaio. Aqui, em Colónia, levam isso bem a sério. Lugar incrível este, não é? Nós adoramos cá vir. São portugueses? Ah, muito bem, muito obrigado por se terem lembrado de cá vir fundar isto!”

O diálogo prolonga-se. Como é de esperar, também chega ao tema do vai e vem permanente da fortaleza entre Portugal e Espanha. Uma oscilação que se prolongou século XIX adentro.

Em 1750, o Tratado de Madrid estipulou que a colónia deveria voltar ao jugo hispânico, contra a cedência dos “Siete Pueblos de las Misiones”, no actual estado brasileiro do Rio Grande do Sul. Com a entrada da Espanha na Guerra dos Sete Anos, as conversações foram interrompidas e Espanha ocupou-a. A guerra terminou com a assinatura do Tratado de Paris que estabeleceu nova devolução a Portugal.

Mas... em 1777, Carlos III decidiu revertê-lo. Enviou nova expedição e reconquistou Colónia.

Volvidos trinta anos, foram os britânicos a arrebatar a praça aos espanhóis. Como se não bastasse, ajudaram a fomentar as primeiras noções independentistas que inspiraram o movimento de libertação da Província Oriental.

Em 1818, na sequência da invasão luso-brasileira e 40 anos após a ter perdido pela última vez, Portugal reocupou Colónia del Sacramento. E, para pôr finalmente cobro à interminável sequela, em 1828, a fortaleza passou a fazer parte do Estado Oriental do Uruguai, estado embrionário do Uruguai dos dias de hoje.

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