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Preces ao fogo

Preces ao fogo

Sacerdotes xintoísta lança preces inscritas pelos crentes em tiras de madeira ao fogo.

Quioto, Japão

Uma Fé Combustível

Durante a celebração xintoísta de Ohitaki são reunidas no templo de Fushimi preces inscritas em tabuínhas pelos fiéis nipónicos. Ali, enquanto é consumida por enormes fogueiras, a sua crença renova-se


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Aproxima-se a uma e meia da tarde e o templo Fushimi de Quioto ganha vida. Os japoneses são metódicos e gostam pouco de se atrasar mas continuam a chegar pessoas de bicicleta ou das estações de Inari ou Keihan Fushimi Inari, num dia outonal de céu azul e sol que mal se sente.

Sacerdotes e músicos preparam as vozes e os instrumentos para uma pré-cerimónia que está prestes a ter início. Ao mesmo tempo, numa ala oposta do templo, os crentes mais atrasados apressam-se a escrever os seus desejos e preces em pedaços de madeira sagrada (gomagi) com as assinaturas da família imperial - e à venda por umas centenas de ienes (3 ou 4 euros). Mas o momento que se segue é solene e, até, televisivo.

Por esta altura, as colheitas de arroz terminaram e cabe aos ministros xintoístas agradecer aos deuses a prosperidade que aqueles concederam. Um deles coloca uma meda seca de planta de arroz na vertical sobre o pavimento e queima-a sob o olhar concentrado do público. Esta pequena operação incendiária funciona como uma espécie de entrada simbólica para a queimada a sério porque os fiéis anseiam.

Extinto o fogo em segurança – aparece até um auxiliar com um carrinho-de-mão cheio de água para o garantir - os sacerdotes movem-se para o interior do santuário e, ao som estridente de uma shakuhachi (flauta de bambu nipónica) benzem oferendas de fruta, vegetais, saquê e outras iguarias que colocam sobre um altar já repleto de bandejas. O momento prova-se tão sagrado que é proibido fotografar ou gravar e só um ou outro forasteiro tentam subterfúgios para conseguirem registos sem chamar demasiado a atenção. Segue-se uma espécie de missa a que, de lugares condignos, assistem apenas convidados ilustres. O ritual começa com a participação de jovens sacerdotisas do templo, ou mikos. Estas levam a cabo danças arrastadas (kaguras) que sincronizam com a  percussão de um gongo poderoso e com o tinir contrastante das kagura suzu (instrumentos que agrupam pequenos sinos), que também lhes cabe tocar. Vozes femininas aparentemente distantes e outros instrumentos de sopro conferem à celebração um forte misticismo que os sacerdotes reforçam com os seus próprios movimentos etéreos da coreografia.

Estamos num dos principais santuários nipónicos dedicados a Inari, deus da fertilidade, do arroz, da agricultura, das raposas e da indústria, providencial tanto para o xintoísmo como para o budismo. Várias das raposas mensageiras (kitsunes) espalhadas pelo vasto templo supervisionam e validam a reverência ao seu senhor, protegendo-o e aos súbditos humanos das energias maléficas que os japoneses crêem fluir de nordeste. Se chegam em forma de vento, aquele não é o seu dia.

Sob o olhar do público, os sacerdotes e sacerdotisas de Fushimi formam uma longa fila branca e vermelha e mudam-se para um terreno mais elevado do santuário, onde é suposto continuar o evento.

Percebemos que estamos junto à base da famosa taisha de Inari, o santuário principal do templo, constituído por centenas de toris (portais) cor-de-laranja com bases negras que são oferecidos pelas empresas, fabricantes e mercadores do Japão que assim procuram  reclamar ao deus a sua própria prosperidade. 

A assistência que até então acompanhou os acontecimentos está agora instalada debaixo de uma tenda de lona, atrás dos intérpretes religiosos e musicais ou em redor do átrio rectangular. À volta, impõe-se uma floresta húmida de que ecoam os grasnares e pios dos corvos e outras aves, entusiasmadas por se banquetearem com os insectos afugentados por toda aquela comoção. 

O ritual prossegue junto a três bases verdejantes de fogueiras, cobertas de ramas de cedros e em que foram colocados gomagis, folhas de chá, sal e saquê sagrados. Um sacerdote benze-as e, logo em seguida, outros incendeiam-nas. Três colunas de fumo acinzentado sobem para o céu. Pouco depois, dissipam-se.  As primeiras chamas emergem do sufoco da lenha e ganham dimensão. Um coro alinhado de sacerdotes passa a entoar um mantra que irá acompanhar grande parte da cerimónia. Com as chamas cada vez mais altas, os religiosos inauguram a fastidiosa queima de gomagis que lançam solenemente sobre o fogo como uma espécie de micados-preces condenados a carvão.

Ao fim de 45 minutos de combustão, as miko assumem mais uma vez a cerimónia com nova dança graciosa chamada miko-mari. Depois, voltam a dar lugar à interpretação do mantra que a antecedeu.

Todos os anos, são várias centenas de milhares as preces inscritas pelos fiéis e a queima pode durar mais de 4 horas, até ao pôr-do-sol. Quando termina, os religiosos e a maior parte da multidão debandam. O grande pátio e as chamas remanescentes ficam entregues aos curiosos e aos bombeiros. Mulheres acorrem às mesas em que continuam dispostos os pratos com sal sagrado e folhas verdes de chá. Entre diálogos curtos e de ocasião, disputam, ali, recordações santas da cerimónia que guardam em pequenos sacos de plástico.

Enquanto isso, um batalhão disperso de soldados do fogo partilha o que resta das fogueiras com os fiéis e atiram ramos perdidos no solo de seixos pelo puro prazer de os ver sumir nas labaredas. De quando em quando, um ou outro lembra-se das suas funções e impede os populares de se chegarem demasiado ao fogo para recolherem as cinzas que crêem trazer boa sorte aos lares.

Por fim, as autoridades decidem que está na hora de evacuar os crentes mais resistentes. Com os habituais salamaleques verbais nipónicos comunicam-lhes que têm que abandonar o recinto. Mas um idoso armado com um chapéu de chuva decide brincar com o polícia que o aborda e permanece. O agente fica baralhado. Está a lidar com um ancião e, no Japão, o respeito pelos mais velhos é supremo. Olha para trás, para os colegas, como que a pedir socorro mas nenhum o acode. Por fim, segura o braço do resistente que se diverte por momentos com a situação mas acaba por ceder.

O Ohitaki é um dos rituais mais antigos do xintoísmo e, como constatámos por esta e outras manifestações, tem agregado um poder rejuvenescedor de ligação à Natureza. Conscientes de que as boas colheitas dependem da boa vontade dos deuses, as pessoas mostram o seu agradecimento com ofertas do arroz recém-colhido e orações sentidas. E, como tanto os deuses como os humanos compartilham a Natureza, a sua relação assenta na reciprocidade de que os deuses precisam de atenção como os humanos necessitam de ajuda. A cerimónia contribui, assim, para que as pessoas reconheçam a felicidade na sua humildade e dependência. E para que mantenham a chama da fé acesa.