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Maré de nenúfares

Maré de nenúfares

Visitantes atravessam o pantantal Marimbus.

Lençois da Bahia, Brasil

Uma Liberdade Pantanosa

Escravos foragidos subsistiram séculos em redor de um pantanal da Chapada Diamantina. Hoje, o quilombo do Remanso é um símbolo da sua união e resistência mas também da exclusão a que foram votados.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Apesar do fim da prospecção mineira e da escravatura, algumas das gentes de Lençóis mantiveram-se à parte da evolução, perdidas no tempo e fiéis à história. Foi o caso dos garimpeiros, uma classe hoje isolada da sociedade local que mantém representantes solitários a viver e a trabalhar em condições precárias nos leitos dos rios e riachos mas também povoações que agrupam descendentes dos antigos prospectores, como Estiva um vilarejo perdido no meio da imensa catinga do interior da Bahia. E foi também o que se passou com Remanso, uma comunidade que sucedeu a distintos quilombos antes disseminados nesta zona remota e isolada dos arredores de Lençóis.

Seja ou não verdade, diz-se que o primeiro destes quilombos foi inicialmente povoado por um escravo que liderou uma fuga temerária de uma senzala através do Marimbus, na altura bem mais repleto de jacarés, piranhas e anacondas que agora - o que há muito frustrava qualquer tentativa de evasão.

Esse e outros escravos, terão ficado entregues à sua sorte e obrigaram índias - então ainda existentes na zona – a viverem e a procriarem com eles. Em vários casos, isso aconteceu após os fugitivos resistirem a tentativas de recaptura, numa era pós-colonial em que a sua desobediência escandalizava muito mais a população livre e abastada que o arrastar da escravatura.

Quando chegámos ao Remanso, um destes cafuzos, conhecido por António do Remanso passou a guiar-nos naquele cenário baiano exótico em que cresceu. “Com certeza!” É com a popular expressão abrasileirada e um forte sotaque sertanejo que nos responde a quase todas as perguntas e confirma a maioria das nossas observações.

António exibe uma suavidade de trato pouco comum no género masculino que nos pareceu, de imediato, estar associada aos seus traços andrógenos igualmente raros, por aqueles lados.

Foi este anfitrião que nos indicou a canoa escolhida de entre dezenas ancoradas à entrada do Marimbus e que, apoiado por Tiago, um colega de ofício bem mais másculo e musculado, deu início à navegação. 

O Marimbus ocupa uma vasta (1250km2) área alagada entre Lençóis e Andaraí. É alimentado por três rios e esconde algumas lagoas interligadas em que, abrigadas por papiro (localmente chamado de marimbus ou peri) a restante flora e uma fauna mista da Mata Atlântica e da Amazónia proliferam .

A embarcação de madeira zarpou com a lotação esgotada e o peso exagerado exigiu esforço redobrado aos remadores. Mesmo assim, lá avançámos aos poucos, a romper um denso manto verde formado por distintas plantas aquáticas e embelezado por centenas de nenúfares, pelo menos até o sol tropical (o Trópico de Capricórnio atravessa a Chapada Diamantina) fazer as suas flores coloridas recolherem. 

Tínhamos como primeiro objectivo uma tal de Fazenda Velha e o tempo do percurso para a atingir multiplicou-se muito para lá do previsto com a concordância dos guias que nunca se escusaram a parar ou a desviar-se da rota para nos mostrarem os espécimes animais e vegetais mais exuberantes ou apenas interessantes.

Uma hora e meia e muitos meandros sem visibilidade depois, demos com um braço de um rio. Ali, a pouca profundidade obrigou-nos a encalhar a canoa na beira e prosseguir a pé o pouco que restava, ao longo do leito arenoso e avermelhado do Roncador. 

Regressados a terra, metemo-nos num trilho de mato cerrado. Prendado com a sombra de um cajueiro e com o sumo açucarado dos frutos que todos partilhamos, António aproveita para dissertar sobre o passado do Remanso e as crenças e rituais afro-brasileiros que subsistiam na comunidade. Ao conjugamos as suas palavras com as de vários outras figuras da aldeia, inteirámo-nos de como tudo se terá passado. 

A povoação, em si, foi fundada por Manoel da Silva – Manézinho do Remanso (hoje com 73 anos), pelo irmão Inocêncio e por três primos mais as respectivas famílias, em 1942. Mas a história da ocupação escrava daquele confins é muito anterior. “Meu bisavô era índio e foi ‘pegado’ no mato a dente de cachorro”, habituou-se o próprio Manézinho a contar a quem chega de fora. “Na senzala, ele se casou com a minha bisavó, que ainda veio de África” (cálculos feitos, supostamente no início do século XIX).

“Aqui, somos todos primos e filhos de primos que casaram com primos”. “Meu avô era pescador e, de pai para filho, todo o mundo era pescador”, esclarece o ancião. “ No começo, a vida era difícil. A gente pescava tucunarés e crumatás, guardava os peixes num viveiro e, no dia de feira, prendia tudo pelo boca num cambão (vara de madeira), saíamos ainda de noite, a pé, para vender lá em Lençóis”. 

As décadas passaram e o Remanso adornou-se com as primeiras modernidades, incluindo uma TV a cores ligada a uma antena de satélite que atraía toda a comunidade em redor dos episódios das novelas mais populares. Mas a aldeia permaneceu muito tempo sem benefício de uma rede social e de infra-estruturas erguida quase apenas em Lençóis, como tal, desprovida de escolas, centros de saúde ou do que quer que fosse.

Os habitantes queixam-se ainda repetidamente que, apesar de estarem numa terra abençoada no que diz respeito à sua beleza e fertilidade, o Remanso e o Marimbus não providenciavam empregos e obrigaram muitos dos seus filhos a migrar para Lençóis e outras paragens bem mais distantes do Brasil.

Mas, nos últimos tempos, a aldeia começou, por fim, a beneficiar do vigor turístico crescente da Chapada Diamantina.

A comunidade cobra, agora, entradas aos forasteiros que a visitam e ao Marimbus e os guias são remunerados pelas pequenas agências instaladas em Lençóis.

Esse desafogo, com os proveitos adicionais das roças, da pesca e da criação de mel – mas também de outras artes e ofícios - permitiram a vários nativos regressar e, senão prosperar, pelo menos sustentar as suas famílias.

A auto-estima indígena do Remanso provém, em grande parte, da consciência das origens marginais da comunidade. E, quando as famílias se unem para celebrar o que quer que seja, essas origens  abençoadas por orixás, patuás e babalorixás ficam bem patentes ao som dos tambores, do berimbau, do reco-reco que dão o ritmo à capoeira dos mais jovens e aos cânticos de inspiração tribal e africana.

Regressamos à Fazenda Velha e admiramos o seu encanto de Sitio do Pica-pau Amarelo isolado antes de um almoço baiano revigorante.

O caminho de regresso fez-se contra a corrente. Foi também bastante mais doce. No meio do pantanal, cruzamo-nos com dois apicultores conhecidos de António e Tiago, em plena recolha. Completada uma acostagem suave e um pouco de conversa bem disposta, os nativos sumidos em fatos e máscaras protectores brancos que os mantinham em destilação, prendaram-nos com favos ainda ensopados de mel.

Pouco depois, quando a noite já tomava conta do Marimbus, ancorámos de volta no Remanso e regressámos à civilização pós-colonial de Lençóis da Bahia.

Guias: Brasil+